Arquivo do mês: março 2009

A paz dos justos

por Thomas Castilho

Após cada um dos finais de semana do mundo da bola recheados de tragédias somos obrigados a ouvir a velha ladainha de sempre. Talvez um ou outro personagem novo, deslumbrado com a possibilidade de sucesso rápido. Sem o mínimo de conhecimento de causa, pensa em fórmulas mágicas capazes de solucionar um problema crônico de nossa sociedade, manifesto todos os dias de inúmeras formas, inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias. Balbuciam números como se ali existisse alguma solução capaz de se fazer entender as complexas relações que envolvem os diferentes personagens do meio esportivo, particularmente do futebol.

Um grande número de jornalistas despeja sua ignorância e seu preconceito por todos os cantos, se alimentando das tragédias como o urubu da carniça. Partem dos dogmas levianos em que fundamentam seus raciocínios limitados para conseguir chegar apenas a conclusões vazias que guerreiam para ver quem tem o adjetivo mais criativo. Uma guerra de adjetivos e qualificações, desprovida de idéias e fundamentos. 

Isso cansa. Lamentavelmente, apenas demonstra que os problemas crônicos relacionados à violência e à falta de organização do futebol brasileiro vão bem, obrigado, assim como também indica a falta de vida inteligente buscando soluções perenes, construídas com engajamento e trabalho, sem rótulos baratos. Se não é “inteligente” quem vai aos estádios num dia de clássico, me parecem menos inteligentes aqueles que vivem para adjetivar os “não-inteligentes”, sejam eles torcedores, dirigentes ou jogadores.

Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.

 Alguns princípios básicos:


– Todo trabalho que venha a ser feito deve ser pensado no longo prazo. Isso quer dizer que mesmo depois de eliminados os episódios que resultam em mortes, ele deve continuar. Não pode ser deixado no meio do caminho como tem sido feito. Contínuo e ininterrupto, reunindo representantes do Estado, dos clubes, e da sociedade civil (torcedores, organizados e não-organizados, marqueteiros, psicólogos, estudiosos da área, jornalistas). Deve ser em nível Nacional e local, com o levantamento de problemas específicos e relevando as diversidades culturais e estruturais nas diferentes regiões do país. Todas as demandas devem ser ouvidas e atendidas dentro das possibilidades.

– o objetivo é fazer a paz para os torcedores que historicamente freqüentam os estádios de futebol, todos eles, respeitando seus valores e sua cultura. Respeitando o seu modo de torcer desenvolvido ao longo de um século. Uma paz inclusive para aqueles torcedores das finadas Gerais, épicas, do Maracanã, do Mineirão, do Beira-Rio ou do Morumbi, que é agora dos torcedores “VISA”. Paz, implica respeitar o direito dos que têm e dos que não têm, rejeitando qualquer tipo de paz financeira, que há muito é sugerida por nossa elite. O que importa se a imprensa submissa, que só consegue enxergar a Europa quando busca uma referência, acha bonitinho os bilhetinhos e as cadeirinhas numeradas se o povão que vive o drama gosta de ficar em pé, abraçado, fazendo o “póropópó geral”? Não se trata de gado, e podemos bem decidir o que é melhor para a gente, quer achem feio, quer não.

– assumimos que moramos num país regido por uma Constituição, da qual emana toda e qualquer lei, pouco importando os caprichos daqueles que são contra a existência das torcidas. Não tem relevância. A idéia já começa diferente. Se nós queremos a paz, partimos do seguinte pressuposto: vivemos num estado de direito e todos são inocentes até que se prove ao contrário. As lideranças não devem viver no gueto. Se alguém deve para a lei cabe à Justiça julgar e punir possíveis culpados. Nós não temos nenhum Daniel Dantas como associado e o presidente do Supremo não nos daria Habeas Corpus ou muito menos se oporia ao uso de algemas contra nossos associados. As torcidas não têm nenhuma razão para se omitir em um processo de paz. Se as torcidas são parte do problema, certamente são a única via para uma paz verdadeira, que não seja pautada apenas pela repressão. As lideranças de torcida devem ser reconhecidas como parte fundamental de qualquer processo que mencione a palavra paz. Não sendo julgados sem que tenham alguma pendência com a justiça, como é feito. A paz de verdade não é feita nos blogs, não é feita nos gabinetes e muito menos nas redações. A paz verdadeira é feita nas ruas. Faz paz quem tem disposição para a guerra. E o pressuposto básico é a justiça.

– o outro lado importante desse processo chama-se Polícia Militar. É preciso criar um destacamento especial para lidar somente com estádios de futebol. Pessoas especialmente treinadas para lidar com multidão em praças esportivas, aprendendo a tratar o torcedor com o devido respeito e deixando de enxergá-lo como um inimigo, evitando os atos de punição coletiva, como ocorrido no Morumbi no último clássico. Devidamente equipados e treinados, procurando estreitar ao máximo a cooperação entre as lideranças de torcida e os oficiais. Esse trabalho, que teve início há muitos anos na saudosa gestão do coronel Resende e que teve continuidade com o coronel Marinho, tem momentos de avanços e momentos de retrocessos. Deve ser aprofundado, aumentando a proximidade dos atores envolvidos e acertando a cooperação entre policiais e lideranças sempre que qualquer tipo de conflito venha a ocorrer. Como meta sempre o diálogo antes de ampliar o uso da violência. Respeito recíproco deve ser construído. Temos que mudar um olhar que infere a inimizade para um que permita nos enxergarmos como cooperadores que possuem objetivos comuns.

– outro ponto é o desenvolvimento de uma legislação específica para crimes em praças esportivas e tribunais móveis capazes de julgar e aplicar a pena no momento do evento. As leis devem endurecer nos casos de utilização de armas, de qualquer espécie, em qualquer local, e buscar a construção de penas alternativas para infrações menores, inclusive impossibilitando a presença de transgressores nos estádios nos dias de jogo do seu time. Essas leis devem ser formuladas com a participação de todos os setores da sociedade civil, e não podem ser carentes de eficácia, levando em consideração todos os problemas já existentes em nossa ordem jurídica. O Jecrim (Juizado Especial Criminal) foi uma experiência válida, e tentou algumas vezes atuar na frente dos estádios. Mas aonde anda? Toda ação – Jecrim, Comissão da Paz, Comissão do PROCON – é importante, mas se e somente se for atuante o suficiente para não cair no esquecimento e desuso. Mais do isso devem ser integradas, para que se alimentem e troquem experiências, traçando objetivos de curto e de longo prazo, se renovando e se desenvolvendo.
 
– as torcidas devem assumir um compromisso de extermínio de toda e qualquer prática de violência premeditada, criar mecanismos eficientes de punição interna, além de banir qualquer tipo de música que faça apologia à violência.

Depois dos princípios básicos serem respeitados, vamos ao caminho:

– mapeamento de todos principais conflitos e problemas do Brasil envolvendo o futebol,e principalmente os que dizem respeito às torcidas. Identificar todos os jogos que envolvem maior rivalidade e risco de episódios trágicos. O aumento da rivalidade entre as torcidas tem raízes históricas, que passam por problemas ocorridos ao longo do tempo. Um incidente ocorrido num jogo lá da década de 80 em uma caravana específica, num momento em que o policiamento ainda não estava presente, e que se iniciou com uma discussão banal entre dois torcedores alcoolizados, pode explicar a origem de um conflito irracional que se arrasta durante anos. Ao mesmo tempo, existem torcidas que demonstram ter afinidades e desenvolvem uma relação de cordialidade. Tudo isso deve ser relevado. Priorizando e prevenindo os principais conflitos podemos pôr um fim nessas diferenças, que são o que alimenta o ciclo. Eles possuem um lado pessoal e um lado impessoal. Ao mesmo tempo em que muitos dos que brigam conhecem os que brigam nas outras torcidas, mostrando um traço de pessoalidade, os conflitos têm o poder de se perpetuar no tempo, envolvendo as gerações futuras, o que o torna também impessoal. Mesmo os que nunca tiveram problemas, nunca pensaram em brigas, e que por ventura se disponham a acompanhar seu time pelo seu estado e pelo Brasil, terão que lidar com uma realidade complexa, da qual a violência já é parte.
 
– reuniões antes de todos os clássicos e jogos de risco, envolvendo as lideranças das torcidas e o comando do policiamento. Mapeamento de todos os coletivos espalhados pela cidade, identificação dos principais pontos de encontro, acerto de horários e trajetos, identificação dos pontos críticos e envio de destacamentos para locais pré-determinados entre o policiamento e as torcidas. Essas reuniões seriam espalhadas para os bairros, dando responsabilidade aos torcedores e facilitando as investigações de possíveis incidentes. A imprensa tomaria parte nesse ponto, ajudando na divulgação de trajetos e horários e dando voz às lideranças para que orientem seus associados. Ampliando a via de contato com os associados. As torcidas já se submeteram a cadastramentos humilhantes sem que nenhuma de nossas demandas fosse ouvida. Aqui nesse país se cadastra por prevenção, presumindo não a inocência, mas a culpa. Hoje, lemos a notícia que mais uma carteirinha mágica será feita para “acabar com a violência”. Seria muito fácil se carteirinhas acabassem com a violência, não? Aliás, para que temos R.G.? Só mais uma burocracia irracional para satisfazer a ânsia por respostas da sociedade. Isso já não tinha sido feito, só com os “vândalos”? Mas os sábios da bola e da política não sabem nem que a maioria dos problemas ocorre não nas redondezas dos estádios, mas nos terminais longínquos dos bairros ou no centro da cidade, e nos trajetos para o estádio. Nesses pontos ninguém mostra carteirinha. Além do mais, leis inconstitucionais costumam ter vida curta. Carecem de vigência. O Capez sabe bem disso.

– uma campanha nacional utilizando todos os meios disponíveis para divulgar mensagens inteligentes para a construção da paz, inclusive com as lideranças participando do processo, empenhando suas imagens e suas palavras num compromisso. Também jogadores, ex-jogadores, personalidades ligadas ao esporte, e todos que possam contribuir.

Pela televisão, pelo rádio, panfletos e jornais. Coisa bem feita, com gente boa. De forma que possamos assim construir um ambiente no qual as pessoas saiam de casa com seus espíritos desarmados, sem disposição para a guerra. Um pouco diferente do que foi feito no último jogo entre Corinthians e São Paulo.

Essa é a paz dos justos. Não é a paz dos que assistem aos jogos das cabines de transmissão, ou do conforto da sua sala, mas a paz dos que vivem a realidade não muito atraente dos estádios de futebol. Dos que convivem com a violência policial, dos que pagam preços abusivos pelos ingressos, dos que esperam pacientemente o horário-do-final-da-novela para o início do jogo, que andam quilômetros até o centrão para pegar o último busão para casa, que enfrentam os banheiros porcos e vêem seus clubes administrados por dirigentes corruptos. A paz dos que vêem seus ídolos trocar de time como trocam de camisa e que observam seus clubes se tornarem palco para atuação de meia dúzia de dirigentes e empresários interessados nos lucros do comércio dos menores boleiros. E que ainda assim pagam 30, 40, 50 ou 70 reais para assistir um jogo de futebol, na chuva ou no sol, na quarta e no domingo. Dos que sofrem a discriminação da imprensa e ainda assim pegam a estrada e rumam para os quatro cantos desse país acompanhando seu time. Dos que têm se acostumado com os escândalos envolvendo árbitros, sem deixar de se submeter às mais constrangedoras situações para extravasar seu grito de gol.

 Num mundo regido pela matéria, pelo dinheiro, o não-inteligente não é aquele que não mede esforços para expressar o amor, mas aquele suficientemente racional e burocrático para se dizer inteligente porque tem medo de ir viver o amor. Amor e inteligência só combinam quando a inteligência está no ato de amar, já que depois que amamos, não parece ser inteligente o que nos dispomos a fazer. Todos nós. 


O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.

(Thomas Castilho é ex-conselheiro e ex-diretor dos Gaviões da Fiel)

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Seminário da Rua São Jorge

Retirado do blog do Franz:

Seminário da RSJ

I – Seminário do Movimento Rua São Jorge – R.S.J.
SÃO PAULO – 13 E 14/03 – SINDICATO DOS BANCÁRIOS – RUA SÃO BENTO, 413
Sexta-feira – 13/03/09

19h – Abertura

Associados dos Gaviões da Fiel Torcida, lideranças de diversas torcidas organizada do Corinthians, torcedores não organizados, convidados e autoridades.

19h30min – História dos Gaviões da Fiel e a Verdadeira Ideologia
° Roberto Daga (Fundador dos Gaviões da Fiel)
º Wanda la Selva (irmã de Flávio la Selva, fundador e sócio n°1dos Gaviões da Fiel).
º Julio Cezar de Toledo (Fundador dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: Luiz Eduardo Dudu (ex- diretor dos Gaviões da Fiel)
Tempo da Mesa: 20 Minutos por expositor

21h30 – Término- Nós somos os Gaviões

Sábado dia 14/03

9h – Conjuntura Atual dos Gaviões da Fiel
Mesa: Pulguinha (ex – vice-presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Orlando (ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Dinho ( ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: Wagner BO (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

11h – O porquê do Movimento Rua São Jorge e seus objetivos
Mesa: Zinho (ex-vice-presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Viola (ex-diretor e conselheiros dos Gaviões da Fiel)
Metalheiro (ex- presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: J B (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

13h00 às 14h00 – Almoço

14h30m – As experiências e organização dos movimentos sociais brasileiros e a organização do movimento Rua São Jorge junto ao processo de extinção das torcidas organizadas e a elitização do futebol.
Mesa: Letícia Barqueta (Coordenadora nacional do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra – MST)
Luis Cláudio Marcolino (Presidente do sindicato dos Bancários de São Paulo – CUT)
Alex Minduín (ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel
Coordenador: Mario B V (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

16h00- Corinthians a razão de nossa existência
Mesa: Andrés Sanches (Presidente do Corinthians)
Wladimir (ex-jogador e eterno ídolo do Corithians)
à confirmar Juca Kfouri (Sociólogo e jornalista)
à confirmar Sócrates (ex – jogador e eterno ídolo do Corinthians)
Coordenadora Mariana Cordovani (sócia dos Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor

16h50m – Encerramento com hino do Corinthians.

A ENTRADA SERÁ 1 QUILO DE ALIMENTO NÃO PERECÍVEL.

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Ronaldo do povo

Ronaldo entrou aos 18 do segundo tempo do dérbi.

Poderiam ter sido do primeiro, fosse Mano Menezes menos covarde.

Driblou, chutou, cruzou e, enfim, marcou.

Porque quem sabe jogar bola não esquece, mesmo com quilos a mais – sejam eles gordura ou músculo.

Principalmente quando quer, algo que ele demonstrou desde que escolheu o Corinthians como projeto, quando poderia ter ido apenas curtir a vida e ganhar dinheiro em qualquer clube mediano da Europa.

Preferiu estar em casa.

O gol aos 47′ foi das maiores unanimidades já vistas pelas ruas da cidade em termos de comemoração fora de uma Copa do Mundo.

Um amigo santista disse que nunca tinha se emocionado antes com um gol que não tivesse sido do Santos ou do Brasil.

Outro são-paulino afirmou que se arrepiou todinho.

E até mesmo um palmeirense concordou que por mais que doa na alma tomar um gol do maior rival nos acréscismos do segundo tempo, foi bonito.

Pelas ruas da Vila dos Remédios, onde assisti ao jogo, as pessoas saíam às ruas após o apito final, gritando, cantando, enlouquecidas. Mesmo algumas não-corinthianas.

No centro, onde moro, minha mulher disse nunca ter visto tamanha gritaria, ainda mais com um gol do Corinthians.

Até minha avó, que, aos 88 anos, criticou desde o começo as “mordomias de Rei-naldo”, me ligou, emocionada, dizendo não ter visto algo tão lindo desde a Copa de 94.

O que se explica pela figura do camisa 9.

Mais que um jogador, mais que um ídolo, uma personagem que representa o povo.

Que começou cedo, despontou como craque, ganhou o mundo, teve o corpo prejudicado pelo trabalho (ou melhor, pela idéia de trabalho de alguns preparadores físicos que transformam jogadores em monstros musculares, mesmo quando a estrutura óssea não é capaz de segurar), voltou duas vezes a jogar contra tudo e todos e que, agora, volta ao país para, aos 32 anos, em um fim precoce de carreira, como a de Garrincha, Zico e tantos outros, mostrar que é um guerreiro, um batalhador, como outros tantos milhões país afora.

Como não esperar que o motoboy pai de família aos 20, desempregado, sem dinheiro, que luta dia após dia por sobrevivência não se identifique com sua história?

Ou a dona-de-casa laboriosa, que se sacrifica pra criar os filhos, dar a eles uma vida digna num país que se esforça em ser cada vez mais indigno para com quem trabalha, não vibre de alegria com o gol do filho que também é seu?

Não à toa, o Fenômeno, sempre frio e comedido nos gols e comemorações, extravasou no alambrado.

Porque o momento do gol  não poderia ser outro. 

Na bacia das almas, com a torcida adversária (ou pelo menos parte dela) gritando “silêncio na favela”.

A bola, ao estufar as redes, significou mais que o empate. Significou que quanto mais perto do fim se pensa estar, quando se fala de Ronaldo e de povo, sempre há espaço para um recomeço.

A favela não se cala nunca.

E ele ficou louco, mais um no bando.

Bando que derrubou o alambrado, saiu às janelas e às ruas, comemorou a vitória de quem enfrenta toda série de obstáculos rotineiramente no dia-a-dia.

Porque está em Ronaldo, e Ronaldo está nele.

Retrato falado, cuspido e escarrado do Brasil.

***

Ouça aqui e veja aqui o gol do povo.

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Bilbao resiste

Outro email recebido.

Simplesmente lindo.

Futebol ainda pode ser mais jogo do que negócio.

(clique aqui para ver/ouvir os gols)

***

MestAlla ala inor

2009ko martxoaren 4a.
4 de Março de 2009

Um povo. Jogou. Lutou. Correu. Se entregou de corpo e alma a um sonho. O
sonho de novamente ser vencedor, ser temido. Havia muitos anos que Bilbao
não era atingida em cheio, por uma paixão, pela recuperação do seu
orgulho, do seu amor próprio, da sua dignidade.

E o povo foi pras ruas, mesmo com o leão ferido de raspão, tomado pela
fúria e, pela tristeza de ter falhado na primeira missão. Esse mesmo povo
o acolheu. Uma manifestação de amor, fanatismo, de vida, de orgulho. Por
duas cores. Vermelho e branco. O povo foi pra rua, escoltando a equipe dos
seus sonhos até o confronto final.

Ouviu-se de tudo, que iriam comer o leão, da juba até a cauda. Que era uma
equipe incapaz de parar jogadores muito mais fortes. Que o clube deveria
render-se ao futebol negócio. Que o clube era ultrapassado, antiquado,
atrasado. Mas a fé continuou. Ali. Inabalável. Grandiosa. Intensa. Como é
a história do glorioso Athletic Club. O maior vencedor de dobletes (Liga +
Copa Del Rey) com 5 no total contra 4 do (ainda hoje) franquista Real
Madrid e 3 do Barcelona. Além disso é o primeiro time a conseguir a posse
de um troféu da Liga e também da própria Copa Del Rey, torneio o qual é o
maior vencedor, com 24 taças conquistadas. E esses são apenas 3, dos 28
recordes e feitos históricos da equipe rojiblanca que nunca caiu para a
segunda divisão e sempre andou com as próprias pernas.

A Katedral assistiu hoje, em 97 minutos, como nascem os Heróis.
Rojiblancos, zurigorris, como queiram. Após quase meio século de
tentativas, se arrastando, se contentando com a mediocridade, brigando
para não ir ao fundo do poço… eis que ressurge o gigantesco Leão de San
Mames. Eles hoje bradaram às tribos do sul: Nunca nos renderemos!!!

Logo aos 4 minutos de jogo, Iraola bate lateral na cabeça de Llorente. O
goleiro espalma. A bola cai no pé de Javi Martinez. O goleiro defende. Dá
rebote. Javi Martinez guarda. Gol gol gol gol gol bacalao bacalao bacalao.
San Mames explode. E viria mais por aí. Aos 33 ainda no primeiro tempo,
Yeste faz cruzamento perfeito pela esquerda, na cabeça de Llorente, El Rey
Leon, que, novamente guarda a caprichosa. Apenas 4 minutos depois, o mesmo
Rey Leon deixa Toquero na cara de Palop, que toca por cima e fecha o
placar. Depois foi só administrar o resultado e correr pro abraço.
Literalmente. Com o apito final, San Mames viu algo que não via há 20
anos, uma imensa invasão de campo por parte da torcida que comemorou não
apenas a classificação para a final, mas algo muito maior do que isso.
Algo que apenas eles sabem o que é. Algo que imagino que possam sentir,
mas que não podem descrever.

Athletic Club Bilbao. Pela 35ª vez…

FINALISTA DA COPA DO REI

 

13.5.2009 em Mestalla(Valência): ATHLETIC de BILBAO X BARCELONA

(por Raphael Clasher, escrevendo de um laptop do hospital em que seu avô, Athletic doente, assistiu à partida)

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Extinção das organizadas?

Recebi por email.

Acontecerá um debate sobre o tema envolvendo PM, MP e as próprias organizadas em Goiás.

Gostaria de poder participar, mas não dá.

Se alguém for, e puder fazer um relato, agradeço.

***

 *UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS – UEG*

  *Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia de Goiás – ESEFFEGO*

  *Unidade Universitária de Goiânia*

  *Av. Anhanguera n° 1420 Vila Nova Goiânia/GO – CEP. 74.705-010*

  *Criada pela Lei n° 4.640 de 08/10/63*

            O Grupo de Estudos e Pesquisas em Esporte Cultura e Cidade
  (GEPECC/ESEFFEGO), convida os interessados , à participar do debate
  /A Violência no Futebol e a Extinção das Torcidas Organizadas,/ que
  realizar-se-á no dia 05/03/2009 pela manhã às 8:45hs e pela tarde as
  15:15hs, no auditório da ESEFFEGO. Oevento contará com as
  participações do Ministério Público de Goiás, Polícia Militar de
  Goiás e de representantes da Torcidas Esquadrão Vilanovense e Força
  Jovem Goiás.

            Informamos ainda, que o debate terá como objetivo discutir
  o pedido extinção das Torcidas Organizadas feito ao Ministério
  Público sob os seguintes aspéctos: 1) efeitos jurídicos do pedido;
  2) eficácia da ação; 3) políticas de segurança nos espetáculos
  futebolísticos.

            *  Para informações ligar no fone (62) 3522-3514  *

            Sendo o que tínhamos para o momento, contamos com
  participação de todos,
    
  Atenciosamente,

  Prof. Marcus Jary Nascimento

  Coordenador do GPECC

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Ronaldo e as mulheres

Acabou a alguns minutos Itumbiara e Corinthians, a partida que marcou a volta aos campos pelo lado alvinegro, após um ano parado, do maior artilheiro da história das Copas do Mundo, Ronaldo “Fenômeno”.

Sobre o jogo, pra além da fastidiante algazarra em cima do camisa 9 do Corinthians, algumas coisas merecem ser notadas.

Pelo lado do mandante, Denílson provou que ainda poderia fazer parte do elenco do Palmeiras e que talvez fosse melhor alternativa ofensiva em jogos onde a experiência pesa (como os da Libertadores) do que Lenny e Marquinhos.

Provou também que continua sendo um exímio palhaço na arte de tentar ludibriar o árbitro.

Túlio e Caíco não disseram a que vieram.

Ávalos mostrou a boa marcação de sempre, e falta de técnica idem.

E o time do Itumbiara mostrou que experiência de um elenco como o seu serve pra endurecer jogos contra times grandes, mas também acaba por acusar a falta de fôlego quando este é necessário em caso de sair perdendo.

Pelo lado do Corinthians, os dois jogadores mais displicentes do elenco resolveram o jogo: Jorge Henrique cavando um pênalti e André Santos em lindo – e raro – chute de pé direito.

Otacílio Neto provou de vez que lhe falta cérebro, a todo tempo.

Morais entrou bem, enquanto Dentinho ainda segue apagado.

Douglas alternou momentos de camisa 10 com sumiços inexplicáveis, mas o fato de ajudar na marcação faz com que o 4-2-3-1 ofensivo de Mano Menezes funcione bem também defensivamente – não sem alguns sustos.

Cristian foi o mesmo cão de guarda de sempre e a dupla de zaga Chicão e Willian mostrou que está mesmo afim de se tornar a melhor do Brasil.

E por fim, Ronaldo, claro.

Que mostrou ansiedade em entrar e, uma vez em campo, tranquilidade em agir.

Que se movimentou, que esteve bem colocado e que não fez gol porque Douglas não quis passar a bola.

E que ainda está fora de ritmo e de forma, o que não o impede de mostrar técnica e intelgiência – acumulada com as lesões que diminuíram sua velocidade e com a experiência.

O Corinthians, por fim, demonstrou antes e após a entrada de Ronaldo que está se tornando aquilo que o futebol brasileiro tem consagrado nos últimos anos: um time pragmático, que cadencia o jogo, que tem paciência pra definí-lo.

E que não mudou o jeito de jogar por conta do Fenômeno.

Nada de tentar desesperadamente dar a bola pra ele a todo custo – como dito, inclusive, quando era pra dar, não deram.

Mas calma e paciência quase argentinas, características das equipes de Mano Menezes.

Não à toa, o time não empolgou este ano – ouso dizer que não empolgará tão cedo.

Mas é o único paulista ainda invicto, tem um sistema defensivo sólido (quando titular) e não perde em casa há meses.

Não foi assim que o São Paulo se tornou tricampeão brasileiro?

No Derby de domingo, mais uma vez, estarão frente a frente os estilos de jogo que nos últimos anos marcaram uma difícil escolha para o torcedor:

o que é melhor, vencer ou jogar?

Mas, pra terminar, voltando à partida de hoje, marcaram o jogo também as torcidas.

A do Itumbiara pelo alto número de torcedores, uma agradável surpresa. Difícil um time pequeno manter torcedores fiéis em um país onde a mídia simplesmente os ignora até o momento em que cruzam o caminho de um grande – quantos sabiam ao menos as cores do Itumbiara antes das 21h45 de hoje?

E a do Corinthians porque sempre que sua parte mais festiva e personalista entoou “Ronaldo”, obteve a resposta guerreira e coletivista da parte que sempre entoa apenas “Corinthians”.

Se depender de mim, que vença a segunda parte – futebol é um esporte coletivo, e todo clube é sempre maior que qualquer jogador, mesmo Pelé ou Maradona.

Até porque com o dinheiro de um Ronaldo daria pra ter mantido Juliana Cabral no time feminino e ainda garantido sua existência e incrementado sua estrutura por mais de ano, mostrando que no time do povo, homens e mulheres tem o mesmo peso.

Aí, um 8 de março de Corinthians x Palmeiras seria muito mais interessante e significativo.

Porque seria também um 8 de março de mais igualdade entre homens e mulheres.

Pelo menos dentro de campo.

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Majestoso: a torcida se levanta

Parece que o acontecido no Corinthians x São Paulo último não passará em branco.

Recebi o comunicado abaixo via email.

É dever de todos que lutam contra a impunidade divulgar.

E é mais dever ainda dos que foram ao jogo participar da ação.

***

Atenção rapaziada dos Gaviões, iremos ingressar uma ação coletiva contra o SPFC e Federação Paulista de Futebol. Menciono que não haverá custo algum a todos membros e não membros do nosso movimento, pedimos a gentileza que sejam separadas as xerox da identidade, do CPF, comprovante de residência e ingresso do jogo.

Estamos provindenciando um endereço eletrônico para o envio dos dados, assim como o preenchimento da ficha para entrar com a ação.

Peço o favor de divulgarem a todos os corinthianos que estavam presentes no jogo Corinthians x São Paulo essa nossa ação.

RUA SÃO JORGE  – A RUA DO CORINTHIANO 

Envie seu e-mail para rsj1910@hotmail.com e você receberá um formulário para anexar os documentos necessários para entrar com a ação.

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