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Ignorância é força

Desde o fim da II Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim, o mundo viveu sob o constante medo da Guerra Fria: duas potências, cada qual a seu lado, impondo à força sua visão de mundo. O futebol não ficou alheio a isso: tratado como amador nos países do bloco socialista, rendeu medalhas de ouro a estes em todos os Jogos Olímpicos de 1952 a 1980, já que entravam na disputa com suas seleções principais enquanto o resto do mundo enviava apenas, como mandava a regra, amadores. A história das Copas do Mundo também tem seus capítulos: da Copa da Suíça em 1954, em que Brasil x Hungria fizeram o duelo capitalismo x comunismo com vitória húngara, “xingamentos” de comunista da delegação brasileira ao juiz inglês e batalha campal após cusparada de um jogador magiar em um atleta canarinho, à Copa de 1974, quando a URSS se recusou a jogar uma repescagem contra o Chile de Pinochet e ficou de fora da disputa, passando por 1966 e o gol do inglês Hurst na final contra a Alemanha em que a bola não ultrapassa a linha e o bandeira do Azerbaijão – ex-república soviética – valida o lance e por 1970 e o gol do Uruguai contra a URSS em que um jogador sul-americano cruza uma bola que havia saído mais de metro, a zaga soviética pára e o time uruguaio marca com a conivência de juiz e bandeira – entre outros episódios.

Com o fim da Cortina de Ferro e da Guerra Fria, o mundo ficou definitivamente sob a égide do capital. O futebol não seguiu caminho diferente. A disputa simbólica capitalismo x comunismo acabou relegada ao folclore no esporte, agora regido pelas duras regras de sua entidade máxima, a toda poderosa Fifa. Até que a Coreia do Norte, “resquício” do mundo bipolar e sob uma ditadura política que impõe feroz censura à imprensa – categoria cada vez mais protagonista de um mundo cada vez mais midiático -, resolve voltar à cena e se classifica para a Copa de 2010.

Vivemos o século XXI e o senso comum diz ser inadmissível um governo privar seus cidadãos da “verdade”, representada pela enxurrada de informações capitaneada principalmente pela internet. Críticas são feitas ao bloqueio à rede mundial de computadores no Irã e na China. Pede-se a cabeça de Hugo Chávez quando este fecha o canal de televisão mais poderoso da Venezuela. E, como era de se esperar, brada-se contra o governo norte-coreano ao se ter a notícia de que os jogos de sua seleção não seriam televisionados ao vivo, apenas reprisados caso o país tenha feito um bom jogo. “Inimigos da democracia”, “assassinos da liberdade” e muitos outros epítetos de mesma estirpe ecoam pelos quatro cantos do planeta. O mundo do futebol, que não guarda com muito carinho as alianças entre ditadores e esporte (Mussolini em 34, Vargas em 50, Videla em 78, pra ficar só  nos exemplos mais explícitos), tem na Coreia do Norte um revival da Guerra Fria. Numa época em que o ideário do consumo venceu, ser impedido de consumir a Copa é impensável para a democracia ocidental.

A Coreia do Norte, então, passa a ser o bode expiatório, o idiota útil da vez. Aquele que faz esquecer que Honduras, que também está na Copa, vive sob um golpe militar recém-aplicado, por exemplo. E os jogos da seleção asiática adquirem um estranho interesse.

No primeiro, derrota para o Brasil por 2 a 1. Derrota digna, uma vez que enfrentam a maior campeã do torneio de todos os tempos. Mas que não faz com que o mundo virtual deixe de brincar com os melhores momentos que supostamente seriam exibidos na parte norte da península coreana:

http://video.portalcab.com/?play=brasil_vs_coreia_do_norte_editado

Na segunda partida, 7 a 0 para Portugal, e “rumores”, ecoados por reconhecidos comentaristas políticos (de direita, claro) de que os jogadores seriam enviados para minas de carvão ao voltar para casa. Sem falar no alarde de possíveis deserções com consequências graves para as famílias dos desertores.

A terceira partida acaba ficando sem muita atenção, uma vez que a equipe já não tem mais chances de avançar, e o assunto Coreia do Norte é encerrado nas redações de jornais na África do Sul.

A Copa, porém, continua, e se encontra nas oitavas de final. Jogam Alemanha e Inglaterra. Os germânicos vencem por 2 a 1 quando Lampard chuta por cobertura. A bola acerta o travessão e ultrapassa – e muito – a linha do gol. Mas a arbitragem não vê e o jogo segue. O episódio Hurst-66 volta a ser lembrado.

Mais tarde, a Argentina enfrenta o México, e Carlos Tevez abre o placar para os sul-americanos em completo impedimento. A arbitragem outra vez não vê, mas o telão do estádio, que supostamente só deveria passar os lances livres de polêmica, exibe o gol para todos, incluindo o bandeira e os mexicanos. O árbitro consulta o bandeira mas, com medo de ser punido por anular um gol graças ao auxílio do telão, confirma o tento, para desespero da seleção – e da mídia – mexicana.

Nas redações, o poder do fetiche da informação é tão grande que se clama aos quatro ventos por duas coisas: ou se usa o auxílio tecnológico de uma vez, coisa que – nesse momento conveniente – a “reacionária” Fifa não permite, ou NÃO SE EXIBE lance algum no telão.

Pior acontece no site da entidade máxima do futebol. Os relatos dos dois jogos simplesmente omitem os fatos. No primeiro jogo, a bola inglesa apenas tocou o travessão. No segundo, Tevez abriu o marcador e foi tudo normal.

Isso mesmo: a censura, uma vez que não norte-coreana, é permitida e DESEJADA. Porque – diz-se ingenuamente – não é política. É para o bem do espetáculo – no caso do telão – e dos negócios – no caso do site. O todo poderoso mundo do capital futebolístico se vê encurralado. A Fifa ou admite que o jogo é humano e há erros ou admite o uso de tecnologia e tira o lado humano do jogo, torna-o mais lento – já que a cada consulta ao VT o jogo precisa parar, como no futebol americano – e menos interessante para seus principais compradores, os veículos midiáticos.

Não há, entretanto, menção alguma nas redações mundo afora à contradição explicitamente escancarada. O futebol está exposto: jogo ou negócio? Se for jogo, não faz sentido tanta atenção e tando dinheiro para “corrigir os erros humanos”. Se for negócio, há que se pensar uma solução para fazer passar a polêmica como parte do jogo, quando ela é na verdade necessária para atrair mais consumidores – todo mundo, mesmo quem não entende das regras, quer ver o absurdo gol inglês que não foi dado. Mais: o capital está exposto enquanto projeto político-ideológico que precisa da mentira da propaganda para sobreviver. O comercial de hambúrguer não pode dizer que comendo-o você correrá riscos de saúde. A Copa da Fifa, cujo slogan é o fair play, não pode deixar claro que você está pagando para ver um “espetáculo” que pode ser fraudado – voluntária ou involuntariamente – exatamente porque é humano. Um espetáculo que por vezes é injusto. Admitir que futebol não é pra ser justo é tirar toda a vestimenta de jogo democrático e igual para todos que serve para mascarar o enorme abismo entre times e jogadores trilionários que usufruem dos privilégios do jogo-espetáculo-negócio às custas de times e jogadores pobres utilizados como laboratório para novos “craques” – novos negócios.

“Ignorância é força”, dizia George Orwell em seu 1984. Os norte-coreanos seguem a citação à risca. O capital também. Ou há alguma diferença entre omitir fatos num país sob uma ditadura política e omitir fatos num mundo sob uma ditadura econômica?

O replay está para a Fifa como a cruz está para o vampiro. E ambos sugam nosso sangue – embora o segundo apenas no sentido figurado.

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32 anos do eterno título do povo

O Movimento Rua São Jorge realizou ontem, no Estádio Museu Preto & Branco, no Tatuapé, com a presença de várias das torcidas organizadas do clube e de torcedores de todo canto – até de Americana, em plena terça à noite – evento em comemoração ao dia mais importante da história do Sport Club Corinthians Paulista: 13 de outubro de 1977.

Os torcedores do Time do Povo, então já há quase 23 anos sem um título para comemorar, ansiavam por gritar campeão a plenos pulmões de novo. Aliás, dizem os que lá estiveram na data que não só os corinthianos. Gritava comigo – por conta do barulho – um torcedor nascido coincidentemente em 13 de outubro e presente no Morumbi naquela quinta-feira:

– Você já viu são-paulino comemorando título do Corinthians? E palmeirense? Eu vi!

Não foi a primeira vez que escutei isso. Porque, de fato, deve ser duro aguentar ver uma torcida adversária crescer e se tornar mais e mais fanática em torno de um clube que não ganha nada. Então, o título corinthiano significava para os não-corinthianos – a única divisão possível para além do preto e branco – a libertação daquela encheção de saco.

Mas é óbvio que para nós significava mais. Muito mais.

Aquele Campeonato Paulista valeu e valerá mais – na minha opinião de quem nem era nascido na época, mas cuja mãe, sem ao menos gostar de futebol, estava no estádio pela magnitude do acontecimento – do que qualquer Copa Libertadores que por ventura venhamos a ganhar. Do que qualquer outro campeonato já vencido ou por vencer em nossa história.

Aliado à Democracia Corinthiana, 1977 forma o movimento de libertação do povo de uma posição de opressão, de inferiorização, para tomar de volta o seu devido lugar de motor da História. Mesmo que (apenas?) dentro da dimensão futebolística da sociedade.

Não à toa, estiveram na festa de comemoração dos 32 anos Basílio, o Messias Corinthiano; Tobias, a Muralha de 76; e Ataliba, o Terror da Ponta Direita, campeão em 82 (ainda reserva) e em 83.

Organizou-se uma mesa com os jogadores e mais alguns representantes da torcida para fazer a mediação, além de um lindo bolo comemorativo:

Os Heróis de 77, então, deram sua palavra, com a sempre folclórica intervenção de Ataliba.

A mesa abriu a conversa para perguntas da platéia. Tive a oportunidade de fazer uma delas – ou melhor, duas.

À Basílio e Tobias, disse que para nós, torcedores, era comum estar do lado de fora e vê-los dentro de campo, mas que para mim era algo meio que inimaginável, que sempre percorre meus pensamentos quando subo uma escada qualquer, a sensação de subir o túnel do Maracanã e ver 70 mil corinthianos ou adentrar o campo do Morumbi com 148 mil pessoas nas arquibancadas – o maior público da história do Panetone, no segundo jogo da final de 1977.

A resposta foi a de que estavam acostumados com muita torcida em qualquer lugar, porque sempre havia ao menos 15 mil corinthianos nos jogos do Corinthians, mesmo fora. E que atenderam alguns torcedores no hotel no Rio antes do jogo, mas não tinham a mínima noção de que haveriam 7o mil no estádio, o que realmente arrepiou.

Basílio disse ainda que para ele, no começo, foi impressionante o tamanho da torcida, já que ele vinha da Portuguesa, que tinha em seus jogos 20, 25 mil torcedores, e chegou no Corinthians pra jogar no Pacaembu com 73 mil pessoas – e pensar que hoje são permitidos só 40 mil…

Ataliba, então, pegou o microfone e completou:

– Pra você foi difícil? E pra mim então, que vinha do Juventus com suas 2 mil testemunhas e olhe lá?

Arrancou risos de todos, e me fez pensar em como a frase “a camisa pesa” se encaixa muito bem nessas situações. A relação do jogador de futebol com a torcida em um clube pequeno ou médio e em um clube de massa não tem como ser a mesma, e aí tem quem aguente – como eles – e tem quem não aguente – como tantos outros – a pressão da Fiel.

Direcionei então para Ataliba a segunda questão, sobre a outra ponta do movimento de libertação do povo, a Democracia: como era a reação dos jogadores de outros times quanto ao que se passava no Corinthians? Eles achavam estranho, errado, queriam saber como era, queriam ter o mesmo?

A resposta foi curta, grossa e ao melhor estilo Ataliba:

– Os são-paulinos sempre achavam brega. Achavam que era uma zona. Aí a gente foi lá e mostrou pra eles a zona. Duas vezes.

Tive ainda a oportunidade de conhecer Tatiana Melim, autora de um dos textos sobre futebol e política publicados no Passa Palavra entre junho e julho deste ano e republicado aqui. Muito bom ver cada vez mais mulheres tomando seu lugar no futebol, lugar que é aquele que elas quiserem ter – na torcida, em campo, na arquibancada. Sem depender de homem nenhum. Sendo sujeitos e não objetos.

Por fim, cortamos o bolo, cantamos o hino e agradecemos – mais uma vez – aos jogadores, pelo que fizeram e pelo que continuam fazendo, honrando a camisa do time do povo sempre. Porque a história, aqui do lado de baixo, se conta e sempre se contou assim: de pai pra filho, de geração em geração, celebrando cada conquista coletiva. Uma história que começou em 1910, como vem retratando excelentemente o Filipe em seu blog AnarCorinthians, e que é e sempre será eterna como o título de 1977.

O Movimento Rua São Jorge, ao realizar esse evento já apontando para a sua repetição ano a ano, vem preencher uma lacuna importantíssima na dimensão torcedora do futebol: a da preservação da memória pelas mãos do torcedor, e não da mídia oficial e oficiosa. Se queremos e buscamos sempre a libertação, como em 1954-1977, devemos fazê-lo pelos nossos meios, com as nossas mãos.

De punhos erguidos, como Basílio.

Vai, Corinthians.

Vai, não pára de lutar.

Que aqui da arquibancada – e cada vez mais também da Rua – a sua sempre Fiel Torcida não pára nunca de apoiar.

A foto do bolo é do blog da Waleska – outra corinthianíssima presente no evento.

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Paixão mercenária

Texto da Lelê, que é tão foda que dá orgulho só de poder dizer que sou amigo dela.

http://revistatpm.uol.com.br/blogs/eneaotil/2009/09/21/paixao-mercenaria.html

Paixão mercenária

Tuca,

Li sua justificativa por aí para processar o Corinthians por conta do uso da sua música. Ainda assim, não consigo te enxergar diferente do que um cara malandro que quis enriquecer por conta de uma música boa.

“Desde que a música que compus começou a ser cantada nas arquibancadas, 10 em cada 10 pessoas que vinham conversar comigo perguntavam se eu tinha registrado e se havia ganho algum dinheiro. Ao responder negativamente, sempre tinha que ver na cara da pessoa que ela me achava um otário.”

Esse seu primeiro argumento me fez ter vontade de nem ler o resto. Porque ele me faz pensar que você, além de viver rodeado de gente mal intencionada, acionou o Corinthians para provar para essa gente que você não é otário. Que você é sujeito macho, espertalhão. Aquilo que chamam de autoafirmação.

Só que quem ficou com cara de otário foi toda uma nação que fez da sua música um hino e saiu cantando por aí, tatuando no braço, nas costas. Que acordou e que dormiu assoviando-a tantas vezes, que se denominou mais um louco do bando, sem saber que alguém, quase um ano depois, cobraria R$ 700 mil do Corinthians por conta disso.

Entendo que é um direito seu registrar a música neste país de malandros onde todo mundo quer tirar vantagem. Deveria ter feito isso antes de milhões de corinthianos comprarem a sua camiseta. Porque a gente se sente lesado, sabe? Veja bem, eu, corinthiana, costumo comprar minha camiseta oficial para reverter o dinheiro ao clube, mesmo sabendo que muitas vezes ele é mal gerido pela diretoria. Se você, autor da música, tivesse produzido as camisetas e montado uma banquinha na porta do Pacaembu, muito provavelmente eu não teria comprado, apesar de a idéia ser realmente muito boa. Outros tantos pensam como eu e, muito provavelmente também, você teria arrecadado uns R$ 200, depois de vender a camiseta para a sua mãe, sua namorada e seu melhor amigo.

Você fez o processo inverso. Lançou a música, viu a proporção que tomou e agora quer comprar um apartamento duplex em Higienópolis, para ficar mais perto do Pacaembu. O dinheiro que eu gastei com a minha camisa não será revertido para o clube, portanto é isso que faz o corinthiano se sentir traído.

Ter escrito uma música de arquibancada não te faz um compositor, não te iguala ao Jorge Ben, ao Gilberto Gil e aos Racionais. Quando eu compro um CD desses artistas, eu sei para onde, exatamente, o meu dinheiro está indo. Se você acha que tem talento para a música, siga esse caminho e aí eu decido se compro ou não o “The Greatest Hits Of Tuca”. Se você acha que tem um talento para o marketing, cria um projeto e pede um emprego no Corinthians ou na Nike.

O que não dá é para ser torcedor profissional. O prêmio para um torcedor que sofre pra comprar um ingresso, que é maltratado na entrada do estádio, que tem que arcar com suas despesas, que só perde dinheiro com o futebol (e não ganha) nem é, por exemplo, o mínimo de conforto. Isso é direito. O prêmio para um torcedor é um gol bonito, aos 46 minutos do segundo tempo, fazendo o Corinthians ganhar de virada. Isso é um prêmio.

Acho que ainda dá para reverter essa situação. Já que a música é sua, fica com ela. Ou, se continuar processando o Corinthians e ganhar os seus R$ 700 mil (coisa que não acredito porque tenho certeza de que você não pediu autorização para o clube para usar o nome do mesmo), contrata um centroavante bom para colocar no lugar do Souza.

Sem mais,

Leonor Macedo

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Uma volta alternativa pelo futebol europeu

O Mau, guitarra do Fora de Jogo (banda só sobre futebol que eu faço parte) e blogueiro do Santo André no globoesporte.com, acabou de voltar de um rolê da Europa e está escrevendo no outro blog dele, que é totalmente excelente, sobre os rolês boleiros que deu.

O blog por si só já é muito bom, ele conta sua busca pela “lenda das 1000 camisas”, cada dia posta uma camisa da coleção dele e conta a história do clube, da torcida, curiosidades.

Agora com esse rolê na Europa, tá contando algumas coisas também das cidades por onde passou e encontros que teve com jogadores sem querer.

Fora um quadrinho que ele achou por lá cujo personagem principal é um jogador veterano do Barcelona, fantástico!

Leiam clicando aqui, vale a pena.

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Vítimas da exploração

EXCELENTE artigo do amigo geógrafo, jornalista e técnico do nosso time na faculdade Paulo Fávero, publicado no Universidade do Futebol.

Vítimas da exploração
Jovens são tratados como mercadoria na ilusão de um dia serem profissionais do futebol
Paulo Miranda Fávero

Seja na infância ou na idade adulta, a exploração do jogador de futebol se dá por diversas maneiras. A noção de liberdade é uma ilusão necessária no capitalismo e o jogador não tem autonomia da escolha. Dentro do sistema Fifa, se ele quiser atuar profissionalmente, terá de fazer sob contrato de algum clube regularizado. Por isso existe um mercado paralelo para viabilizar esse sonho.
 
O jovem M. (o nome será omitido a pedido do próprio entrevistado) revela como funciona um esquema para profissionalizar atletas. No caso específico de M., foi pago R$ 3.000,00 para um ex-jogador fazer o processo de profissionalização. “Eu dei cópia dos meus documentos, foto e assinei os contratos da CBF. Não precisei fazer exame médico, foi tudo arranjado. Quem deu a grana foi um amigo, que acha que eu tenho condições e investiu em mim. Mas fazendo testes nos clubes, alguns moleques me falaram que dava para fazer tudo por apenas R$ 1.500,00”, conta.
 
M. tinha 25 anos na época, 1,76m de altura e pesava 52 quilos. Além de não ter o porte atlético para um jogador profissional, tem uma idade já avançada para iniciar uma carreira nos campos de futebol. “Neste mundo em que tudo se dá um jeitinho, sempre fica um fundinho de esperança. A gente vê tanto jogador ruim na TV que acha que consegue. Mas pensando racionalmente, eu acho que não tenho condições. Como um amigo se dispôs a pagar para mim, aceitei. E é assim que funciona”, comenta.
 
Mas quando M. quis disputar competições amadoras, que envolvem milhares de pessoas em todos os lugares, os famosos jogos de várzea, descobriu que não podia mais: ele era profissional. “Agora, para poder atuar nestes campeonatos, preciso pagar R$ 100,00, para fazer o que eles chamam de reversão, ou seja, voltar a ser amador”, explica. O registro de M. foi feito em um clube do interior paulista e seu nome saiu no BID, o Boletim Informativo Diário da CBF. E M. até indica o caminho para aqueles que sonham em se consagrar nos gramados. “Muita gente que eu troquei idéia faz um DVD com seus melhores momentos. Isso ajuda muito e o cara pode até conseguir uma transferência para o exterior”, diz.
 
 
Quanto os capitalistas precisam pagar para obter os direitos relativos à força de trabalho, e o que, exatamente, esses direitos abrangem? As lutas sobre o índice salarial e sobre as condições de trabalho (a extensão do dia útil, a intensidade do trabalho, o controle sobre o processo laboral, a perpetuação das habilidades etc.) são, em conseqüência, endêmicas com respeito à circulação do capital (HARVEY, 2005, p. 132).
 
 
É inevitável que em plena sociedade do espetáculo muitas crianças tenham a ilusão de um dia tornarem-se atletas de futebol. Como foi exposto, existe um mercado voltado para suprir as demandas pelos craques, mas que dá as costas àqueles que não deram certo na profissão. Harvey aponta que a força de trabalho é uma mercadoria, e assim também é qualificada como uma forma de propriedade privada. Mas num mundo em que ninguém pode atentar contra a propriedade privada alheia, o jogador, seja ele criança ou adulto, não tem direitos exclusivos de venda de sua própria força de trabalho, como qualquer outro trabalhador, e ele mesmo já se tornou uma mercadoria para ser consumida.
 
Hoje, muitos desses jogadores são como as vedetes citadas por Guy Debord: eles têm um papel a desempenhar e vivem na aparência. São o contrário do indivíduo e preferem ficar com a personagem de si mesmo. Quando olham para o espelho, preferem ser a imagem refletida, como nos aponta Lefebvre[1]. É uma vida aparente sem profundidade, mas eles se satisfazem por receberem o “direito de imagem” que o clube paga. “As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso” (DEBORD, 2002, p. 41).
        
Na própria linguagem do futebol, os jogadores são considerados mercadoria: “(…) os demais agentes referem-se a eles, seguidamente, como mercadorias: ‘fulano custou x’, ‘com fulano o clube faturou x’, ‘fulano foi comprado por x, mas não vale y’ e assim por diante” (DAMO, 2005, p. 340). Até quando a sociedade irá olhar para isso como se nada estivesse acontecendo?
 
 
Bibliografia
 
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. 2005. 435 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2005.
 
DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
 
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
 
 
*Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQe pesquisador do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol).


[1] Informação extraída de uma tradução não-oficial do capítulo O Espaço Contraditório, do livro A Produção do Espaço, de Henri Lefebvre.

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Passa Palavra 5

O Passa Palavra continua com seu Especial Futebol e Política.

O texto, dessa vez, é assinado por Tatiana Melim e trata da relação entre mídia e torcida.

Leia aqui.

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Violência no futebol em números

Fora algumas babaquices no fim do texto como ligar a venda de cerveja à violência de forma direta, o estudo parece ser interessante e importante. Até por mostrar que a violência acontece na maioria dos casos entre gente que não é considerada “marginal” por seu histórico, seja lá o que isso signifique na cabeça desses sociólogos.

Vale a pena ler.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/07/19/ult5772u4685.jhtm

19/07/2009 – 13h35
Brasil lidera ranking de mortes em confrontos no futebol, aponta estudo

Elaine Patricia Cruz
Da Agência Brasil

Nos últimos dez anos, 42 torcedores morreram em conflitos dentro, no entorno ou nos acessos aos estádios de futebol. Os dados foram contabilizados e estudados pelo sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universo, Maurício Murad, baseado em dados fornecidos por jornais, revistas e rádios das principais cidades do país entre os anos de 1999 e 2008. As informações foram mais tarde checadas nos Institutos Médico Legais (IMLs) e nas delegacias de polícia das cidades onde as mortes ocorreram.

“Quando começamos a fazer o levantamento, o Brasil estava em terceiro lugar na comparação com outros países no número de óbitos. A ordem era Itália, Argentina e Brasil. Hoje, dez anos depois, o Brasil conquistou o primeiro lugar. É uma conquista trágica, perversa”, afirmou o professor.

Segundo ele, essa constatação deveria ser uma grande preocupação para um país que vai abrigar um grande evento como a Copa do Mundo de 2014. “Essa violência é uma preocupação para a Copa porque, de todos os problemas que a Fifa [Federação Internacional de Futebol] acompanha, e de tudo o que o caderno de exigências para a Copa do Mundo determina, a segurança pública é um dos principais. O problema da segurança pública é da maior importância para a Copa do Mundo.”

O fato do Brasil estar ocupando o trágico primeiro lugar no número de óbitos em conflitos de torcedores deve-se, segundo o professor, ao fato de não ter ocorrido aqui uma reação a esse tipo de violência, tal como fez a Itália, promovendo reformas na legislação até para punir os dirigentes que incitam a violência. “No Brasil, infelizmente, não houve reação satisfatória e consistente”, concluiu.

Um outro dado alarmante da pesquisa, segundo o sociólogo, é que a proporção dos óbitos vem aumentando nos últimos cinco anos. Se no período de dez anos a média é de 4,2 mortes a cada ano, no período entre 2004 e 2008 o número de mortos totaliza 28 -uma média de 5,6 mortos por ano. A proporção é ainda bem maior se contabilizados apenas os dois últimos anos: 14 mortes ocorreram entre 2007 e 2008, uma média de sete mortos por ano.

“Significa não só que a soma dos óbitos é uma coisa preocupante, alarmante e que tem que ser vista, estudada e contida, como também que a proporção, nos últimos dez anos, é crescente e, portanto, muito mais preocupante”, definiu.

Mas a violência não é algo típico apenas do mundo esportivo. “Cresceu a violência no futebol porque cresceu a violência no país. E cresceu a violência no país porque a impunidade e a corrupção são cada vez maiores”, concluiu o sociólogo.

Além do crescimento do número de mortos em conflitos esportivos nos últimos anos, a pesquisa também verificou mudanças na forma dessa violência. Se antes as mortes ocorriam por quedas ou brigas, hoje elas ocorrem geralmente por armas de fogo.

Outro dado novo que foi observado nos últimos anos de pesquisa é a marcação dos conflitos e das tocaias contra grupos de torcedores rivais por meio da internet e do site de relacionamentos Orkut.

A maior parte dos mortos, de acordo com a pesquisa, era composta por jovens entre 14 e 25 anos, de classe baixa ou média baixa, com escolaridade até o ensino fundamental e, em geral, desempregada. E também foi constatado que, em grande parte, esses torcedores não eram ligados a práticas de violência.

“Em quase 80% dos óbitos, as pessoas não tinham nenhuma ligação com setores violentos ou delinquentes de torcidas organizadas. Apenas em 20% é que os óbitos eram de pessoas ligadas a grupos de vândalos”, afirma Murad.

Segundo ele, o futebol reproduz de forma cruel e perversa a situação do país, onde a violência é crescente e vitimiza muito mais as pessoas não ligadas aos grupos delinquentes. “Uma morte já é gravíssima, mas a morte de um inocente, que não está ligado a práticas de violência e que foi ao estádio para se divertir e que foi com sua família para torcer pelo seu time é muito mais grave”, ressalta.

A pesquisa de Murad propõe como soluções de combate a essa violência nos esportes, no curto prazo, ações mais repressivas tais como a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios; o controle da venda de ingressos, proibindo a ação de cambistas, e o aumento da oferta do transporte coletivo principalmente na saída dos estádios.

“Chegar aos estádios, cada um chega mais ou menos numa hora, mas sair, sai todo mundo junto. Ali é que mora o perigo. E quanto mais rápido a multidão escoar, menor é a possibilidade de violência, de roubo e de brigas”, conclui.

As ações mais efetivas para o combate à violência, no entanto, são as de médio e longo prazo. Aqui, Murad cita como soluções as campanhas educativas que possam voltar a atrair as famílias para os estádios. “É preciso aumentar, com ingressos promocionais, a ida de mulheres, famílias e de pessoas da terceira idade e de crianças aos estádios porque esses grupos naturalmente neutralizam e isolam esses grupos violentos”, afirmou.

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