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Brasil x Argentina

Enquanto por aqui os estádios vão virando cada vez mais shoppings centers, na Argentina se encontram outras formas de explorar o dia do jogo que não seja atropelando os costumes, tradições e vontades do torcedor.

O texto que segue é de uma amiga brasileira que esteve na Bombonera em 2008 num Boca x River. Me faz lembrar de quando os estádios ainda eram estádios por aqui – porque se engana quem acha que é só lá que a festa acontece dessa maneira.

Longe, porém, de querer soar saudosista, a idéia de publicá-lo é exatamente mostrar que existem outros caminhos que não o que se insiste em tomar por aqui: o da exclusão social e da normatização espacial dos estádios.

Vale a pena ler.

“Buenos Aires, 5 de maio de 2008.
 
Desde muito queria conhecer a 
Bombonera, cheia. Jà havia visitado em um periodo de vacaciones no esquema gringo, roteirinho, mas ja dava pra imaginar como fica aquele lugar lotado. Outra vez, eu e a Re tentamos ir a uma partida, nem classico nem nada, mas ou era os 300 dólares na gringa ou na Popular. Ninguém quis nos levar a popular, nem vender ingresso. Nos chamaram de loucas varridas pra mais.
 
Cheguei meio-dia nas redondezas de La Cancha. Sem ingresso, sem companhia. Algumas platas e muita vontade de ir ao jogo.
Ia encontrar um amigo do amigo tal e que ia me vender o ingresso, mas dependia de telefone, ligar na hora certa tal e que obviamente nao rolou, o cara nao atendia.
 
Ali, rola desde cedo uma festa. Enquanto os vàrios onibus de turismo chegam, La Boca toda vira uma parrillada familiar de domingo ao ar livre. Pertinho da entrada, hà dois ou tres restaurantes que vendem os tais Choripan, Lomito, Patty. Compra o Ticket depois de muito se amassar na fila, o cara pega o pao gigante, bota um naco de carne GIGANTE, te entrega de mao a mao e entao pronto.
 
Esta altura, quase 13:30, ja havia desistido de comprar ingresso na rua e enquanto comia meu Patty na sarjeta à frente de La Cancha me preparando para assim que acabar de comer ir embora, apareceu “un tipo” querendo me vender platèia por 600 pesos. Disse que nao tinha tal plata. Perguntou quanto tinha, disse “Cem!”, ele disse “Vambora brasileira, te llevo a la 12”. 
 
Era absolutamente tudo que eu queria. Clássico Boca X River. A la 12! A Popular. Onde, teoricamente, nao se paga para entrar. Entra quem o porteiro, a organizacao conhece. O “tipo” me levou de namorada. Na hora de entrar acabei me dando bemzaço, porque no empurra-empurra que è para passar deste portao, crianças, namoradas, esposas tem máximo respeito e passam na frente. Subimos as escadas e, UAU: Lindo domingo de sol, popular já completamente cheia, e diziam que nao era nem a metade.
 
Antes do clássico começar, a festa vai esquentando. A guerra de milho é geral (“Aquel que no salta es un Gallina!”). Entramos uma hora antes e na Popular já se distribuía os baloes, os rolinhos de papel, os pedacinhos de papel, bandeiras, e a bateria, do ladinho, pertinho, é difudê.
 
Jogo começa. Dalí, nao hà sequer espaço para deixar os dois pés no chao. As pessoas vao se engalfinhando, se apoiando para conseguir espaço pra se manter em pé, cantar e ainda assim ver o jogo. E logo no começo do jogo, Gol!! Achei que esse negòcio ia cair, ou todos cairem pra frente, sei là. Torcida toda, senhores, crianças, festejam num emprurra-empurra na certeza que ninguèm vai cair, pq nao ha espaço para tal. Um abraço coletivo gigante-mór. A cantoria nao pára um segundo, e a bateria acompanha num coro sò, como um estadio pequeno de Bairro, um Juca, apenas com 50 mil pessoas dentro.
 
O juiz apita final do primeiro tempo. Automaticamente e simultaneamente (!) as pessoas todas sentam. Eu, no meio de uma torcida gigante fiquei em pé, com os pés presos porque tinham oito pessoas por metro quadrado sentados neles, esquema Joao-Bobo mesmo, quando um tiozao carinhosamente me oferece um pedacinho do degrau que tinha na frente dele. Logicamente nao se vende bebida alcoolica, afinal ali tudo já está ao limite das CNTP, mas se vende CocaCola, água e amendoins. O cara que está là em baixo quer comprar, a fila toda, desde lá de cima colabora, pq nao há condiçoes de ninguém se mexer. O que rola é uma intimidade de compratilhar as coisas, as conversas, as comidinhas, o espaço.
 
Começa o segundo tempo, a “inchada”, torcida, nao pára de cantar. Me impressionou a organizaçao, a quantidades de cançoes e familiaridade com elas. O jogo, afinal, tava chato que só. O River decidiu nao jogar, e restou ao Boca mais alguns chutes a gol e muita festa a La Cancha. Ah, vale citar também que o meu vocabulário chulo portenho cresceu 1000% depois desta experiencia multicultural-multicultural.
 
Acabado o jogo, a festa continua lá dentro, até porque é um passo infinito sair de là. Mas continua a festa pelas escadarias, e como a altura é grande, o por do sol contribuiu para o momento. Ao sair, na rua, a bateria está lá, e a festa continua nas parrilladas. O clima é de um Juca, com uma galerinha em volta da bateria à frente do estadio. Novamente fiquei impressionadíssima.
 
Sou fa de carteirinha da Argentina e volto a afirmar que quem nao gosta disso aqui tem é muita inveja ou nao conhece suficiente. Até onde a rixa existe, o fabuloso futebol, os caras mandam bem pra cacete. Em termos de presença no estádio, eles sao o verdadeiro Carnaval. E aí, que na minha opiniao, está inserido o contexto paixao pelo futebol, na possibilidade do jogador e dos tantos outros no campo, fazerem algo unico, uma jogada que nunca pode ser repetida, nas milhares de combinaçoes de passes e lances que tornam o feito único, e estar presente apoiando o time torna também o fato como único, e imensurável.
 
Desta experiencia nao levei nada fisico. Nem ingresso, nem foto, apenas estas recordaçoes, que ainda anestesiada compartilho com vcs. Cheguei às 22h em casa tava morrendo de vontade de compartilhar com os amigos brasileiros – desculpem os acentos, teclado gringo! –  mas nao tive forças de chamar a ninguèm.
Pai, Mae, tá tudo bem.
 
Ainda em tempo: azeite porcada.
 
Beijos,
Lau”

(por Laura Fosti)

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Arquivado em estádio, sociedade