Arquivo do mês: fevereiro 2009

O muro

(créditos para o Cruz de Savóia)

omuro

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Brasil x Argentina

Enquanto por aqui os estádios vão virando cada vez mais shoppings centers, na Argentina se encontram outras formas de explorar o dia do jogo que não seja atropelando os costumes, tradições e vontades do torcedor.

O texto que segue é de uma amiga brasileira que esteve na Bombonera em 2008 num Boca x River. Me faz lembrar de quando os estádios ainda eram estádios por aqui – porque se engana quem acha que é só lá que a festa acontece dessa maneira.

Longe, porém, de querer soar saudosista, a idéia de publicá-lo é exatamente mostrar que existem outros caminhos que não o que se insiste em tomar por aqui: o da exclusão social e da normatização espacial dos estádios.

Vale a pena ler.

“Buenos Aires, 5 de maio de 2008.
 
Desde muito queria conhecer a 
Bombonera, cheia. Jà havia visitado em um periodo de vacaciones no esquema gringo, roteirinho, mas ja dava pra imaginar como fica aquele lugar lotado. Outra vez, eu e a Re tentamos ir a uma partida, nem classico nem nada, mas ou era os 300 dólares na gringa ou na Popular. Ninguém quis nos levar a popular, nem vender ingresso. Nos chamaram de loucas varridas pra mais.
 
Cheguei meio-dia nas redondezas de La Cancha. Sem ingresso, sem companhia. Algumas platas e muita vontade de ir ao jogo.
Ia encontrar um amigo do amigo tal e que ia me vender o ingresso, mas dependia de telefone, ligar na hora certa tal e que obviamente nao rolou, o cara nao atendia.
 
Ali, rola desde cedo uma festa. Enquanto os vàrios onibus de turismo chegam, La Boca toda vira uma parrillada familiar de domingo ao ar livre. Pertinho da entrada, hà dois ou tres restaurantes que vendem os tais Choripan, Lomito, Patty. Compra o Ticket depois de muito se amassar na fila, o cara pega o pao gigante, bota um naco de carne GIGANTE, te entrega de mao a mao e entao pronto.
 
Esta altura, quase 13:30, ja havia desistido de comprar ingresso na rua e enquanto comia meu Patty na sarjeta à frente de La Cancha me preparando para assim que acabar de comer ir embora, apareceu “un tipo” querendo me vender platèia por 600 pesos. Disse que nao tinha tal plata. Perguntou quanto tinha, disse “Cem!”, ele disse “Vambora brasileira, te llevo a la 12”. 
 
Era absolutamente tudo que eu queria. Clássico Boca X River. A la 12! A Popular. Onde, teoricamente, nao se paga para entrar. Entra quem o porteiro, a organizacao conhece. O “tipo” me levou de namorada. Na hora de entrar acabei me dando bemzaço, porque no empurra-empurra que è para passar deste portao, crianças, namoradas, esposas tem máximo respeito e passam na frente. Subimos as escadas e, UAU: Lindo domingo de sol, popular já completamente cheia, e diziam que nao era nem a metade.
 
Antes do clássico começar, a festa vai esquentando. A guerra de milho é geral (“Aquel que no salta es un Gallina!”). Entramos uma hora antes e na Popular já se distribuía os baloes, os rolinhos de papel, os pedacinhos de papel, bandeiras, e a bateria, do ladinho, pertinho, é difudê.
 
Jogo começa. Dalí, nao hà sequer espaço para deixar os dois pés no chao. As pessoas vao se engalfinhando, se apoiando para conseguir espaço pra se manter em pé, cantar e ainda assim ver o jogo. E logo no começo do jogo, Gol!! Achei que esse negòcio ia cair, ou todos cairem pra frente, sei là. Torcida toda, senhores, crianças, festejam num emprurra-empurra na certeza que ninguèm vai cair, pq nao ha espaço para tal. Um abraço coletivo gigante-mór. A cantoria nao pára um segundo, e a bateria acompanha num coro sò, como um estadio pequeno de Bairro, um Juca, apenas com 50 mil pessoas dentro.
 
O juiz apita final do primeiro tempo. Automaticamente e simultaneamente (!) as pessoas todas sentam. Eu, no meio de uma torcida gigante fiquei em pé, com os pés presos porque tinham oito pessoas por metro quadrado sentados neles, esquema Joao-Bobo mesmo, quando um tiozao carinhosamente me oferece um pedacinho do degrau que tinha na frente dele. Logicamente nao se vende bebida alcoolica, afinal ali tudo já está ao limite das CNTP, mas se vende CocaCola, água e amendoins. O cara que está là em baixo quer comprar, a fila toda, desde lá de cima colabora, pq nao há condiçoes de ninguém se mexer. O que rola é uma intimidade de compratilhar as coisas, as conversas, as comidinhas, o espaço.
 
Começa o segundo tempo, a “inchada”, torcida, nao pára de cantar. Me impressionou a organizaçao, a quantidades de cançoes e familiaridade com elas. O jogo, afinal, tava chato que só. O River decidiu nao jogar, e restou ao Boca mais alguns chutes a gol e muita festa a La Cancha. Ah, vale citar também que o meu vocabulário chulo portenho cresceu 1000% depois desta experiencia multicultural-multicultural.
 
Acabado o jogo, a festa continua lá dentro, até porque é um passo infinito sair de là. Mas continua a festa pelas escadarias, e como a altura é grande, o por do sol contribuiu para o momento. Ao sair, na rua, a bateria está lá, e a festa continua nas parrilladas. O clima é de um Juca, com uma galerinha em volta da bateria à frente do estadio. Novamente fiquei impressionadíssima.
 
Sou fa de carteirinha da Argentina e volto a afirmar que quem nao gosta disso aqui tem é muita inveja ou nao conhece suficiente. Até onde a rixa existe, o fabuloso futebol, os caras mandam bem pra cacete. Em termos de presença no estádio, eles sao o verdadeiro Carnaval. E aí, que na minha opiniao, está inserido o contexto paixao pelo futebol, na possibilidade do jogador e dos tantos outros no campo, fazerem algo unico, uma jogada que nunca pode ser repetida, nas milhares de combinaçoes de passes e lances que tornam o feito único, e estar presente apoiando o time torna também o fato como único, e imensurável.
 
Desta experiencia nao levei nada fisico. Nem ingresso, nem foto, apenas estas recordaçoes, que ainda anestesiada compartilho com vcs. Cheguei às 22h em casa tava morrendo de vontade de compartilhar com os amigos brasileiros – desculpem os acentos, teclado gringo! –  mas nao tive forças de chamar a ninguèm.
Pai, Mae, tá tudo bem.
 
Ainda em tempo: azeite porcada.
 
Beijos,
Lau”

(por Laura Fosti)

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Uma campanha que vale a pena

Recebi do Arnaldo, do blog Casa do Torcedor, e já aderi.

Espero que o maior número de pessoas com voz e alcance na mídia possa fazer essa proposta repercutir o suficiente pra se tornar realidade.

***

Casa do Torcedor e Terreiro do Galo lançam a Campanha “Paz nos Estádios – Blogueiros unidos em busca de Justiça”

 Um atleticano baleado em um ponto de ônibus em Belo Horizonte. Mais de 40 corintianos feridos em um confronto com a Polícia Militar no Morumbi. Brigas e tiroteio entre flamenguistas, botafoguenses e policiais nas proximidades do Maracanã. E outras confusões em estádios de futebol por todo o país.

Esse foi o saldo de um domingo que não pode ser esquecido na história do futebol brasileiro. Apesar de terem chocado todos nós, esses acontecimentos são, infelizmente, comuns.

Quando o jovem Márcio Gasparim, de 16 anos, foi morto a pauladas em uma verdadeira batalha campal no Pacaembu em 1995, já esperávamos que fossem tomadas atitudes que diminuíssem a violência nos estádios. Não foram.

As confusões em estádios ou fora deles não cessaram. E a cada uma, fazemos uma pergunta que explica por que elas acontecem: Por que ninguém é punido? Nem torcedores vândalos, nem policiais truculentos e, muito menos, cartolas que incitam a violência inflamando as torcidas, são punidos.

A experiência do passado nos torna céticos quanto às atitudes que as autoridades devem tomar. Mas isso não deve impedir nossa mobilização em busca da paz nos estádios.

A Casa do Torcedor e o blog Terreiro do Galo, então, acabam de lançar a Campanha “Paz nos Estádios – Blogueiros Unidos em Busca de Justiça”. Queremos com ela unir blogs, jornalistas e demais pessoas que têm o mesmo ideal.

Nosso objetivo é pressionar as autoridades a aprovarem uma legislação específica que previna e puna a violência nos estádios e seus arredores. Uma lei que puna com rigor os responsáveis por atos de violência no futebol, sejam eles torcedores, policiais ou até dirigentes que incitem a barbárie.

Temos certeza que um dispositivo legal construído a partir da ampla discussão entre todas as pessoas que estejam ligadas de alguma maneira ao futebol é a melhor maneira de diminuir a violência no esporte e, assim, devolver ao torcedor a certeza de voltar são e salvo para casa após o simples ato de ver seu time jogar.

Faça parte dessa campanha! Clique na imagem e capture o banner. Pedimos a todos que aderirem a essa mobilização que enviem um e-mail para paznosestadios@gmail.com, dando-nos o nome e link para o seu blog. Quanto mais blogueiros se unirem nesta nobre causa, mais força teremos para exigir uma resposta dos responsáveis pela segurança do torcedor brasileiro. Ainda, a utilização deste texto para apresentar o projeto aos seus leitores poderá ser uma ótima estratégia para melhor informá-los da campanha.

Faça parte dessa grande corrente, independentemente das cores que seu clube veste. Contamos com a participação de todos os blogueiros apaixonados pelo futebol e, principalmente, apaixonados pela vida.

Atenciosamente,

Arnaldo Gonçalves – Casa do Torcedor

Christian Munaier – Terreiro do Galo 

Arte: FredKONG

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Censura no Nordeste

A polícia brasileira, definitivamente, ainda faz questão de nos lembrar de 1964.

Aos amigos da Resistência Coral, não desistam. Liberdade de expressão é um direito básico de todo cidadão, e uma faixa pró-Palestina é tão política quanto um banner da Coca-Cola.

Se pode um, pode outro. Não tem nem o que discutir.

***

Do site da Resistência Coral:

No último sábado (14/01/2009), durante a partida Ferroviário x Maranguape no estádio Plácido Castelo (Castelão), valendo pela fase semi-final do 1° turno do Campeonato Cearense de Futebol, aconteceu um fato condenável. A torcida organizada Resistência Coral mais uma vez teve um de seus materiais censurados. Nesta ocasião tratou-se de uma bandeira que contém os seguintes dizeres “Resistência Palestina”. 

Antes do início da partida, a torcida organizada estendeu ao longo das arquibancadas algumas de suas faixas e bandeiras, como costumeiramente faz. No decorrer do primeiro tempo do jogo policiais pertencentes ao Batalhão de Choque aproximaram-se dos membros da Resistência Coral e, para o espanto destes e de outros torcedores corais, deram o aviso/a ordem de que a referida bandeira não poderia ficar exposta; estava proibida! Buscando entender o motivo da proibição os membros da Resistência Coral ouviram do capitão da Polícia Militar que a ordem tinha partido da administração do estádio e que a mesma alegava que a bandeira tratava-se de uma manifestação política e, por isto, não era permitida. Pasmos, os membros da torcida ainda argumentaram contra esta arbitrariedade, mas foi em vão. 

Esta não é a primeira vez que a Resistência Coral foi censurada. Em mais de uma ocasião a faixa com os dizeres “Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes” teve que ser retirada a mando do policiamento presente nos estádios. Em 2006, na primeira vez que isto ocorreu, a polícia chegou também a rasgar com um punhal uma bandeira da torcida que continha o símbolo da foice e martelo, afirmando que “não permitirá mais referências ao comunismo nas laterais do campo”. 

No início de 2008 membros da Resistência Coral impetraram um mandado de segurança preventivo com pedido de liminar, a fim de combater tais arbitrariedades e evitar futuras repressões, buscando o direito respaldado pela Constituição Federal à livre manifestação de pensamento. O processo tramita no Tribunal de Justiça do Estado do Ceará. 

A bandeira censurada

A bandeira censurada

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Casa do Torcedor

Hoje, três dias e muitos textos lidos e repassados após o clássico, colhi mais um fruto do diálogo acerca do mesmo: descobri o Casa do Torcedor, um blog cujo nome diz tudo.

Lá, encerrando a série de relatos sobre o jogo, pode-se ler o texto de Bruno Camarão, que traz mais algumas coisas para o debate, detalhes que às vezes parecem pequenos mas que fazem diferença.

O blog tem bastante informação e muitos relatos, vale a pena dar uma olhada.

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Torcer

“Uma missão para bravos”.

É este o subtítulo do excelentíssimo texto de Gabriel Brito, do Futebólatras Anônimos.

Que começa com a intenção de relatar do ponto de vista de quem esteve lá o que aconteceu domingo e termina como uma ótima análise do papel de cada um dos envolvidos – torcida, PM, dirigentes, mídia, sociedade – nessa história.

Confira, na íntegra, clicando aqui.

Irretocável.

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Meu outro estádio

Meu outro estádio seria público – e por isso meu.

Meu outro estádio seria uma obra executada a partir de uma pesquisa feita com quem iria usá-lo, os torcedores.

Meu outro estádio teria, no minímo, 80.000 lugares.

Meu outro estádio ficaria perto de estações de metrô, teria ônibus gratuitos para as torcidas irem e voltarem dele, bicicletários pra incentivar o uso da bicicleta e consequentemente diminuir o trânsito em dias de jogos, ruas fechadas em seu entorno de duas horas antes a duas horas depois do jogo.

Meu outro estádio teria jogos em horários que fossem viáveis aos torcedores, consultados antes quanto a isso.

Meu outro estádio teria um espaço pras baterias das torcidas, teria disputa de baterias, faixas e bandeiras antes de jogos importantes, teria atrações que realmente interessassem e convidassem o torcedor antes e depois dos jogos – nada de cheerleaders americanóides.

Meu outro estádio teria ingressos a preços populares.

Meu outro estádio teria lugar pra quem quer ficar em pé, pra quem quer fazer avalanche, pra quem quer fazer porópopó, pra quem quer ficar na chuva, pra quem quer ficar sentado.

Meu outro estádio teria a renda de seus jogos revertida para sua própria manutenção.

Meu outro estádio teria praça de alimentação, com comida a preço acessível, sem superfaturamento.

Meu outro estádio teria torcidas igualmente divididas em clássicos, e pontos a menos na tabela do campeonato para os times cujas torcidas fizessem besteira.

Meu outro estádio não necessitaria de cacetetes e bombas de gás lacrimogênio.

Porque meu outro estádio necessitaria, antes de mais nada, de uma outra legislação, mais severa com os crimes de atentado ao bem-estar e ao patrimônio públicos, mais educativa e redistributiva de renda em relação à população que o utilizaria.

Meu outro estádio precisaria de uma outra cidade.

De um outro país.

De um poder que fosse, de fato, público.

E enquanto meu outro estádio está longe, meu estádio atual é cada vez menos meu.

Porque eu, dialeticamente, não consigo ser eu mesmo sem ter do outro lado o outro.

Que me arrancam aos poucos.

De dez em dez por cento.

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