Ignorância é força

Desde o fim da II Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim, o mundo viveu sob o constante medo da Guerra Fria: duas potências, cada qual a seu lado, impondo à força sua visão de mundo. O futebol não ficou alheio a isso: tratado como amador nos países do bloco socialista, rendeu medalhas de ouro a estes em todos os Jogos Olímpicos de 1952 a 1980, já que entravam na disputa com suas seleções principais enquanto o resto do mundo enviava apenas, como mandava a regra, amadores. A história das Copas do Mundo também tem seus capítulos: da Copa da Suíça em 1954, em que Brasil x Hungria fizeram o duelo capitalismo x comunismo com vitória húngara, “xingamentos” de comunista da delegação brasileira ao juiz inglês e batalha campal após cusparada de um jogador magiar em um atleta canarinho, à Copa de 1974, quando a URSS se recusou a jogar uma repescagem contra o Chile de Pinochet e ficou de fora da disputa, passando por 1966 e o gol do inglês Hurst na final contra a Alemanha em que a bola não ultrapassa a linha e o bandeira do Azerbaijão – ex-república soviética – valida o lance e por 1970 e o gol do Uruguai contra a URSS em que um jogador sul-americano cruza uma bola que havia saído mais de metro, a zaga soviética pára e o time uruguaio marca com a conivência de juiz e bandeira – entre outros episódios.

Com o fim da Cortina de Ferro e da Guerra Fria, o mundo ficou definitivamente sob a égide do capital. O futebol não seguiu caminho diferente. A disputa simbólica capitalismo x comunismo acabou relegada ao folclore no esporte, agora regido pelas duras regras de sua entidade máxima, a toda poderosa Fifa. Até que a Coreia do Norte, “resquício” do mundo bipolar e sob uma ditadura política que impõe feroz censura à imprensa - categoria cada vez mais protagonista de um mundo cada vez mais midiático -, resolve voltar à cena e se classifica para a Copa de 2010.

Vivemos o século XXI e o senso comum diz ser inadmissível um governo privar seus cidadãos da “verdade”, representada pela enxurrada de informações capitaneada principalmente pela internet. Críticas são feitas ao bloqueio à rede mundial de computadores no Irã e na China. Pede-se a cabeça de Hugo Chávez quando este fecha o canal de televisão mais poderoso da Venezuela. E, como era de se esperar, brada-se contra o governo norte-coreano ao se ter a notícia de que os jogos de sua seleção não seriam televisionados ao vivo, apenas reprisados caso o país tenha feito um bom jogo. “Inimigos da democracia”, “assassinos da liberdade” e muitos outros epítetos de mesma estirpe ecoam pelos quatro cantos do planeta. O mundo do futebol, que não guarda com muito carinho as alianças entre ditadores e esporte (Mussolini em 34, Vargas em 50, Videla em 78, pra ficar só  nos exemplos mais explícitos), tem na Coreia do Norte um revival da Guerra Fria. Numa época em que o ideário do consumo venceu, ser impedido de consumir a Copa é impensável para a democracia ocidental.

A Coreia do Norte, então, passa a ser o bode expiatório, o idiota útil da vez. Aquele que faz esquecer que Honduras, que também está na Copa, vive sob um golpe militar recém-aplicado, por exemplo. E os jogos da seleção asiática adquirem um estranho interesse.

No primeiro, derrota para o Brasil por 2 a 1. Derrota digna, uma vez que enfrentam a maior campeã do torneio de todos os tempos. Mas que não faz com que o mundo virtual deixe de brincar com os melhores momentos que supostamente seriam exibidos na parte norte da península coreana:

http://video.portalcab.com/?play=brasil_vs_coreia_do_norte_editado

Na segunda partida, 7 a 0 para Portugal, e “rumores”, ecoados por reconhecidos comentaristas políticos (de direita, claro) de que os jogadores seriam enviados para minas de carvão ao voltar para casa. Sem falar no alarde de possíveis deserções com consequências graves para as famílias dos desertores.

A terceira partida acaba ficando sem muita atenção, uma vez que a equipe já não tem mais chances de avançar, e o assunto Coreia do Norte é encerrado nas redações de jornais na África do Sul.

A Copa, porém, continua, e se encontra nas oitavas de final. Jogam Alemanha e Inglaterra. Os germânicos vencem por 2 a 1 quando Lampard chuta por cobertura. A bola acerta o travessão e ultrapassa – e muito – a linha do gol. Mas a arbitragem não vê e o jogo segue. O episódio Hurst-66 volta a ser lembrado.

Mais tarde, a Argentina enfrenta o México, e Carlos Tevez abre o placar para os sul-americanos em completo impedimento. A arbitragem outra vez não vê, mas o telão do estádio, que supostamente só deveria passar os lances livres de polêmica, exibe o gol para todos, incluindo o bandeira e os mexicanos. O árbitro consulta o bandeira mas, com medo de ser punido por anular um gol graças ao auxílio do telão, confirma o tento, para desespero da seleção – e da mídia – mexicana.

Nas redações, o poder do fetiche da informação é tão grande que se clama aos quatro ventos por duas coisas: ou se usa o auxílio tecnológico de uma vez, coisa que – nesse momento conveniente – a “reacionária” Fifa não permite, ou NÃO SE EXIBE lance algum no telão.

Pior acontece no site da entidade máxima do futebol. Os relatos dos dois jogos simplesmente omitem os fatos. No primeiro jogo, a bola inglesa apenas tocou o travessão. No segundo, Tevez abriu o marcador e foi tudo normal.

Isso mesmo: a censura, uma vez que não norte-coreana, é permitida e DESEJADA. Porque – diz-se ingenuamente – não é política. É para o bem do espetáculo – no caso do telão – e dos negócios – no caso do site. O todo poderoso mundo do capital futebolístico se vê encurralado. A Fifa ou admite que o jogo é humano e há erros ou admite o uso de tecnologia e tira o lado humano do jogo, torna-o mais lento – já que a cada consulta ao VT o jogo precisa parar, como no futebol americano – e menos interessante para seus principais compradores, os veículos midiáticos.

Não há, entretanto, menção alguma nas redações mundo afora à contradição explicitamente escancarada. O futebol está exposto: jogo ou negócio? Se for jogo, não faz sentido tanta atenção e tando dinheiro para “corrigir os erros humanos”. Se for negócio, há que se pensar uma solução para fazer passar a polêmica como parte do jogo, quando ela é na verdade necessária para atrair mais consumidores – todo mundo, mesmo quem não entende das regras, quer ver o absurdo gol inglês que não foi dado. Mais: o capital está exposto enquanto projeto político-ideológico que precisa da mentira da propaganda para sobreviver. O comercial de hambúrguer não pode dizer que comendo-o você correrá riscos de saúde. A Copa da Fifa, cujo slogan é o fair play, não pode deixar claro que você está pagando para ver um “espetáculo” que pode ser fraudado – voluntária ou involuntariamente – exatamente porque é humano. Um espetáculo que por vezes é injusto. Admitir que futebol não é pra ser justo é tirar toda a vestimenta de jogo democrático e igual para todos que serve para mascarar o enorme abismo entre times e jogadores trilionários que usufruem dos privilégios do jogo-espetáculo-negócio às custas de times e jogadores pobres utilizados como laboratório para novos “craques” – novos negócios.

“Ignorância é força”, dizia George Orwell em seu 1984. Os norte-coreanos seguem a citação à risca. O capital também. Ou há alguma diferença entre omitir fatos num país sob uma ditadura política e omitir fatos num mundo sob uma ditadura econômica?

O replay está para a Fifa como a cruz está para o vampiro. E ambos sugam nosso sangue – embora o segundo apenas no sentido figurado.

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Espírito guerreiro

Ano passado, me lembro de ter ido com bastante entusiasmo assistir ao filme “Fiel”. Esperava ver a sala de cinema lotada. Esperava um filme emocionante.

Saí da sessão onde figuravam menos de 20 testemunhas decepcionado. Mas uma coisa, ao menos, me tocou: Danúbia.

Jovem, entre 20 e 30 anos, Danúbia era uma daquelas pessoas que deve-se ter orgulho em conhecer: mesmo com um câncer a consumindo, fazia questão de ir aos jogos no Pacaembu, ainda que sozinha.

Celebrava sua vida não abrindo mão de suas paixões.

Ainda que sua aparição no filme possa ter servido para um apelo dramático um tanto quanto forçado, o fato é que Danúbia não era o filme, era mais. Mais uma guerreira de São Jorge, lutando contra um dos piores dragões que a humanidade já conheceu.

Essa semana, o Corinthians, em mais uma impressionante prova de contra-senso, lançou uma nova camisa número 3 com uma cruz em roxo no peito.

O mesmo roxo que grande parte da torcida não gosta. Porque desrespeita a tradição – o coração é alvinegro, não tricolor.

Mas para além do fato de que essa camisa poderia ter sido feita para agradar a todos simplesmente usando o branco no lugar do roxo, sendo inclusive uma jogada de marketing muito mais inteligente, há o fato de que a nova vestimenta foi anunciada com o lema de “espírito guerreiro”.

A cruz representaria São Jorge.

Não conheci Danúbia. Creio que o departamento de marketing do Corinthians, que abaixa a cabeça para o patrocinador e teima em brigar com seu maior patrimônio, que é a torcida, também não.

Porque se conhecesse, ao invés de jogar com uma cruz roxa no peito, jogaria com uma camisa repleta de fotos dela, que infelizmente nos deixou na quarta-feira.

Seria, essa sim, uma grande homenagem à São Jorge e ao espírito guerreiro que sempre se espera do time.

Uma prova de que o clube também nos é fiel.

Palavra que carrego tatuada no braço esquerdo, com orgulho. De fazer parte da mesma nação de Danúbia.

Nação que tem muitas cicatrizes, muitas marcas. E muitas tatuagens.

Danúbia se tornou uma delas.

A Fiel, para sempre, terá seu nome inscrito no peito.

Danúbia, deixo aqui estas palavras na tentativa de lembrar.

Que a sua luta sempre será nossa.

Que nunca estará sozinha.

Como tantas outras.

Porque a Fiel tem orgulho de suas guerreiras.

Que, com certeza, entoam lá de cima:

“Nem a morte vai nos separar
Até do céu eu vou te apoiar”

Não há placar eletrônico no mundo que consiga anunciar com precisão o número de presentes nos jogos do Corinthians…

À família de Danúbia, deixo meus pêsames e um abraço, mais que necessário nessas horas.

Tenham a certeza de que o que fica, pra sempre, é a luta, não o luto.

Do companheiro de arquibancada,

Kadj Oman.

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32 anos do eterno título do povo

O Movimento Rua São Jorge realizou ontem, no Estádio Museu Preto & Branco, no Tatuapé, com a presença de várias das torcidas organizadas do clube e de torcedores de todo canto – até de Americana, em plena terça à noite - evento em comemoração ao dia mais importante da história do Sport Club Corinthians Paulista: 13 de outubro de 1977.

Os torcedores do Time do Povo, então já há quase 23 anos sem um título para comemorar, ansiavam por gritar campeão a plenos pulmões de novo. Aliás, dizem os que lá estiveram na data que não só os corinthianos. Gritava comigo – por conta do barulho – um torcedor nascido coincidentemente em 13 de outubro e presente no Morumbi naquela quinta-feira:

- Você já viu são-paulino comemorando título do Corinthians? E palmeirense? Eu vi!

Não foi a primeira vez que escutei isso. Porque, de fato, deve ser duro aguentar ver uma torcida adversária crescer e se tornar mais e mais fanática em torno de um clube que não ganha nada. Então, o título corinthiano significava para os não-corinthianos – a única divisão possível para além do preto e branco – a libertação daquela encheção de saco.

Mas é óbvio que para nós significava mais. Muito mais.

Aquele Campeonato Paulista valeu e valerá mais – na minha opinião de quem nem era nascido na época, mas cuja mãe, sem ao menos gostar de futebol, estava no estádio pela magnitude do acontecimento – do que qualquer Copa Libertadores que por ventura venhamos a ganhar. Do que qualquer outro campeonato já vencido ou por vencer em nossa história.

Aliado à Democracia Corinthiana, 1977 forma o movimento de libertação do povo de uma posição de opressão, de inferiorização, para tomar de volta o seu devido lugar de motor da História. Mesmo que (apenas?) dentro da dimensão futebolística da sociedade.

Não à toa, estiveram na festa de comemoração dos 32 anos Basílio, o Messias Corinthiano; Tobias, a Muralha de 76; e Ataliba, o Terror da Ponta Direita, campeão em 82 (ainda reserva) e em 83.

Organizou-se uma mesa com os jogadores e mais alguns representantes da torcida para fazer a mediação, além de um lindo bolo comemorativo:

Os Heróis de 77, então, deram sua palavra, com a sempre folclórica intervenção de Ataliba.

A mesa abriu a conversa para perguntas da platéia. Tive a oportunidade de fazer uma delas – ou melhor, duas.

À Basílio e Tobias, disse que para nós, torcedores, era comum estar do lado de fora e vê-los dentro de campo, mas que para mim era algo meio que inimaginável, que sempre percorre meus pensamentos quando subo uma escada qualquer, a sensação de subir o túnel do Maracanã e ver 70 mil corinthianos ou adentrar o campo do Morumbi com 148 mil pessoas nas arquibancadas – o maior público da história do Panetone, no segundo jogo da final de 1977.

A resposta foi a de que estavam acostumados com muita torcida em qualquer lugar, porque sempre havia ao menos 15 mil corinthianos nos jogos do Corinthians, mesmo fora. E que atenderam alguns torcedores no hotel no Rio antes do jogo, mas não tinham a mínima noção de que haveriam 7o mil no estádio, o que realmente arrepiou.

Basílio disse ainda que para ele, no começo, foi impressionante o tamanho da torcida, já que ele vinha da Portuguesa, que tinha em seus jogos 20, 25 mil torcedores, e chegou no Corinthians pra jogar no Pacaembu com 73 mil pessoas – e pensar que hoje são permitidos só 40 mil…

Ataliba, então, pegou o microfone e completou:

- Pra você foi difícil? E pra mim então, que vinha do Juventus com suas 2 mil testemunhas e olhe lá?

Arrancou risos de todos, e me fez pensar em como a frase “a camisa pesa” se encaixa muito bem nessas situações. A relação do jogador de futebol com a torcida em um clube pequeno ou médio e em um clube de massa não tem como ser a mesma, e aí tem quem aguente – como eles – e tem quem não aguente – como tantos outros – a pressão da Fiel.

Direcionei então para Ataliba a segunda questão, sobre a outra ponta do movimento de libertação do povo, a Democracia: como era a reação dos jogadores de outros times quanto ao que se passava no Corinthians? Eles achavam estranho, errado, queriam saber como era, queriam ter o mesmo?

A resposta foi curta, grossa e ao melhor estilo Ataliba:

- Os são-paulinos sempre achavam brega. Achavam que era uma zona. Aí a gente foi lá e mostrou pra eles a zona. Duas vezes.

Tive ainda a oportunidade de conhecer Tatiana Melim, autora de um dos textos sobre futebol e política publicados no Passa Palavra entre junho e julho deste ano e republicado aqui. Muito bom ver cada vez mais mulheres tomando seu lugar no futebol, lugar que é aquele que elas quiserem ter – na torcida, em campo, na arquibancada. Sem depender de homem nenhum. Sendo sujeitos e não objetos.

Por fim, cortamos o bolo, cantamos o hino e agradecemos – mais uma vez – aos jogadores, pelo que fizeram e pelo que continuam fazendo, honrando a camisa do time do povo sempre. Porque a história, aqui do lado de baixo, se conta e sempre se contou assim: de pai pra filho, de geração em geração, celebrando cada conquista coletiva. Uma história que começou em 1910, como vem retratando excelentemente o Filipe em seu blog AnarCorinthians, e que é e sempre será eterna como o título de 1977.

O Movimento Rua São Jorge, ao realizar esse evento já apontando para a sua repetição ano a ano, vem preencher uma lacuna importantíssima na dimensão torcedora do futebol: a da preservação da memória pelas mãos do torcedor, e não da mídia oficial e oficiosa. Se queremos e buscamos sempre a libertação, como em 1954-1977, devemos fazê-lo pelos nossos meios, com as nossas mãos.

De punhos erguidos, como Basílio.

Vai, Corinthians.

Vai, não pára de lutar.

Que aqui da arquibancada – e cada vez mais também da Rua – a sua sempre Fiel Torcida não pára nunca de apoiar.

A foto do bolo é do blog da Waleska – outra corinthianíssima presente no evento.

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Basílio lá em casa

Achei a reportagem em que levaram o Basílio na minha casa. Mostram meus bichos (Preta, Branca e Boquita), falam das cinzas de meu pai que joguei no Pacaembu e depois ele aparece de surpresa lá.

Tem também um cara que tatuou o Túlio Maravilha (e levaram o Túlio no estúdio de surpresa enquanto ele tatuava) e outro que tatuou o Rogério Ceni.

E tem ainda um que ia tatuar o Fernandão mas desistiu porque ele foi pro Goiás, hahaha.

Vejam:

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Fotos da Zica

Aí está a Zica, a gatinha que eu encontrei domingo no Pacaembu.

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Paixão mercenária

Texto da Lelê, que é tão foda que dá orgulho só de poder dizer que sou amigo dela.

http://revistatpm.uol.com.br/blogs/eneaotil/2009/09/21/paixao-mercenaria.html

Paixão mercenária

Tuca,

Li sua justificativa por aí para processar o Corinthians por conta do uso da sua música. Ainda assim, não consigo te enxergar diferente do que um cara malandro que quis enriquecer por conta de uma música boa.

“Desde que a música que compus começou a ser cantada nas arquibancadas, 10 em cada 10 pessoas que vinham conversar comigo perguntavam se eu tinha registrado e se havia ganho algum dinheiro. Ao responder negativamente, sempre tinha que ver na cara da pessoa que ela me achava um otário.”

Esse seu primeiro argumento me fez ter vontade de nem ler o resto. Porque ele me faz pensar que você, além de viver rodeado de gente mal intencionada, acionou o Corinthians para provar para essa gente que você não é otário. Que você é sujeito macho, espertalhão. Aquilo que chamam de autoafirmação.

Só que quem ficou com cara de otário foi toda uma nação que fez da sua música um hino e saiu cantando por aí, tatuando no braço, nas costas. Que acordou e que dormiu assoviando-a tantas vezes, que se denominou mais um louco do bando, sem saber que alguém, quase um ano depois, cobraria R$ 700 mil do Corinthians por conta disso.

Entendo que é um direito seu registrar a música neste país de malandros onde todo mundo quer tirar vantagem. Deveria ter feito isso antes de milhões de corinthianos comprarem a sua camiseta. Porque a gente se sente lesado, sabe? Veja bem, eu, corinthiana, costumo comprar minha camiseta oficial para reverter o dinheiro ao clube, mesmo sabendo que muitas vezes ele é mal gerido pela diretoria. Se você, autor da música, tivesse produzido as camisetas e montado uma banquinha na porta do Pacaembu, muito provavelmente eu não teria comprado, apesar de a idéia ser realmente muito boa. Outros tantos pensam como eu e, muito provavelmente também, você teria arrecadado uns R$ 200, depois de vender a camiseta para a sua mãe, sua namorada e seu melhor amigo.

Você fez o processo inverso. Lançou a música, viu a proporção que tomou e agora quer comprar um apartamento duplex em Higienópolis, para ficar mais perto do Pacaembu. O dinheiro que eu gastei com a minha camisa não será revertido para o clube, portanto é isso que faz o corinthiano se sentir traído.

Ter escrito uma música de arquibancada não te faz um compositor, não te iguala ao Jorge Ben, ao Gilberto Gil e aos Racionais. Quando eu compro um CD desses artistas, eu sei para onde, exatamente, o meu dinheiro está indo. Se você acha que tem talento para a música, siga esse caminho e aí eu decido se compro ou não o “The Greatest Hits Of Tuca”. Se você acha que tem um talento para o marketing, cria um projeto e pede um emprego no Corinthians ou na Nike.

O que não dá é para ser torcedor profissional. O prêmio para um torcedor que sofre pra comprar um ingresso, que é maltratado na entrada do estádio, que tem que arcar com suas despesas, que só perde dinheiro com o futebol (e não ganha) nem é, por exemplo, o mínimo de conforto. Isso é direito. O prêmio para um torcedor é um gol bonito, aos 46 minutos do segundo tempo, fazendo o Corinthians ganhar de virada. Isso é um prêmio.

Acho que ainda dá para reverter essa situação. Já que a música é sua, fica com ela. Ou, se continuar processando o Corinthians e ganhar os seus R$ 700 mil (coisa que não acredito porque tenho certeza de que você não pediu autorização para o clube para usar o nome do mesmo), contrata um centroavante bom para colocar no lugar do Souza.

Sem mais,

Leonor Macedo

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A Zica do Pacaembu

Domingo, saindo do Pacaembu com uma amiga com a cabeça cheia pela goleada sofrida, coisa que há muito não via acontecer em casa, reparamos num amontoado de gente apontando pra um cantinho junto à parede. Passo olhando pra ver o que é e qual não foi minha surpresa ao constatar que havia um pequeno gato acuado junto a uma dobra no muro.

Agachei e tentei tocá-lo, mas o bichano estava com muito medo e tentava me atacar. Aos poucos, fui ganhando sua confiança, e fiquei ali uns bons 15 minutos sentado no chão fazendo-lhe carinho. Enquanto isso, esperava o estádio esvaziar e protegia o pequeno animal da curiosidade de crianças pequenas – que poderiam facilmente ter tomado uma bela unhada – e de marmanjos e donzelas que exprimiam, cada qual a seu tom de voz, “oooooooun, um gatinho”.

Uma delas, inclusive, alertou para o fato de que provavelmente era uma gatinha, uma vez que tinha três cores e machos com três cores são raríssimos. Pedi a minha amiga para encontrar uma caixa de papelão em alguma das lanchonetes do estádio e, com o Pacaembu já quase vazio, me arrisquei para pegar a gatinha pelo cangote e colocá-la na caixa.

Rumando com a bichana em direção ao último portão aberto do estádio, disse à minha amiga:

- Essa já tem nome: Zica. Tirei a Zica do Pacaembu.

Cheguei em casa com minha nova companheira e tive que trancá-la no banheiro, uma vez que não sabia a reação que teriam Branca e Boquita, as gatas, e Preta, a cachorra que já tenho por aqui. Tratei de arrumar-lhe uma caixinha com pano, comida, água e um pouco da areia das outras gatas, e fui ao computador ver se encontrava algum amigo veterinário online para umas dicas.

Nesse meio tempo, nenhum veterinário online, consegui, mesmo sem ter a intenção definida de doá-la, duas potenciais donas para a Zica. E já planejava o atraso no trabalho no dia seguinte para levá-la ao veterinário.

Só que, como todo torcedor apaixonado está cansado de saber, zica não se controla tão fácil assim.

Do quarto, ouvi um barulho na área e fui ver o que passava. Era ela.

Tinha forçado o trinco quebrado da janela do banheiro, a qual eu tinha deixado meio aberta para que entrasse ar, e fuçava pela área amedrontada pela Preta, que não queria mais do que cheirá-la, e pela novidade do lugar desconhecido.

Me aproximei e a Zica pulou na janela. Como já tenho animais em casa, entretanto, as janelas tem rede. Mas Zica é pequena e esguia e se enfiou entre o vidro e a rede propriamente dita. Tive que abrir a janela para tentar pegá-la, e com o movimento, por mais que eu tenha me esforçado em ser sutil, ela se assustou e passou a cabeça pela rede. Ao sentir-se presa, forçou o resto do corpo e foi-se telhadinho afora. Entrou pela janela do depósito da loja de peças automotivas que fica ao lado do meu prédio, a única saída possível daquele telhado.

Aborrecido, dormi mal, pensando apenas em bater na loja ao lado no dia seguinte pela manhã na esperança de reaver a Zica. Não poderia deixá-la correndo o risco de retornar às ruas – vai que ela volta pro Pacaembu…

Mas pela manhã descobri que o depósito tinha trocentas caixas e que a Zica provavelmente estaria perdida ali no meio. Deixei meu telefone e fui trabalhar. Só conseguia pensar na pobre gatinha assustada.

Quase no final do expediente, meu telefone toca e, pela primeira vez nas últimas 6 ligações, não é minha mãe: é o porteiro do prédio dizendo que encontraram a Zica, mas que esta fugiu de volta pro telhado e se enfiou numa caixa d’água abandonada.

Voei pra casa para ver aonde tinha se enfiado a gatinha e constatei que dali era impossível tirá-la. Por onde entrara não cabia um corpo humano, nem o meu, magro que sou. E me resignei a esperar que saísse, talvez retornasse à loja, e finalmente fosse capturada.

Até que a amiga que encontrou a Zica junto comigo ligou e disse que sua mãe tinha uma armadilha para gatos. Consistia numa gaiola em que jazia dependurado um pequeno gancho onde se podia prender um pedaço de carne de modo que, quando o gato o mordesse e puxasse, a gaiola se fecharia. Içei a armadilha terraço do prédio abaixo até o telhadinho e deixei ela lá.

De 17h30 até 22h ouvia a gata miar. Devo ter incomodado o porteiro pedindo para entrar no porão do prédio, onde ela dificilmente estaria mas podia estar, umas quinze vezes, e nada. De 20 em 20 minutos olhava pela janela e a carne estava lá, pendurada. Precisava me distrair.

Fui ver televisão, entoando mentalmente como se fosse escanteio para o adversário no Pacaembu:

- Sai, Zica! Sai daí!

Até que, telefone em punhos, enquanto conversava com uma amiga aniversariante*, vejo a Preta correr até a área e escuto um miado mais forte. Fui olhar e era a Zica: tinha caído na armadilha!

A fome havia vencido o medo da bichana, assim como a fé da torcida (quase) sempre vence as cabeçadas à meta de nosso arqueiro durante os jogos.

Subi com ela de volta ao banheiro e dessa vez fechei bem a janela. Não só a de lá mas todas as da casa. E tratei de alimentar a danada, que com a comida ficou um pouco menos arisca e até me deixou pegá-la no colo.

Ainda não sei se vou ficar com ela, vai depender da aceitação do resto da população animal que comigo habita. De certa forma seria interessante que fosse domada e por aqui ficasse. Conviver com a Zica antecipadamente seria um bom treinamento prévio para a Libertadores 2010. Mas caso não dê certo, com certeza a gatinha irá para as mãos de alguma companheira de arquibancada, das duas que já se interessaram pela bichana.

Porque com a Zica, você sabe, tem-se que ter muito cuidado.

Ainda mais às vésperas do centenário.

E ninguém melhor pra cuidar da Zica do que quem já está mais do que acostumado com isso, anos e anos fazendo parte da massa sofredora que não à toa é conhecida a todo lado por Fiel Torcida.

***

*A Zica do Pacaembu, em homenagem à aniversariante Renata, que comigo falava ao telefone quando a bichana finalmente caiu na armadilha, levará seu nome como sobrenome. De forma que nos próximos jogos, no lugar do “sai, zica!” de sempre, gritarei com toda a certeza do mundo de que a bola irá pela linha de fundo:

- Sai, Renata!

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