17/02/2009...10:16

Meu outro estádio

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Meu outro estádio seria público – e por isso meu.

Meu outro estádio seria uma obra executada a partir de uma pesquisa feita com quem iria usá-lo, os torcedores.

Meu outro estádio teria, no minímo, 80.000 lugares.

Meu outro estádio ficaria perto de estações de metrô, teria ônibus gratuitos para as torcidas irem e voltarem dele, bicicletários pra incentivar o uso da bicicleta e consequentemente diminuir o trânsito em dias de jogos, ruas fechadas em seu entorno de duas horas antes a duas horas depois do jogo.

Meu outro estádio teria jogos em horários que fossem viáveis aos torcedores, consultados antes quanto a isso.

Meu outro estádio teria um espaço pras baterias das torcidas, teria disputa de baterias, faixas e bandeiras antes de jogos importantes, teria atrações que realmente interessassem e convidassem o torcedor antes e depois dos jogos – nada de cheerleaders americanóides.

Meu outro estádio teria ingressos a preços populares.

Meu outro estádio teria lugar pra quem quer ficar em pé, pra quem quer fazer avalanche, pra quem quer fazer porópopó, pra quem quer ficar na chuva, pra quem quer ficar sentado.

Meu outro estádio teria a renda de seus jogos revertida para sua própria manutenção.

Meu outro estádio teria praça de alimentação, com comida a preço acessível, sem superfaturamento.

Meu outro estádio teria torcidas igualmente divididas em clássicos, e pontos a menos na tabela do campeonato para os times cujas torcidas fizessem besteira.

Meu outro estádio não necessitaria de cacetetes e bombas de gás lacrimogênio.

Porque meu outro estádio necessitaria, antes de mais nada, de uma outra legislação, mais severa com os crimes de atentado ao bem-estar e ao patrimônio públicos, mais educativa e redistributiva de renda em relação à população que o utilizaria.

Meu outro estádio precisaria de uma outra cidade.

De um outro país.

De um poder que fosse, de fato, público.

E enquanto meu outro estádio está longe, meu estádio atual é cada vez menos meu.

Porque eu, dialeticamente, não consigo ser eu mesmo sem ter do outro lado o outro.

Que me arrancam aos poucos.

De dez em dez por cento.

4 Comentários

  • Esse seu outro estádio só daria certo se explodissimos o mundo e começassemos tudo de novo, do zero. Infelizmente.

  • clap clap clap

  • Mano, queria eu ter essa sensatez para escrever sobre tema tão espinhudo. Você resume perfeitamente a destruição pela qual passa nossa paixão.

    Abraços!

  • Sensacional!

    Seu outro estádio é tb meu outro estádio!

    Parabéns mandes!


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