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Passa Palavra 2

O especial sobre futebol e política do Passa Palavra chega ao segundo artigo, escrito por mim.

O tema é a Gaviões da Fiel e seus aspectos políticos.

Reproduzo abaixo.

Especial Futebol (II): A Gaviões da Fiel e o caráter político do torcedor

Segundo artigo do especial do Passa Palavra sobre futebol, é sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui. Por Kadj Oman [*]

gaviao_interna3O ano era 1969. Vivíamos sob a ditadura, mais precisamente na época da chamada “linha dura”, com Costa e Silva no poder. Um ano havia se passado desde 1968, quando revoltas, principalmente estudantis, recrudesceram tanto a oposição quanto o governo. Veio o AI-5, e a censura, a repressão e a tortura se espalhavam por todo o país.

Em meio a tudo isso, em São Paulo, o clube de futebol mais popular do Estado enfrentava a sua própria crise: há 15 anos sem títulos, o Sport Club Corinthians Paulista vivia também outra ditadura, particular. Wadih Helu, há mais de década no poder, fazia o que queria com o departamento de futebol profissional. Até que um grupo de torcedores que se encontrava nos jogos do time desde 1965, liderados por Flávio La Selva, resolve fundar uma torcida organizada, a primeira do Brasil, apoiada estruturalmente nos moldes dos clubes de bairro e ideologicamente na efervescência de idéias de luta por liberdade que inundava o país. Tinha início, em 1º de julho, a Gaviões da Fiel.

release oficial da Gaviões, encontrado no sítio na internet da torcida – www.gavioes.com.br – e escrito por Roberto Daga, sócio número 3, diz exatamente que ”(…) um grupo de corinthianos autênticos que vieram a se conhecer nas gerais dos estádios onde o Corinthians se apresentava (…) movidos pelo ideal de colaborar com a vida do clube, não só incentivando o time, mas também participando efetivamente da vida política administrativa do Sport Club Corinthians Paulista (sic)” deu início à Gaviões. Um início que já se colocava como político, onde o “(…) ideal de participação nada mais é do que o exercício do direito de influenciar, e dar aos mandatários do clube, a legitimidade ao mandato exercido, e ao mesmo tempo obrigá-los à cumprir os verdadeiros anseios na Nação Corinthiana (sic)”. Começava a história do grupo que, anos mais tarde, traçaria como seu mote “lealdade, humildade e procedimento”. É sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui.

Hoje, junho de 2009, às vésperas do quadragésimo aniversário da torcida, o que inunda as manchetes de jornais pelo país é a notícia de que uma “dissidência violenta” da Gaviões teria provocado uma emboscada a torcedores do Vasco da Gama, em dia de jogo entre este e o Corinthians pela semifinal da Copa do Brasil, que terminou na morte de um torcedor corinthiano. Já questionada e refutada por grande parte da mídia, graças ao esforço de jornalistas independentes que fizeram o serviço de apurar os fatos e colocar o lado dos torcedores na história, a versão da mídia para o acontecido abre a possibilidade de um debate sobre o lugar atual do caráter político que a Gaviões da Fiel buscava exaltar em sua criação. Para isso, antes de mais nada, cabe identificar a dita “dissidência violenta” noticiada pela grande mídia.

Desde 1975, a Gaviões da Fiel participa do Carnaval paulistano, primeiro enquanto bloco, e depois – a partir de 1989 – enquanto escola de samba. Essa participação, além de ter sido fundamental no crescimento do número de associados da torcida, hoje com o maior quadro de sócios do país, modificou as estruturas de poder e de interesse de seus membros, principalmente alguns de seus dirigentes. O Carnaval mexe com dinheiro, muito dinheiro, tanto entrando quanto saindo. O que se configurou, então, foi uma gradativa divisão, a princípio não tão nítida, depois bastante clara e opositora, entre os interesses da escola de samba e os interesses da torcida de futebol. Grupos que defendiam os dois lados passaram a se opor sobre os rumos da Gaviões, tanto politicamente quanto economicamente. E essa divisão começou a ser posta à prova há mais de dez anos. Na década de 90, um episódio de confronto dentro de campo entre torcedores de torcidas organizadas de São Paulo e Palmeiras, após um jogo de juniores das duas equipes, desencadeou uma série de ações restritivas às torcidas organizadas no estado de São Paulo. Boa parte delas foi juridicamente fechada, o que não as impediu de existir mesmo que sem suas camisas e com bandeiras sem seus nomes, mas com seus ideais. A Polícia passou a acompanhar e controlar a atividade das mesmas, principalmente dentro do estádio. E as organizadas foram forçadas a mudar a toada de suas canções e ações.

gavioes_racismoNo caso da Gaviões, no lugar dos cânticos de extermínio ao rival, entram os gritos de apoio ao Corinthians e questionamento do poder do Estado, mesmo que indiretamente: ao invés de “Morumbi ela domina, Pacaembu ela destrói / No Rio ela detona qualquer um que ela encontra / Não tenho medo de morrer / Eu dou porrada pra valer / Eu amo essa torcida e o nome dela eu vou dizer / Como é que é? / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Vou dar porrada, eu vou / E ninguém vai me segurar”, temos “Contra todo ditador que no Timão quiser mandar / A Gaviões nasceu pra poder reivindicar / Os direitos da Fiel que paga ingresso sem parar / Não temos medo de acabar/ Corinthians joga, eu vô tá lá / Nossa corrente é forte e jamais se quebrará / Pelo Corinthians / Com muito amor / Até o fim / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Corinthians joga, eu vou / E ninguém vai me segurar”.

A repressão, portanto, acaba forçando as organizadas a se repensarem para sobreviver, e isso vai para além dos cantos de estádio: na forma jurídica, refundadas enquanto escolas de samba, as torcidas encontraram um meio de não poderem ser fechadas pelo Ministério Público. O Carnaval ganha espaço e importância. A oposição interna da Gaviões, então, volta a aparecer. E cinco anos atrás, passa por um teste de fogo.

O Corinthians vivia sob nova ditadura, desta vez de Alberto Dualib, quando, no final de 2004, fechou parceria escusa com um empresário iraniano. Kia Joorabchian, ligado à máfia russa, veio ao clube com a promessa de montar um “supertime”. A Gaviões, então, vivenciou um quase-racha entre aqueles que apoiavam a parceria e aqueles que eram contrários a ela. Dois anos depois, Kia, Dualib e o Corinthians preenchiam as páginas policiais dos jornais, com o iraniano sendo procurado pela Polícia Federal e tendo a prisão preventiva decretada. O clube, sem dinheiro e sem jogadores – os grandes craques, com a turbulência, foram levados para a Europa -, acabou o ano de 2007 tendo sido rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional pela primeira vez em sua história. Nas arquibancadas, entretanto, uma vitória: reunidos momentaneamente pelo momento de crise, os torcedores criaram a vitoriosa campanha “Fora, Dualib!”, que tirou o mandatário e sua diretoria do controle do clube, provocou uma mudança estatutária para impedir a reeleição infinita e recolocou a administração sob os olhares atentos dos torcedores.

No Carnaval, entretanto, confusões jurídicas e econômicas entre a Gaviões, a Liga das Escolas de Samba de São Paulo e a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão dos desfiles, causaram finalmente a ruptura entre os opositores do Carnaval enquanto atividade principal da entidade e os defensores do mesmo. Derrotados em eleição interna da torcida, os opositores – os mesmos que no começo da década realizaram uma aproximação da Gaviões com movimentos sociais, notadamente o MST e os movimentos de sem-teto – fundaram o Movimento Rua São Jorge, composto por diversas lideranças da torcida e outros membros insatisfeitos com a condução da entidade, cujos dirigentes sofriam acusações de corrupção e de colocar interesses individuais à frente dos coletivos, incluindo aí suspeitas de envolvimento de alguns deles com algumas das muitas máfias que rondam o meio do futebol. Passando a se encontrar em frente ao Corinthians, na rua São Jorge, para ir aos jogos, os membros do Movimento se tornaram alvo fácil para as outras organizadas a partir do momento em que não constituem juridicamente uma nova torcida e, por conta disso, não contam com proteção (?) policial em dias de jogos. Por conta dessa exposição, acabaram por alugar uma sede própria, que não serve como uma desculpa para fundar uma nova torcida – afinal, todos eles têm orgulho e fazem questão de afirmar que são Gaviões da Fiel –, mas como ponto de encontro de torcedores que antes se concentravam em bares na frente do Corinthians.

Num cenário em que a sociedade deteriorou de tal maneira os espaços públicos e coletivos a ponto de que as disputas entre torcidas saíram cada vez mais do nível simbólico para alcançar o nível do confronto físico pela ocupação de um espaço que é, no cotidiano, alheio às duas, o envolvimento da Rua São Jorge em confusões violentas – as quais nem sempre provoca, mas nunca evita, conforme o código de conduta informal que rege o comportamento das torcidas organizadas – serve como prato cheio para desvirtuar aquilo que o movimento tenta construir: um fórum nacional de torcidas organizadas que busque combater a crescente onda repressora e opressora nos estádios brasileiros, que vai desde proibições e arbitrariedades quanto a bandeiras com frases políticas à exclusão e segregação dos torcedores organizados em determinados setores do estádio. Foi nesse sentido que a Rua São Jorge organizou o I Seminário da Rua São Jorge, em março deste ano, para não só explicar a ideologia do movimento mas discutir, nas palavras do release do evento, “as experiências e organização dos movimentos sociais brasileiros e a organização do movimento Rua São Jorge junto ao processo de extinção das torcidas organizadas e a elitização do futebol”.

gavioesSe, em 1979, dez anos depois de fundada e ainda sob a ditadura militar, a Gaviões da Fiel – que a essa altura já tinha conseguido depor Wadih Helu do comando do Corinthians em um episódio chamado de Revolução Corinthiana – estendia uma faixa com os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, em 2009 o Movimento Rua São Jorge busca resgatar este caráter político e contestador da torcida organizada de futebol. Em meio a isso, sofre com a violência – e revida com ela da mesma maneira esquizofrênica com que é atacado – de outros grupos torcedores, muitas vezes dominados por máfias ou influências políticas, e da mídia, da Polícia e do Ministério Público, que não os reconhecem e os marginalizam da mesma forma com que marginalizam outros movimentos sociais por aí e com que espancavam e prendiam membros da Gaviões – e de outras organizadas – que nos anos de chumbo ousavam cantar e dizer contra a ditadura. Afinal, são anos de tratamento animalesco por parte do poder público, e durante esses anos a cultura da violência cresceu de tal forma que não é possível ser terminada de uma hora pra outra, ou por meio de medidas ainda mais autoritárias como as que vemos acontecer dia após dia – chega-se ao cúmulo de propor jogos com torcida única. O problema da violência não é exclusividade do futebol e muito menos caso de polícia: sua ordem é maior, social, intrinsecamente ligada ao processo de expansão espacial do capital que se deu no Brasil aceleradamente da década de 50 em diante.

invasao_2O futebol, por seu caráter aglutinador de massas, consegue proporcionar espaços propícios a todo tipo de experiência política coletiva. A maioria delas é cooptada e orientada no sentido do capital, que vai em busca de uma “limpeza” das arquibancadas com vistas à Copa do Mundo de 2014, que aqui será realizada. Mas é engano dos mais terríveis pensar que as torcidas organizadas são apenas agrupamentos bélicos que buscam exterminar um ao outro: em recente audiência pública na Câmara dos Vereadores em que reclamavam a volta das bandeiras com mastro de bambu aos estádios paulistas, banidas há mais de década, os dirigentes das principais organizadas do estado, cansados da enrolação parlamentar, fecharam o encontro dizendo que, se não tiver conversa, deveriam se unir para chegar em 2014 fortes o suficiente para “roubar todos os turistas e botar fogo nessa merda (sic)”. A violência do capital, portanto, encontra reflexo à medida que se recrudesce, e o autoritarismo força os torcedores a repensar suas práticas, criando a possibilidade de surgimento de outras estruturas e outras idéias e ações como as que o Movimento Rua São Jorge tenta organizar.

Até 2014, o movimento dos torcedores organizados terá um grande desafio: superar a esquizofrenia do aniquilamento mútuo em nome de sua própria sobrevivência. Entretanto, para isso, precisa conseguir criar algo forte o suficiente para não só sobreviver, mas abrir espaço para se auto-afirmar enquanto movimento social nas cada vez mais excludentes arquibancadas deste país. Parte deste desafio passa por uma revisão de suas estruturas e de suas alianças. No caso da Gaviões, entre o MST e o espectro das máfias organizadas, há um abismo que pode decretar a falência ou a reorganização do ideal de “procedimento” que, desde sempre, norteou as ações da torcida.

Hoje, o Movimento Rua São Jorge representa a possibilidade transformadora desse ideal. Resta torcer e, na medida do possível, colaborar e participar para que a violência – em todas as suas formas, do preço do ingresso ao confronto físico com outras organizadas – não acabe por reduzir esse potencial ao nível das disputas sangrentas por poder.

[*] https://vailateral.wordpress.com

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Ainda sobre a morte de Clayton

Texto brilhante da Lelê, uma aula de jornalismo decente:

http://revistatpm.uol.com.br/blogs/eneaotil/2009/06/04/o-papel-de-cada-um.html

Texto do Cláudio sobre o promotor Paulo Castilho:

http://chutaquiehmacumba.blogspot.com/2009/06/promotor-golpista.html

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Quando a política e a burocracia valem mais que a vida

Ontem, 03 de junho de 2009, Corinthians e Vasco decidiram no Pacaembu uma das vagas à final da Copa do Brasil. Ontem, 03 de junho de 2009, na Marginal Tietê, mais um torcedor foi vítima da violência que permeia não só o futebol, mas toda a sociedade. Uma violência que as capas de jornal e as telas de TV não demoram em taxar de “irracional”, “gratuita” e “criminosa”, no que até chegam a ter razão em alguns momentos, mas que nunca buscam explicar e compreender na esfera que diz respeito ao que mais importa: a segurança da vida dos torcedores de futebol.

A informação oficial do promotor de justiça Paulo Castilho e do major da Polícia Cipriano Rodrigues, responsáveis pela segurança no jogo de ontem (e no caso do promotor, pelas políticas de segurança relacionados a jogos de futebol em São Paulo), segundo o jornal Lance! de hoje, é de que “15 ônibus com cerca de 800 cruzmaltinos chegaram pela Rodovia Presidente Dutra. Na altura de Guarulhos, eles foram acompanhados por 20 policiais militares de moto”.

Paremos neste ponto. Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que 20 policiais são mais do que insuficientes para fazer a escolta de 800 torcedores. Ainda mais quando, segundo o próprio promotor, sabia-se da intenção de emboscada entre as torcidas, graças à denúncia anônima que ele mesmo recebeu e por conta da qual impediu os vascaínos de deixarem seus ônibus nas sedes de TUP e Mancha Alviverde, torcidas do Palmeiras aliadas às vascaínas. A idéia dos cariocas era ir a pé ao estádio. Paulo Castilho disse à Polícia para não permitir e ordenou a escolta dos ônibus até o Pacaembu.

No caminho, voltando ao texto do Lance!, “eles acessaram a Marginal do Tietê e, quando chegaram à Ponte das Bandeiras, Zona Norte de São Paulo, cruzaram com quatro carros e um ônibus de corinthianos. De acordo com o major Cipriano Rodrigues (…), os vascaínos conseguiram se desvencilhar da escolta. Tiros e pedaços de paus foram usados no conlfito”.

Não bastasse o absurdo que é não perceber o possível cruzamento entre ônibus de torcidas rivais na Marginal Tietê, via mais do que conhecida de acesso ao estádio, faltou ao comandante contar um pouco mais sobre que ônibus e que carros de corinthianos eram esses, e explicar melhor como os integrantes das torcidas chegaram ao confronto.

Fora o já sabido número ridículo de policiais na escolta vascaína, há muitos outros problemas que levaram ao assassinato do torcedor. Comecemos pela própria escolta. Como a Polícia leva 15 ônibus de torcedores até o estádio sem fazer uma revista em seu interior? Se esta foi feita, como não foram descobertas as barras de ferro, pedaços de pau e armas de fogo utilizadas no confronto? Descaso? Despreparo? Ou a mesma falta de entendimento dos torcedores organizados enquanto um coletivo que tem representação social e jurídica perante à sociedade e o tratamento dos mesmos enquanto bandidos e animais a priori, fazendo com que a minoria violenta ganhe o apoio da maioria não-violenta exatamente por esta se sentir mais segura com a segurança pessoal dos próprios companheiros na base da arma de fogo do que com a segurança que deveria ser provida pela Polícia? Qualquer semelhança com a relação entre moradores de periferia e traficantes que “protegem” a comunidade não é mera coincidência; qualquer relação com o resultado do plebiscito sobre o porte de armas de fogo realizado anos atrás, também não.

Além disso, a Polícia credita aos torcedores corinthianos a intenção da emboscada, por ter encontrado com estes as já citadas barras de ferro e armas de fogo. Os mesmos 60 e poucos que vinham em um ônibus e quatro carros e que foram presos após o confronto pelo porte das armas e por tentativa de homicídio, juntos aos vascaínos envolvidos. Agora, dá mesmo para acreditar que 60 e poucas pessoas buscavam emboscar 800? Ou será que é mais fácil omitir informações sobre essas 60 pessoas? Como aqui a intenção é contextualizar ao invés de pintar um cenário apocalíptico e irracional como de costume, vamos a elas.

A pequena caravana corinthiana era composta por membros do Movimento Rua São Jorge. Um grupo de associados da Gaviões da Fiel que se indignou com algumas práticas às quais são contrários na quadra da torcida – como corrupção – e passou a se encontrar na Rua São Jorge para ir aos jogos. Grupo esse que conta com diversas lideranças importantes da Gaviões e que, entre outras coisas, promoveu um seminário sobre torcidas organizadas envolvendo jornalistas, políticos e torcedores buscando colocar as torcidas como o que deveriam ser, representantes do torcedor no mundo do futebol, a lutar contra o preço dos ingressos e a condição indigna a que são submetidos jogo a jogo, por exemplo. Em outras palavras, lutam para serem entendidos e respeitados como um movimento social, e não meros consumidores.

Iam ao jogo de ontem, como sempre, sem escolta, porque a Polícia Militar simplesmente não os reconhece enquanto torcida – apesar de serem sócios ativos da Gaviões da Fiel – já que não tem CNPJ. Enquanto um grupo pequeno em relação aos “bondes” já estabelecidos há tempos por todas as outras organizadas, e por concentrarem várias lideranças da Gaviões, são sempre alvo de ataques e emboscadas – muitas já denunciadas pela mídia afora. Algo que a Polícia e a Secretaria de Segurança Pública preferem ignorar burocraticamente – até que coisas como o que passou ontem aconteçam. E aconteçam, neste caso, porque a Polícia parou os corinthianos para revistá-los a uma distância de 100 metros dos vascaínos, segundo um torcedor que estava no ônibus corinthiano. Além da completa falta de comunicação e planejamento, se fez presente como sempre o descaso com o torcedor organizado, tratado como lixo, e com a vida – o que infelizmente não é de se estranhar quando estamos falando da mesma Polícia que protagonizou cenas como o massacre do Carandiru. A organizada, transformada em sujeito, atravessa a própria condição dos sujeitos pertencentes a ela, que não são mais pessoas, apenas números e nomes na lista de envolvidos e mortos.

Não se justifica encontrar entre torcedores que vão a um estádio de futebol barras de ferro e revólveres. Mas a explicação para isso não é simplesmente algum tipo de vontade sociopata de matar presente em todos eles. Cada vez mais, as políticas em relação aos estádios vão no sentido de isolá-los, excluí-los, elitizar as arquibancadas e passar a imagem do estádio enquanto um ambiente seguro e tranquilo a ser consumido – por quem pode pagar R$ 4,00 num simples churros e ir a jogos às 21h50 de uma quarta-feira. O problema, que as autoridades terão de enfrentar em algum momento, é que o jogo não se resume – nunca se resumiu – ao espaço do estádio. O futebol está presente por toda a cidade, ainda mais em dias de jogos, e tentar reduzí-lo ao estádio não é um risco, é uma opção política, uma orientação que tem o mesmo sentido daquela que permite a certos grupos espancar e matar moradores sem-teto no centro da cidade, e retirá-los de prédios ocupados usando de força desmedida, mesmo contra mulheres, crianças e idosos.

Hoje, há dezenas de pessoas hospitalizadas, algumas com ferimentos a bala. E como já se sabe amplamente, uma pessoa, ainda não identificada, foi espancada até a morte e deixada na Praça Campos de Bagatelle, palco recente da comemoração de títulos conquistados pelos clubes paulistanos. Apenas de cueca, sem documentos e com o rosto completamente desfigurado. Uma estratégia comum no mundo do tráfico de drogas – assim como o incêndio do ônibus vascaíno em represália acontecido durante o jogo, que não se compara em nada à morte do torcedor – a destruição de um patrimônio material nunca é mais importante do que a perda de uma vida. E os meios de comunicação, como sempre, noticiarão o caso em sua maioria como uma simples briga de gangue, darão voz aos que querem o banimento das torcidas organizadas, aos jogos de uma torcida só – os mesmos que não sabem, ou fingem não saber, que o São Paulo x Corinthians da primeira fase do Paulistão, aquele em que vigorou pela primeira vez a restrição de 5% às torcidas visitantes, registrou número recorde de ocorrências pela cidade desde aquele São Paulo x Palmeiras pela Copa São Paulo de Juniores em que um torcedor foi morto a pauladas dentro de campo – cena repetida milhões de vezes pelos canais de televisão até hoje.

Em 2014, o Brasil sediará uma Copa do Mundo. São Paulo, provavelmente, será o palco da abertura e, com certeza, de diversos jogos importantes. Até lá, como estarão as medidas de segurança pública em dias de jogos? E a condição dos torcedores, organizados ou não? Caminharemos para o mesmo destino do Rio de Janeiro, com seu Pan-Americano que retirou moradores de rua às pressas para a vistoria do COI e que deixou de herança elefantes brancos, construídos com dinheiro público, prestes a serem prrivatizados a preço de banana? Ou há força suficiente para nos organizarmos por uma Copa que seja realmente nossa, da qual façamos parte, sobre a qual sejamos consultados – como deveríamos ser sempre quando se trata de medidas de segurança pública?

Se a mídia, que tem o dever de informar, quase sempre não o faz com a clareza e a crítica necessária, que ao menos textos como este e ações que sigam na direção de acabar com as mortes e a exclusão social sejam difundidos de todas as formas possíveis. Se ele chegou até você, leia. Pare, reflita, critique, encaminhe. Que começemos a criar, de todas as formas ao nosso alcance, um fórum de discussão sobre estes assuntos. Dizem respeito às nossas vidas. E podem determinar, como ontem, a nossa morte um dia.

Que, a partir de hoje, nenhum episódio sequer de violência passe despercebido e sem ser denunciado no seu conteúdo total. É este o desejo de quem escreve este texto. Porque escrever é muito mais do que saber juntar palavras – ainda mais quando se ganha pra isso.

Kadj Oman
DHVCorinthians

04/06/2009

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Rumo ao cemitério

Cerca de 9.000 pessoas (8.988, pra ser mais exato) assistiram ontem à Corinthians 2 x 0 Mogi-Mirim pela 7ª rodada do Campeonato Paulista 2009.

Um número ridículo em se tratando da maior torcida do estado.

Mas que se explica quando analisadas as condições em que o jogo foi realizado.

A começar, como sempre, pelo horário: 22h de uma quarta-feira. Estávamos nós assistindo a algo impróprio para menores? Cine Privê? O futebol tornou-se tão indecoroso que necessita ser jogado nas últimas horas do dia? 

Não. 

Acontece que quem determina o horário dos jogos não é a equipe mandante, nem a Federação, quem dirá os torcedores. Aliás, o horário e o local. Refém de seus patrocinadores, o futebol acontece na hora e lugar em que a televisão mandar. O estádio estará vazio porque a imensa maioria dos torcedores de futebol trabalha na quinta pela manhã? Sem problemas, é só comprar o pay-per-view.

Que só é mais caro, aliás, que o próprio ingresso no jogo. No Pacaembu, a arquibancada atrás do gol nos jogos do Corinthians só custa R$ 20,00 porque o clube diz “ainda não ter estrutura” (leia-se que sofre pressão das organizadas) para cobrar os R$ 40,00 que gostaria. A arquibancada central custa R$ 70,00, a cadeira descoberta R$ 100,00 e a coberta, R$ 150,00. E na ânsia de lucrar, o Alvinegro atira no próprio pé: segundo a Folha, dos quatro grandes paulistas, é o único que teve a arrecadação diminuída em relação ao ano passado, quando os ingressos eram mais baratos.

O atentado violento ao torcedor não pára por aí. Em nome da diminuição da violência, os estádios vão sendo transformados arquitetonicamente em ambientes prisionais – emblemático, portanto, que o comandante do espetáculo seja um Coronel aposentado. 

Não se permitem bandeiras, camisas, fogos de artifício, restringem-se os lugares de acesso para as organizadas. Grades, lanças, vidros à prova de bala. O fim das barraquinhas de lanches e bebidas no entorno. A proibição da cerveja, objetificando-se nela a culpa por uma cidade segregadora em todos os seus espaços. Até o jornal, esta perigosíssima arma,  está proibido de entrar. Trata-se o futebol como uma doença cujos sintomas precisam ser amenizados. Ou melhor, trata-se o estádio como se fosse um teatro ou um cinema, onde os espectadores devem permanecer em sepulcral silêncio como forma de provar um comportamento “civilizado” e aceitável. 

O merecimento em estar ali passa por provar que é capaz de parecer não estar. E o espetáculo, com isso, vai perdendo um de seus principais atores.

Como disse Mano Brown em entrevista à Benjamin Back, se você tira tudo do torcedor e ainda abusa dele com preços altíssimos por um serviço péssimo (vale lembrar que dentro do estádio um mísero churro, por exemplo, daqueles que você encontra por R$ 0,50 no centro de São Paulo, e ainda por cima frio, é vendido por absurdos R$ 4,00), não pode esperar muita coisa dele, que tem ali o seu desafogo para todos os constrangimentos que sofre pela cidade durante a semana, para além de raiva e violência. Que, muitas vezes, canalizadas na mente de quem já não tem lá muito bom senso, terminam em atos deploráveis. 

O que se esconde, na verdade, por trás disso tudo é a tentativa, brasileira como sempre, de modernizar de forma conservadora uma prática social: à força, encurrala-se quem já não tem muito direito a nada, para depois culpá-lo pelas tragédias ou pela “incapacidade” de participar e, assim, cria-se um jeito de afastá-lo do bolo. Como foi com os cinemas, todos confinados em shoppings centers e longe de serem populares, e com o Carnaval, funcionalizado num sambódromo e transformado em espetáculo para gringos.

Ao se pesar tudo isso, a tristeza inicial de ver o estádio às moscas se transforma parte em raiva, indignação, parte em uma certa satisfação pelo fracasso nas bilheterias. Fôssemos mais organizados enquanto torcedores e os estádios (e pay-per-views) ficariam vazios enquanto não nos respeitassem. 

Enquanto isso não acontece, contam-se os dias para a Copa do Mundo no Brasil, aquela pela qual toda a população, mesmo os mais receosos, anseia.

População cuja imensa maioria assistirá todos os jogos pela televisão.

Porque até 2014, os estádios, então arenas multi-uso apropriadas para diversos abusos e não-usos (uma vez que usar algo implica em ter acesso irrestrito a este algo), terão completado seu caminho rumo ao cemitério.

Pelo menos para nós, torcedores que conheceram o futebol quando ele ainda era, essencialmente, muito mais um jogo do que um imenso balcão de negócios.

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