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32 anos do eterno título do povo

O Movimento Rua São Jorge realizou ontem, no Estádio Museu Preto & Branco, no Tatuapé, com a presença de várias das torcidas organizadas do clube e de torcedores de todo canto – até de Americana, em plena terça à noite – evento em comemoração ao dia mais importante da história do Sport Club Corinthians Paulista: 13 de outubro de 1977.

Os torcedores do Time do Povo, então já há quase 23 anos sem um título para comemorar, ansiavam por gritar campeão a plenos pulmões de novo. Aliás, dizem os que lá estiveram na data que não só os corinthianos. Gritava comigo – por conta do barulho – um torcedor nascido coincidentemente em 13 de outubro e presente no Morumbi naquela quinta-feira:

– Você já viu são-paulino comemorando título do Corinthians? E palmeirense? Eu vi!

Não foi a primeira vez que escutei isso. Porque, de fato, deve ser duro aguentar ver uma torcida adversária crescer e se tornar mais e mais fanática em torno de um clube que não ganha nada. Então, o título corinthiano significava para os não-corinthianos – a única divisão possível para além do preto e branco – a libertação daquela encheção de saco.

Mas é óbvio que para nós significava mais. Muito mais.

Aquele Campeonato Paulista valeu e valerá mais – na minha opinião de quem nem era nascido na época, mas cuja mãe, sem ao menos gostar de futebol, estava no estádio pela magnitude do acontecimento – do que qualquer Copa Libertadores que por ventura venhamos a ganhar. Do que qualquer outro campeonato já vencido ou por vencer em nossa história.

Aliado à Democracia Corinthiana, 1977 forma o movimento de libertação do povo de uma posição de opressão, de inferiorização, para tomar de volta o seu devido lugar de motor da História. Mesmo que (apenas?) dentro da dimensão futebolística da sociedade.

Não à toa, estiveram na festa de comemoração dos 32 anos Basílio, o Messias Corinthiano; Tobias, a Muralha de 76; e Ataliba, o Terror da Ponta Direita, campeão em 82 (ainda reserva) e em 83.

Organizou-se uma mesa com os jogadores e mais alguns representantes da torcida para fazer a mediação, além de um lindo bolo comemorativo:

Os Heróis de 77, então, deram sua palavra, com a sempre folclórica intervenção de Ataliba.

A mesa abriu a conversa para perguntas da platéia. Tive a oportunidade de fazer uma delas – ou melhor, duas.

À Basílio e Tobias, disse que para nós, torcedores, era comum estar do lado de fora e vê-los dentro de campo, mas que para mim era algo meio que inimaginável, que sempre percorre meus pensamentos quando subo uma escada qualquer, a sensação de subir o túnel do Maracanã e ver 70 mil corinthianos ou adentrar o campo do Morumbi com 148 mil pessoas nas arquibancadas – o maior público da história do Panetone, no segundo jogo da final de 1977.

A resposta foi a de que estavam acostumados com muita torcida em qualquer lugar, porque sempre havia ao menos 15 mil corinthianos nos jogos do Corinthians, mesmo fora. E que atenderam alguns torcedores no hotel no Rio antes do jogo, mas não tinham a mínima noção de que haveriam 7o mil no estádio, o que realmente arrepiou.

Basílio disse ainda que para ele, no começo, foi impressionante o tamanho da torcida, já que ele vinha da Portuguesa, que tinha em seus jogos 20, 25 mil torcedores, e chegou no Corinthians pra jogar no Pacaembu com 73 mil pessoas – e pensar que hoje são permitidos só 40 mil…

Ataliba, então, pegou o microfone e completou:

– Pra você foi difícil? E pra mim então, que vinha do Juventus com suas 2 mil testemunhas e olhe lá?

Arrancou risos de todos, e me fez pensar em como a frase “a camisa pesa” se encaixa muito bem nessas situações. A relação do jogador de futebol com a torcida em um clube pequeno ou médio e em um clube de massa não tem como ser a mesma, e aí tem quem aguente – como eles – e tem quem não aguente – como tantos outros – a pressão da Fiel.

Direcionei então para Ataliba a segunda questão, sobre a outra ponta do movimento de libertação do povo, a Democracia: como era a reação dos jogadores de outros times quanto ao que se passava no Corinthians? Eles achavam estranho, errado, queriam saber como era, queriam ter o mesmo?

A resposta foi curta, grossa e ao melhor estilo Ataliba:

– Os são-paulinos sempre achavam brega. Achavam que era uma zona. Aí a gente foi lá e mostrou pra eles a zona. Duas vezes.

Tive ainda a oportunidade de conhecer Tatiana Melim, autora de um dos textos sobre futebol e política publicados no Passa Palavra entre junho e julho deste ano e republicado aqui. Muito bom ver cada vez mais mulheres tomando seu lugar no futebol, lugar que é aquele que elas quiserem ter – na torcida, em campo, na arquibancada. Sem depender de homem nenhum. Sendo sujeitos e não objetos.

Por fim, cortamos o bolo, cantamos o hino e agradecemos – mais uma vez – aos jogadores, pelo que fizeram e pelo que continuam fazendo, honrando a camisa do time do povo sempre. Porque a história, aqui do lado de baixo, se conta e sempre se contou assim: de pai pra filho, de geração em geração, celebrando cada conquista coletiva. Uma história que começou em 1910, como vem retratando excelentemente o Filipe em seu blog AnarCorinthians, e que é e sempre será eterna como o título de 1977.

O Movimento Rua São Jorge, ao realizar esse evento já apontando para a sua repetição ano a ano, vem preencher uma lacuna importantíssima na dimensão torcedora do futebol: a da preservação da memória pelas mãos do torcedor, e não da mídia oficial e oficiosa. Se queremos e buscamos sempre a libertação, como em 1954-1977, devemos fazê-lo pelos nossos meios, com as nossas mãos.

De punhos erguidos, como Basílio.

Vai, Corinthians.

Vai, não pára de lutar.

Que aqui da arquibancada – e cada vez mais também da Rua – a sua sempre Fiel Torcida não pára nunca de apoiar.

A foto do bolo é do blog da Waleska – outra corinthianíssima presente no evento.

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Arquivado em estádio, memória, sociedade