Idário

Perdemos Idário hoje. O Deus da Raça. Campeão de 1954. Que fique em paz, estará para sempre em todos os corações corinthianos.
Estava internado na Baixada Santista, com um AVC. Queria que seu velório fosse no Corinthians, mas a diretoria do clube negou-lhe o pedido.
O Corinthians fala, graças a iniciativa de Basílio, em criar um fundo de amparo aos ex-atletas, com 2% das bilheterias dos jogos tendo esta destinação. Seria o mínimo a fazer. Tratam-se de trabalhadores.
Por vezes o glamour das grandes estrelas nos ofusca a realidade de que a imensa maioria dos jogadores e ex-jogadores de futebol são trabalhadores mal pagos, explorados e sem quase nenhum direito trabalhista. E o futebol ainda se apresenta enquanto imagem para grande parte da molecada como solução para a crise do trabalho, saída de uma vida de cansaço e exploração. Uma minoria consegue, e a mídia se encarrega de transformá-la em regra pétrea.
Triste a forma como se foi Idário, e como se foram tantos outros. O Corinthians deveria fazer um minuto de silêncio eternamente por ele.

Perdemos Idário hoje. O Deus da Raça. Campeão de 1954. Que fique em paz, estará para sempre em todos os corações corinthianos.

Estava internado na Baixada Santista, com um AVC. Queria que seu velório fosse no Corinthians, mas a diretoria do clube negou-lhe o pedido. Não por uma questão pessoal, é política da diretoria atual não realizar mais velórios na Capelinha do clube.

O Corinthians fala, graças à iniciativa de Basílio, em criar um fundo de amparo aos ex-atletas, com 2% das bilheterias dos jogos tendo esta destinação. Seria o mínimo a fazer. Tratam-se de trabalhadores.

Por vezes o glamour das grandes estrelas nos ofusca a realidade de que a imensa maioria dos jogadores e ex-jogadores de futebol são trabalhadores mal pagos, explorados e sem quase nenhum direito trabalhista. E o futebol ainda se apresenta enquanto imagem para grande parte da molecada como solução para a crise do trabalho, saída de uma vida de cansaço e exploração. Uma minoria consegue, e a mídia se encarrega de transformá-la em regra pétrea.

Triste a forma como se foi Idário, e como se foram tantos outros. O Corinthians deveria fazer um minuto de silêncio eternamente por ele.

(imagens retiradas do site da Larissa Beppler)

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Tuffy

Retirado de http://www.douglasnascimento.com/blog/tuffy-um-goleiro-que-nao-podemos-esquecer/

(por Douglas Nascimento)

Tuffy, um goleiro que não podemos esquecer

Dizem que no futebol a posição mais ingrata é a de goleiro. Defender as metas de um time pode ser tão delicado quanto lidar com taxas de juros do banco central, qualquer descuido pode ser catastrófico.

E ser goleiro significa ser um jogador de dois extremos. Uma sequência de defesas espetaculares pode fazer deste um herói, por outro lado se falhar cai em desgraça.

Esta tão instável posição de já revelou no passado inúmeros talentos, tanto ou mais que nos dias de hoje. Vimos pisar nos gramados homens como Gilmar dos Santos Neves, Oberdan Cattani, Manga, Félix e Caxambu, só para citar alguns nomes mais conhecidos. Hoje a geração de goleiros consagrados atende pelos nomes de Rogério Ceni, Marcos e Júlio César, entre outros.

Mas muito antes de todos estes goleiros do passado e do presente sequer pensarem em serem consagrados, um grande jogador de nome e personalidade forte, caráter irrepreensível, e de uma segurança invejável sob as metas já defendia o gol corintiano por aí. Seu nome, Tuffy.

O Histórico:

Tuffy Neujm (ou Neugen como escrevem alguns por ai) , nasceu na cidade de Santos ainda no século XIX em 1898. Apesar de santista não foi no alvinegro praiano que ele começou a jogar bola, e sim na extinta A.A das Palmeiras, aos dezessete anos de idade. Ele ainda passaria por Pelotas, Santos, Sírio-Libanês, Palestra Itália, novamente Santos até chegar em seu grande auge, no Corinthians entre 1928 e 1931.

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Era apelidado pela imprensa e pelos seus adversários de Satanás, pelo seu uniforme negro, suas costeletas e por estar algumas vezes com a barba para fazer. Entre suas inovações foi um dos primeiros da posição a adotar luvas.

O Homem:

Hoje, com a facilidade de informação que temos a nossa disposição, é muito fácil sabermos de tudo que os atletas fazem. Ficamos sabendo de seus hobbies, de seus outros negócios, de suas baladas indevidas e tudo mais. Mas na época em que Tuffy disputava suas partidas isso era muito mais difícil. Fui atrás de alguns fatos curiosos sobre a vida de Tuffy que provavelmente nunca foram colocadas em pauta.

Em outubro de 1931 Tuffy publicou um anúncio de 1/4 de página no jornal “A Gazeta”, um feito bem dispendioso para um jogador de futebol na época. No seu anúncio, um apelo para que dirigentes e esportistas paulistas se unissem para auxiliar o jogador Tatu, que até pouco tempo antes deste anúncio, havia defendido a Portuguesa de Desportos e gravemente doente teve que abandonar definitivamente o futebol, chegando a passar muita necessidade.

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No anúncio, Tuffy com palavras emocionantes conclamava seus colegas a contribuirem com 10$000 (10 contos de Réis) para ajudar Tatu (apelido do atacante Altino Marcondes). A ajuda, após o apelo, foi grande mas Tatu viria a falecer meses depois, no início de 1932.

O Empresário:
Além de talentoso sob as metas, hábil nas palavras e dono de um coração bondoso, Tuffy também era um homem de negócios. Após encerrar sua carreira no Corinthians, foi proprietário do cinema Penha Teatro (alguns sites dizem ele ter sido bilheteiro de um cinema no centro, mas ele foi na realidade dono), vendendo depois , por razão que desconheço, ao Sr Antonio Rego Vieira.

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O Fim:

Em 1935, vitimado por uma pneumonia dupla, Tuffy viria a falecer. Como era desejo seu, foi sepultado com a camisa do Corinthians em seu mausoléu no Cemitério São Paulo em Pinheiros e é lá que está até hoje.

Mas poderia estar melhor, seu túmulo há muito tempo está esquecido e em situação de abandono. Descobri sua “morada definitiva” certo dia do ano passado quando fui a um enterro. O sepultamento foi na mesma rua em que vi uma pilha enorme de sujeira, folhas e alguns restos de vasos plásticos, notei o emblema no uniforme e fui mais perto ver, quando descobri que tratava-se do túmulo de Tuffy.

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Meu pai, já falecido, era corintiano e contava muitas histórias sobre Tuffy e outros ídolos da época como Grané e Del Debbio, então sempre soube de suas façanhas em campo, e ao me deparar com seu túmulo ali, sujo e esquecido fiquei muito emocionado e aborrecido.

Além disso, alguns ornamentos de sua sepultura há muito foram arrancadas. Voltei ali dois dias depois, num sábado, e limpei o local. Porém desde então nada mais foi feito.

Seu túmulo, como puderam ver na imagem acima, é bastante simples e aparentemente ele está ali sozinho. Uma foto sua com o uniforme de goleiro do Corinthians em um lado e duas placas, uma com suas datas de nascimento e morte e outra uma homenagem recebida por ele em 1936 doada por veteranos do futebol uruguaio adornam o mausoléu.

Fotografia: Douglas Nascimento

Me entristece em ver que quase ninguém se lembra mais deste grande ídolo do futebol brasileiro. Nós não reverenciamos nossos mortos, temos medo e preconceito de ir a um cemitério, quando na verdade ali é um recinto de paz.

O que este homem contribuiu para o futebol alvinegro tornar-se aos 99 anos de existência o gigante que é, pede que seja mais lembrado pelos corintianos. Fazendo uma analogia simples, se o Corinthians fosse uma casa em construção, de nada hoje adiantaria Ronaldo e Chicão fazerem o telhado, se homens como Tuffy Neujm não tivessem antes construido os alicerces.

Visitem Tuffy no Cemitério São Paulo, depositem flores em seu túmulo façam um minuto de silêncio e roguem por sua alma. Onde estiver ele estará torcendo eternamente pelo Corinthians.

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Dia do Corinthians

Acessem e divulguem.

http://diadocorinthians.com.br/

E fiquem na expectativa.

Semana que vem, o lançamento oficial.

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Uma volta alternativa pelo futebol europeu

O Mau, guitarra do Fora de Jogo (banda só sobre futebol que eu faço parte) e blogueiro do Santo André no globoesporte.com, acabou de voltar de um rolê da Europa e está escrevendo no outro blog dele, que é totalmente excelente, sobre os rolês boleiros que deu.

O blog por si só já é muito bom, ele conta sua busca pela “lenda das 1000 camisas”, cada dia posta uma camisa da coleção dele e conta a história do clube, da torcida, curiosidades.

Agora com esse rolê na Europa, tá contando algumas coisas também das cidades por onde passou e encontros que teve com jogadores sem querer.

Fora um quadrinho que ele achou por lá cujo personagem principal é um jogador veterano do Barcelona, fantástico!

Leiam clicando aqui, vale a pena.

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Vítimas da exploração

EXCELENTE artigo do amigo geógrafo, jornalista e técnico do nosso time na faculdade Paulo Fávero, publicado no Universidade do Futebol.

Vítimas da exploração
Jovens são tratados como mercadoria na ilusão de um dia serem profissionais do futebol
Paulo Miranda Fávero

Seja na infância ou na idade adulta, a exploração do jogador de futebol se dá por diversas maneiras. A noção de liberdade é uma ilusão necessária no capitalismo e o jogador não tem autonomia da escolha. Dentro do sistema Fifa, se ele quiser atuar profissionalmente, terá de fazer sob contrato de algum clube regularizado. Por isso existe um mercado paralelo para viabilizar esse sonho.
 
O jovem M. (o nome será omitido a pedido do próprio entrevistado) revela como funciona um esquema para profissionalizar atletas. No caso específico de M., foi pago R$ 3.000,00 para um ex-jogador fazer o processo de profissionalização. “Eu dei cópia dos meus documentos, foto e assinei os contratos da CBF. Não precisei fazer exame médico, foi tudo arranjado. Quem deu a grana foi um amigo, que acha que eu tenho condições e investiu em mim. Mas fazendo testes nos clubes, alguns moleques me falaram que dava para fazer tudo por apenas R$ 1.500,00”, conta.
 
M. tinha 25 anos na época, 1,76m de altura e pesava 52 quilos. Além de não ter o porte atlético para um jogador profissional, tem uma idade já avançada para iniciar uma carreira nos campos de futebol. “Neste mundo em que tudo se dá um jeitinho, sempre fica um fundinho de esperança. A gente vê tanto jogador ruim na TV que acha que consegue. Mas pensando racionalmente, eu acho que não tenho condições. Como um amigo se dispôs a pagar para mim, aceitei. E é assim que funciona”, comenta.
 
Mas quando M. quis disputar competições amadoras, que envolvem milhares de pessoas em todos os lugares, os famosos jogos de várzea, descobriu que não podia mais: ele era profissional. “Agora, para poder atuar nestes campeonatos, preciso pagar R$ 100,00, para fazer o que eles chamam de reversão, ou seja, voltar a ser amador”, explica. O registro de M. foi feito em um clube do interior paulista e seu nome saiu no BID, o Boletim Informativo Diário da CBF. E M. até indica o caminho para aqueles que sonham em se consagrar nos gramados. “Muita gente que eu troquei idéia faz um DVD com seus melhores momentos. Isso ajuda muito e o cara pode até conseguir uma transferência para o exterior”, diz.
 
 
Quanto os capitalistas precisam pagar para obter os direitos relativos à força de trabalho, e o que, exatamente, esses direitos abrangem? As lutas sobre o índice salarial e sobre as condições de trabalho (a extensão do dia útil, a intensidade do trabalho, o controle sobre o processo laboral, a perpetuação das habilidades etc.) são, em conseqüência, endêmicas com respeito à circulação do capital (HARVEY, 2005, p. 132).
 
 
É inevitável que em plena sociedade do espetáculo muitas crianças tenham a ilusão de um dia tornarem-se atletas de futebol. Como foi exposto, existe um mercado voltado para suprir as demandas pelos craques, mas que dá as costas àqueles que não deram certo na profissão. Harvey aponta que a força de trabalho é uma mercadoria, e assim também é qualificada como uma forma de propriedade privada. Mas num mundo em que ninguém pode atentar contra a propriedade privada alheia, o jogador, seja ele criança ou adulto, não tem direitos exclusivos de venda de sua própria força de trabalho, como qualquer outro trabalhador, e ele mesmo já se tornou uma mercadoria para ser consumida.
 
Hoje, muitos desses jogadores são como as vedetes citadas por Guy Debord: eles têm um papel a desempenhar e vivem na aparência. São o contrário do indivíduo e preferem ficar com a personagem de si mesmo. Quando olham para o espelho, preferem ser a imagem refletida, como nos aponta Lefebvre[1]. É uma vida aparente sem profundidade, mas eles se satisfazem por receberem o “direito de imagem” que o clube paga. “As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso” (DEBORD, 2002, p. 41).
        
Na própria linguagem do futebol, os jogadores são considerados mercadoria: “(…) os demais agentes referem-se a eles, seguidamente, como mercadorias: ‘fulano custou x’, ‘com fulano o clube faturou x’, ‘fulano foi comprado por x, mas não vale y’ e assim por diante” (DAMO, 2005, p. 340). Até quando a sociedade irá olhar para isso como se nada estivesse acontecendo?
 
 
Bibliografia
 
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. 2005. 435 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2005.
 
DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
 
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
 
 
*Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQe pesquisador do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol).


[1] Informação extraída de uma tradução não-oficial do capítulo O Espaço Contraditório, do livro A Produção do Espaço, de Henri Lefebvre.

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Corinthians, Corintian… Coritan?

por Kadj Oman

Corinthians tem 11 letras.
Uma para cada posição no campo.
Incluindo aí um H aparentemente sem função e um S que, dizem, foi ganho com o tempo por conta dos jornais que tanto chamavam os jogadores do inicialmente Corinthian de “os Corinthians”.
H e S que todo corinthiano – com H! – sabem onde ficam e fazem questão de não esquecer. Porque é sua história, seu DNA.
Em 2009, o torcedor alvinegro tinha também 11 jogadores titulares que não só sabia escalar na ponta da língua como sentia confiança em ter em campo.
Felipe; Alessandro, Chicão, Willian e André Santos; Cristian, Elias e Douglas; Jorge Henrique, Ronaldo e Dentinho.
Um time que, pra além da segurança de um time muito bem treinado e entrosado, simbolizava para a torcida o que ela mais preza no clube: o trabalho coletivo.
Porque mesmo com alguém do quilate de Ronaldo, o futebol da equipe não apresentava dependência de um ou outro jogador, nem girava em torno deste ou daquele.
A bola era dividida quase que igualmente, jogo a jogo, pelos 11.
Como reza o lema mosqueteiro, mascote do time: um por todos, todos por um.
E nenhum a menos.
Foi com esse jogo coletivo que o time levantou duas taças, uma invicto.
Entrou pra história, e pro Brasileiro desse ano com força.
A torcida, como há muito não se via, sentia orgulho de ter um time em campo que lhe remetia a esquadrões passados de grandeza semelhante, sem grandes destaques individuais, com muita dedicação e raça.
Bradava-se pelos quatro cantos que esse time tinha grandes chances no ano do centenário do clube de conquistar o inconquistável, escalar o Everest corinthiano: a Taça Libertadores da América.
A diretoria dizia que não perderia ninguém, que a base era essa, que seria mantida.
E o discurso se repetia dos vestiários às arquibancadas.
Mas nem tudo era monotônico nessa história.
Havia, claro, o torcedor desconfiado.
Aquele que lembra que Andrés Sanchez fez parte da diretoria que compactuou com a MSI.
Aquele que lembra que o clube tem uma dívida de R$ 100 milhões.
Aquele que sabe que discurso no futebol não vale nada.
Aquele que foi o primeiro a gritar “eu já sabia” quando, dez dias antes da abertura da temida janela de transferências – nome bonitinho que se dá pr’aquele período de pesca predatória onde a Europa trabalha com afinco para a manutenção de forças no futebol mundial tirando os bons valores da América, como fez com nosso ouro e prata séculos atrás – veio o anúncio da venda para o Fenerbahçe, da Turquia, na primeira oferta que apareceu, de dois jogadores do elenco vitorioso: Cristian, a alma do time, o volante que fez o torcedor lembrar de Ezequiel e Zé Elias, o H de Corinthians e de corinthiano que guarda o meio e a memória do clube, e André Santos, o habilidoso, o S conquistado no final do nome, o mesmo S da Seleção Brasileira da qual fez parte na última Copa das Confederações.
E o corinthiano, do mais deslumbrado ao mais reticente, sofreu duro golpe.
Teve dificuldades pra dormir.
Porque seu Corinthians virava Corintian assim, na primeira investida estrangeira.
No lugar da força e da segurança, do orgulho no time, veio o medo.
De voltar ao mais do mesmo.
De ver seu patrimônio lapidado de novo.
De virar Coritan.
Mas, em tempos de adversidade, sempre houve no meio da massa alvinegra um sentimento de superação.
De quem ficou 23 anos sem ganhar nada e nunca se ausentou.
De quem viveu 2007 com a certeza de que depois viria 2008, 2009, 2010 e o Corinthians continuaria sendo Corinthians.
De quem sabe que no Parque São Jorge o nome na frente da camisa vale mais que o de trás.
Pois ser Corinthians, se sabe, é ser sofredor.
E guerreiro.
Então, corinthiano, não se deixe levar com André e Cristian para a Turquia.
Eles se vão, mas você, como sempre, fica.
Como sempre ficou.
E como sempre ficará.
Dói perder a alma do time, é verdade.
Dá medo não saber quem entrará em campo no próximo jogo depois de tanto tempo tendo a escalação de cor na cabeça.
Mas o que há de eterno em nossos corações você sabe, e bem sabe, é o Corinthians.
A camisa, a tradição, a história.
Então, cabeça erguida!
E olhos abertos.
Porque se não devemos chorar por quem sai, também não podemos assistir passivamente ao processo.
Corinthians é luta, então que lutemos pelo que é nosso.
Com o H e o S em seus devidos lugares.

Corinthians tem 11 letras.

Uma para cada posição no campo.

Incluindo aí um H aparentemente sem função e um S que, dizem, foi ganho com o tempo por conta dos jornais que tanto chamavam os jogadores do inicialmente Corinthian de “os Corinthians”.

H e S que todo corinthiano – com H! – sabem onde ficam e fazem questão de não esquecer. Porque é sua história, seu DNA.

Em 2009, o torcedor alvinegro tinha também 11 jogadores titulares que não só sabia escalar na ponta da língua como sentia confiança em ter em campo.

Felipe; Alessandro, Chicão, Willian e André Santos; Cristian, Elias e Douglas; Jorge Henrique, Ronaldo e Dentinho.

Um time que, pra além da segurança de um time muito bem treinado e entrosado, simbolizava para a torcida o que ela mais preza no clube: o trabalho coletivo.

Porque mesmo com alguém do quilate de Ronaldo, o futebol da equipe não apresentava dependência de um ou outro jogador, nem girava em torno deste ou daquele.

A bola era dividida quase que igualmente, jogo a jogo, pelos 11.

Como reza o lema mosqueteiro, mascote do time: um por todos, todos por um.

E nenhum a menos.

Foi com esse jogo coletivo que o time levantou duas taças, uma invicto.

Entrou pra história, e pro Brasileiro desse ano com força.

A torcida, como há muito não se via, sentia orgulho de ter um time em campo que lhe remetia a esquadrões passados de grandeza semelhante, sem grandes destaques individuais, com muita dedicação e raça.

Bradava-se pelos quatro cantos que esse time tinha grandes chances no ano do centenário do clube de conquistar o inconquistável, escalar o Everest corinthiano: a Taça Libertadores da América.

A diretoria dizia que não perderia ninguém, que a base era essa, que seria mantida.

E o discurso se repetia dos vestiários às arquibancadas.

Mas nem tudo era monotônico nessa história.

Havia, claro, o torcedor desconfiado.

Aquele que lembra que Andrés Sanchez fez parte da diretoria que compactuou com a MSI.

Aquele que lembra que o clube tem uma dívida de R$ 100 milhões.

Aquele que sabe que discurso no futebol não vale nada.

Aquele que foi o primeiro a gritar “eu já sabia” quando, dez dias antes da abertura da temida janela de transferências – nome bonitinho que se dá pr’aquele período de pesca predatória onde a Europa trabalha com afinco para a manutenção de forças no futebol mundial tirando os bons valores da América, como fez com nosso ouro e prata séculos atrás – veio o anúncio da venda para o Fenerbahçe, da Turquia, na primeira oferta que apareceu, de dois jogadores do elenco vitorioso: Cristian, a alma do time, o volante que fez o torcedor lembrar de Ezequiel e Zé Elias, o H de Corinthians e de corinthiano que guarda o meio e a memória do clube, e André Santos, o habilidoso, o S conquistado no final do nome, o mesmo S da Seleção Brasileira da qual fez parte na última Copa das Confederações.

E o corinthiano, do mais deslumbrado ao mais reticente, sofreu duro golpe.

Teve dificuldades pra dormir.

Porque seu Corinthians virava Corintian assim, na primeira investida estrangeira.

No lugar da força e da segurança, do orgulho no time, veio o medo.

De voltar ao mais do mesmo.

De ver seu patrimônio lapidado de novo.

De virar Coritan.

Mas, em tempos de adversidade, sempre houve no meio da massa alvinegra um sentimento de superação.

De quem ficou 23 anos sem ganhar nada e nunca se ausentou.

De quem viveu 2007 com a certeza de que depois viria 2008, 2009, 2010 e o Corinthians continuaria sendo Corinthians.

De quem sabe que no Parque São Jorge o nome na frente da camisa vale mais que o de trás.

Pois ser Corinthians, se sabe, é ser sofredor.

E guerreiro.

Então, corinthiano, não se deixe levar com André e Cristian para a Turquia.

Eles se vão, mas você, como sempre, fica.

Como sempre ficou.

E como sempre ficará.

Dói perder a alma do time, é verdade.

Dá medo não saber quem entrará em campo no próximo jogo depois de tanto tempo tendo a escalação de cor na cabeça.

Mas o que há de eterno em nossos corações você sabe, e bem sabe, é o Corinthians.

A camisa, a tradição, a história.

Então, cabeça erguida!

E olhos abertos.

Porque se não devemos chorar por quem sai, também não podemos assistir passivamente ao processo.

Corinthians é luta, então que lutemos pelo que é nosso.

Com o H e o S em seus devidos lugares.

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Passa Palavra 5

O Passa Palavra continua com seu Especial Futebol e Política.

O texto, dessa vez, é assinado por Tatiana Melim e trata da relação entre mídia e torcida.

Leia aqui.

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