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O campeão do povo

Eram 19 minutos e o jogo ainda estava no meio-campo, com faltas e perde-ganha.

Pela esquerda, André Santos anulava D’Alessandro e ainda encontrava tempo, espaço e fôlego – ao que parece, ritmo de jogo conta, pois ao olhar para o outro lado, Kléber e Nilmar não funcionavam – para apoiar.

E foi em um cruzamento perfeito que o lateral-esquerdo da Seleção encontrou Jorge Henrique, o novo baixinho, o coadjuvante que virou herói, livre pra fazer de cabeça o grito guardado desde 2007 ecoar pelo Beira-Rio.

O Inferno colorado, que de tanto respeito ao alvinegro tinha seu capeta vestido de branco como contra o Barcelona em 2006, estarrecia.

Dez minutos depois e o mesmo André Santos, em triangulação rápida que o execelente time de Mano Menezes faz muito bem tanto pela esquerda quanto pela direita, invadiu a área e chutou forte, alto, no canto direito de Lauro. E o que nem mesmo os mais otimistas corinthianos achavam possível acontecia: 2 a 0 ainda no primeiro tempo.

Que só não terminou com placar maior porque Ronaldo desperdiçou grande chance em frente a Lauro.

O Corinthians, disse depois um blog colorado, “parecia o Flamengo de Zico tocando a bola”.

Terminado o jogo, o segundo tempo foi um exercício de paciência. “Um horror”, disse minha avó, “só teve falta e provocação”.

Como a de Cristian ao desabar em campo antes de ser substituído e fazer o que não era muito difícil de prever: D’Alessandro perder a cabeça e ser expulso – e humilhado elegantemente pelo sorriso de Willian ao tentar levá-lo consigo para os vestiários mais cedo.

Houveram, também, dois gols do Inter, na marra e na sorte, com Alecsandro, que serviram para que sua torcida – a parte que permaneceu no estádio – conseguisse ao menos um pouco de alento.

Mesmo sabendo que o jogo já tinha acabado.

Ali, em meio aos dois mil guerreiros de São Jorge que foram à Porto Alegre, vivi dois momentos distintos.

Puro êxtase no primeiro tempo, quase sem voz ao final dele.

E o velho filme-do-que-passou na mente durante o segundo.

Rebaixamento, Olímpico, Série B, Recife.

Meu pai.

E finalmente o Beira-Rio.

Inferno e Paraíso na mesma cidade, em menos de dois anos.

Contrariando as secações e as mandingas.

E até mesmo o imaginário.

Porque para o Corinthians, o Inferno foi azul, e o Paraíso vermelho.

Com um céu, como sempre, alvinegro.

E com mais uma estrela.

O título de um time do povo até a alma: onde o peão se tornou rei com a ajuda do presidente que se tornou só mais um.

jh-r9

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Sobrenatorale di Alamedanezzi

O reloj marca 42 minutos da segunda etapa em Santiago.

A hinchada local é pura festa.

Apertada num canto pequeno de mais de 8 milhões de metros quadrados, a torcida brasileira se espreme em apreensão.

Seu time tem um jogador a menos. E precisa da vitória. 

Seu camisa 10 tem a bola na intermediárea.

Ele balança em frente ao marcador, pra esquerda, pra direita, cabeça baixa. De repente, chuta.

Um chute despretensioso, sem olhar, que parece fraco.

Mas a bola, inexplicavelmente, resolve afrontar a lei da gravidade e ganha altura.

Como que se erguida por um fio invisível, num teatro dos sonhos alviverde.

Muñoz, o goleiro chileno, a segue com os olhos.

Quando percebe que ruma em direção ao seu ângulo esquerdo, é tarde.

Ele salta, mas a bola, ainda se recusando a cair, como que flutuando num último esforço heróico, toca na palma de suas mãos e encontra as redes.

Um golaço.

De Sobrenatural de Almeida, diria Nelson Rodrigues.

De Sobrenatorale di Alamedanezzi, peço licença eu.

De Cleiton Xavier, dirão os jornais brasileiros e chilenos.

Arrepiando os pêlos do braço deste corinthiano fanático que vos fala.

Porque o Palmeiras vence – heresia! – a la Corinthians.

Que me desculpem os amigos da academia.

Que me desculpem os amigos fiéis.

Mas o gol palmeirense trespassou os limites da rivalidade e me pôs contente.

Assim como o gol de Ronaldo domingo, tenho certeza, alegrou muitos dos que não vestem alvinegro.

Quando o agora relógio marca 47, o sorriso de São Marcos ao buscar a bola para bater o que será provavelmente seu último tiro de meta na noite diz mais do que qualquer manchete ou texto – incluindo este – poderá dizer hoje.

É o sorriso da superação. Do último minuto. Do inexplicável.

Que nós, alvinegros, tão bem sabemos portar.

E que os amigos alviverdes, com certeza, se orgulharão de exibir hoje pelas ruas.

Um sorriso que só o futebol, essa tragédia grega dos tempos modernos, essa narrativa da vida como ela é, é capaz de proporcionar.

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A paz dos justos

por Thomas Castilho

Após cada um dos finais de semana do mundo da bola recheados de tragédias somos obrigados a ouvir a velha ladainha de sempre. Talvez um ou outro personagem novo, deslumbrado com a possibilidade de sucesso rápido. Sem o mínimo de conhecimento de causa, pensa em fórmulas mágicas capazes de solucionar um problema crônico de nossa sociedade, manifesto todos os dias de inúmeras formas, inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias. Balbuciam números como se ali existisse alguma solução capaz de se fazer entender as complexas relações que envolvem os diferentes personagens do meio esportivo, particularmente do futebol.

Um grande número de jornalistas despeja sua ignorância e seu preconceito por todos os cantos, se alimentando das tragédias como o urubu da carniça. Partem dos dogmas levianos em que fundamentam seus raciocínios limitados para conseguir chegar apenas a conclusões vazias que guerreiam para ver quem tem o adjetivo mais criativo. Uma guerra de adjetivos e qualificações, desprovida de idéias e fundamentos. 

Isso cansa. Lamentavelmente, apenas demonstra que os problemas crônicos relacionados à violência e à falta de organização do futebol brasileiro vão bem, obrigado, assim como também indica a falta de vida inteligente buscando soluções perenes, construídas com engajamento e trabalho, sem rótulos baratos. Se não é “inteligente” quem vai aos estádios num dia de clássico, me parecem menos inteligentes aqueles que vivem para adjetivar os “não-inteligentes”, sejam eles torcedores, dirigentes ou jogadores.

Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.

 Alguns princípios básicos:


– Todo trabalho que venha a ser feito deve ser pensado no longo prazo. Isso quer dizer que mesmo depois de eliminados os episódios que resultam em mortes, ele deve continuar. Não pode ser deixado no meio do caminho como tem sido feito. Contínuo e ininterrupto, reunindo representantes do Estado, dos clubes, e da sociedade civil (torcedores, organizados e não-organizados, marqueteiros, psicólogos, estudiosos da área, jornalistas). Deve ser em nível Nacional e local, com o levantamento de problemas específicos e relevando as diversidades culturais e estruturais nas diferentes regiões do país. Todas as demandas devem ser ouvidas e atendidas dentro das possibilidades.

– o objetivo é fazer a paz para os torcedores que historicamente freqüentam os estádios de futebol, todos eles, respeitando seus valores e sua cultura. Respeitando o seu modo de torcer desenvolvido ao longo de um século. Uma paz inclusive para aqueles torcedores das finadas Gerais, épicas, do Maracanã, do Mineirão, do Beira-Rio ou do Morumbi, que é agora dos torcedores “VISA”. Paz, implica respeitar o direito dos que têm e dos que não têm, rejeitando qualquer tipo de paz financeira, que há muito é sugerida por nossa elite. O que importa se a imprensa submissa, que só consegue enxergar a Europa quando busca uma referência, acha bonitinho os bilhetinhos e as cadeirinhas numeradas se o povão que vive o drama gosta de ficar em pé, abraçado, fazendo o “póropópó geral”? Não se trata de gado, e podemos bem decidir o que é melhor para a gente, quer achem feio, quer não.

– assumimos que moramos num país regido por uma Constituição, da qual emana toda e qualquer lei, pouco importando os caprichos daqueles que são contra a existência das torcidas. Não tem relevância. A idéia já começa diferente. Se nós queremos a paz, partimos do seguinte pressuposto: vivemos num estado de direito e todos são inocentes até que se prove ao contrário. As lideranças não devem viver no gueto. Se alguém deve para a lei cabe à Justiça julgar e punir possíveis culpados. Nós não temos nenhum Daniel Dantas como associado e o presidente do Supremo não nos daria Habeas Corpus ou muito menos se oporia ao uso de algemas contra nossos associados. As torcidas não têm nenhuma razão para se omitir em um processo de paz. Se as torcidas são parte do problema, certamente são a única via para uma paz verdadeira, que não seja pautada apenas pela repressão. As lideranças de torcida devem ser reconhecidas como parte fundamental de qualquer processo que mencione a palavra paz. Não sendo julgados sem que tenham alguma pendência com a justiça, como é feito. A paz de verdade não é feita nos blogs, não é feita nos gabinetes e muito menos nas redações. A paz verdadeira é feita nas ruas. Faz paz quem tem disposição para a guerra. E o pressuposto básico é a justiça.

– o outro lado importante desse processo chama-se Polícia Militar. É preciso criar um destacamento especial para lidar somente com estádios de futebol. Pessoas especialmente treinadas para lidar com multidão em praças esportivas, aprendendo a tratar o torcedor com o devido respeito e deixando de enxergá-lo como um inimigo, evitando os atos de punição coletiva, como ocorrido no Morumbi no último clássico. Devidamente equipados e treinados, procurando estreitar ao máximo a cooperação entre as lideranças de torcida e os oficiais. Esse trabalho, que teve início há muitos anos na saudosa gestão do coronel Resende e que teve continuidade com o coronel Marinho, tem momentos de avanços e momentos de retrocessos. Deve ser aprofundado, aumentando a proximidade dos atores envolvidos e acertando a cooperação entre policiais e lideranças sempre que qualquer tipo de conflito venha a ocorrer. Como meta sempre o diálogo antes de ampliar o uso da violência. Respeito recíproco deve ser construído. Temos que mudar um olhar que infere a inimizade para um que permita nos enxergarmos como cooperadores que possuem objetivos comuns.

– outro ponto é o desenvolvimento de uma legislação específica para crimes em praças esportivas e tribunais móveis capazes de julgar e aplicar a pena no momento do evento. As leis devem endurecer nos casos de utilização de armas, de qualquer espécie, em qualquer local, e buscar a construção de penas alternativas para infrações menores, inclusive impossibilitando a presença de transgressores nos estádios nos dias de jogo do seu time. Essas leis devem ser formuladas com a participação de todos os setores da sociedade civil, e não podem ser carentes de eficácia, levando em consideração todos os problemas já existentes em nossa ordem jurídica. O Jecrim (Juizado Especial Criminal) foi uma experiência válida, e tentou algumas vezes atuar na frente dos estádios. Mas aonde anda? Toda ação – Jecrim, Comissão da Paz, Comissão do PROCON – é importante, mas se e somente se for atuante o suficiente para não cair no esquecimento e desuso. Mais do isso devem ser integradas, para que se alimentem e troquem experiências, traçando objetivos de curto e de longo prazo, se renovando e se desenvolvendo.
 
– as torcidas devem assumir um compromisso de extermínio de toda e qualquer prática de violência premeditada, criar mecanismos eficientes de punição interna, além de banir qualquer tipo de música que faça apologia à violência.

Depois dos princípios básicos serem respeitados, vamos ao caminho:

– mapeamento de todos principais conflitos e problemas do Brasil envolvendo o futebol,e principalmente os que dizem respeito às torcidas. Identificar todos os jogos que envolvem maior rivalidade e risco de episódios trágicos. O aumento da rivalidade entre as torcidas tem raízes históricas, que passam por problemas ocorridos ao longo do tempo. Um incidente ocorrido num jogo lá da década de 80 em uma caravana específica, num momento em que o policiamento ainda não estava presente, e que se iniciou com uma discussão banal entre dois torcedores alcoolizados, pode explicar a origem de um conflito irracional que se arrasta durante anos. Ao mesmo tempo, existem torcidas que demonstram ter afinidades e desenvolvem uma relação de cordialidade. Tudo isso deve ser relevado. Priorizando e prevenindo os principais conflitos podemos pôr um fim nessas diferenças, que são o que alimenta o ciclo. Eles possuem um lado pessoal e um lado impessoal. Ao mesmo tempo em que muitos dos que brigam conhecem os que brigam nas outras torcidas, mostrando um traço de pessoalidade, os conflitos têm o poder de se perpetuar no tempo, envolvendo as gerações futuras, o que o torna também impessoal. Mesmo os que nunca tiveram problemas, nunca pensaram em brigas, e que por ventura se disponham a acompanhar seu time pelo seu estado e pelo Brasil, terão que lidar com uma realidade complexa, da qual a violência já é parte.
 
– reuniões antes de todos os clássicos e jogos de risco, envolvendo as lideranças das torcidas e o comando do policiamento. Mapeamento de todos os coletivos espalhados pela cidade, identificação dos principais pontos de encontro, acerto de horários e trajetos, identificação dos pontos críticos e envio de destacamentos para locais pré-determinados entre o policiamento e as torcidas. Essas reuniões seriam espalhadas para os bairros, dando responsabilidade aos torcedores e facilitando as investigações de possíveis incidentes. A imprensa tomaria parte nesse ponto, ajudando na divulgação de trajetos e horários e dando voz às lideranças para que orientem seus associados. Ampliando a via de contato com os associados. As torcidas já se submeteram a cadastramentos humilhantes sem que nenhuma de nossas demandas fosse ouvida. Aqui nesse país se cadastra por prevenção, presumindo não a inocência, mas a culpa. Hoje, lemos a notícia que mais uma carteirinha mágica será feita para “acabar com a violência”. Seria muito fácil se carteirinhas acabassem com a violência, não? Aliás, para que temos R.G.? Só mais uma burocracia irracional para satisfazer a ânsia por respostas da sociedade. Isso já não tinha sido feito, só com os “vândalos”? Mas os sábios da bola e da política não sabem nem que a maioria dos problemas ocorre não nas redondezas dos estádios, mas nos terminais longínquos dos bairros ou no centro da cidade, e nos trajetos para o estádio. Nesses pontos ninguém mostra carteirinha. Além do mais, leis inconstitucionais costumam ter vida curta. Carecem de vigência. O Capez sabe bem disso.

– uma campanha nacional utilizando todos os meios disponíveis para divulgar mensagens inteligentes para a construção da paz, inclusive com as lideranças participando do processo, empenhando suas imagens e suas palavras num compromisso. Também jogadores, ex-jogadores, personalidades ligadas ao esporte, e todos que possam contribuir.

Pela televisão, pelo rádio, panfletos e jornais. Coisa bem feita, com gente boa. De forma que possamos assim construir um ambiente no qual as pessoas saiam de casa com seus espíritos desarmados, sem disposição para a guerra. Um pouco diferente do que foi feito no último jogo entre Corinthians e São Paulo.

Essa é a paz dos justos. Não é a paz dos que assistem aos jogos das cabines de transmissão, ou do conforto da sua sala, mas a paz dos que vivem a realidade não muito atraente dos estádios de futebol. Dos que convivem com a violência policial, dos que pagam preços abusivos pelos ingressos, dos que esperam pacientemente o horário-do-final-da-novela para o início do jogo, que andam quilômetros até o centrão para pegar o último busão para casa, que enfrentam os banheiros porcos e vêem seus clubes administrados por dirigentes corruptos. A paz dos que vêem seus ídolos trocar de time como trocam de camisa e que observam seus clubes se tornarem palco para atuação de meia dúzia de dirigentes e empresários interessados nos lucros do comércio dos menores boleiros. E que ainda assim pagam 30, 40, 50 ou 70 reais para assistir um jogo de futebol, na chuva ou no sol, na quarta e no domingo. Dos que sofrem a discriminação da imprensa e ainda assim pegam a estrada e rumam para os quatro cantos desse país acompanhando seu time. Dos que têm se acostumado com os escândalos envolvendo árbitros, sem deixar de se submeter às mais constrangedoras situações para extravasar seu grito de gol.

 Num mundo regido pela matéria, pelo dinheiro, o não-inteligente não é aquele que não mede esforços para expressar o amor, mas aquele suficientemente racional e burocrático para se dizer inteligente porque tem medo de ir viver o amor. Amor e inteligência só combinam quando a inteligência está no ato de amar, já que depois que amamos, não parece ser inteligente o que nos dispomos a fazer. Todos nós. 


O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.

(Thomas Castilho é ex-conselheiro e ex-diretor dos Gaviões da Fiel)

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Seminário da Rua São Jorge

Retirado do blog do Franz:

Seminário da RSJ

I – Seminário do Movimento Rua São Jorge – R.S.J.
SÃO PAULO – 13 E 14/03 – SINDICATO DOS BANCÁRIOS – RUA SÃO BENTO, 413
Sexta-feira – 13/03/09

19h – Abertura

Associados dos Gaviões da Fiel Torcida, lideranças de diversas torcidas organizada do Corinthians, torcedores não organizados, convidados e autoridades.

19h30min – História dos Gaviões da Fiel e a Verdadeira Ideologia
° Roberto Daga (Fundador dos Gaviões da Fiel)
º Wanda la Selva (irmã de Flávio la Selva, fundador e sócio n°1dos Gaviões da Fiel).
º Julio Cezar de Toledo (Fundador dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: Luiz Eduardo Dudu (ex- diretor dos Gaviões da Fiel)
Tempo da Mesa: 20 Minutos por expositor

21h30 – Término- Nós somos os Gaviões

Sábado dia 14/03

9h – Conjuntura Atual dos Gaviões da Fiel
Mesa: Pulguinha (ex – vice-presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Orlando (ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Dinho ( ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: Wagner BO (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

11h – O porquê do Movimento Rua São Jorge e seus objetivos
Mesa: Zinho (ex-vice-presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Viola (ex-diretor e conselheiros dos Gaviões da Fiel)
Metalheiro (ex- presidente e conselheiro dos Gaviões da Fiel)
Coordenador: J B (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

13h00 às 14h00 – Almoço

14h30m – As experiências e organização dos movimentos sociais brasileiros e a organização do movimento Rua São Jorge junto ao processo de extinção das torcidas organizadas e a elitização do futebol.
Mesa: Letícia Barqueta (Coordenadora nacional do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra – MST)
Luis Cláudio Marcolino (Presidente do sindicato dos Bancários de São Paulo – CUT)
Alex Minduín (ex-diretor e conselheiro dos Gaviões da Fiel
Coordenador: Mario B V (Rua São Jorge Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor
Tempo do plenário: 30 minutos (10 intervenções de 3 minutos por pessoa)

16h00- Corinthians a razão de nossa existência
Mesa: Andrés Sanches (Presidente do Corinthians)
Wladimir (ex-jogador e eterno ídolo do Corithians)
à confirmar Juca Kfouri (Sociólogo e jornalista)
à confirmar Sócrates (ex – jogador e eterno ídolo do Corinthians)
Coordenadora Mariana Cordovani (sócia dos Gaviões da Fiel)
Tempo da mesa: 20 minutos por expositor

16h50m – Encerramento com hino do Corinthians.

A ENTRADA SERÁ 1 QUILO DE ALIMENTO NÃO PERECÍVEL.

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Ronaldo do povo

Ronaldo entrou aos 18 do segundo tempo do dérbi.

Poderiam ter sido do primeiro, fosse Mano Menezes menos covarde.

Driblou, chutou, cruzou e, enfim, marcou.

Porque quem sabe jogar bola não esquece, mesmo com quilos a mais – sejam eles gordura ou músculo.

Principalmente quando quer, algo que ele demonstrou desde que escolheu o Corinthians como projeto, quando poderia ter ido apenas curtir a vida e ganhar dinheiro em qualquer clube mediano da Europa.

Preferiu estar em casa.

O gol aos 47′ foi das maiores unanimidades já vistas pelas ruas da cidade em termos de comemoração fora de uma Copa do Mundo.

Um amigo santista disse que nunca tinha se emocionado antes com um gol que não tivesse sido do Santos ou do Brasil.

Outro são-paulino afirmou que se arrepiou todinho.

E até mesmo um palmeirense concordou que por mais que doa na alma tomar um gol do maior rival nos acréscismos do segundo tempo, foi bonito.

Pelas ruas da Vila dos Remédios, onde assisti ao jogo, as pessoas saíam às ruas após o apito final, gritando, cantando, enlouquecidas. Mesmo algumas não-corinthianas.

No centro, onde moro, minha mulher disse nunca ter visto tamanha gritaria, ainda mais com um gol do Corinthians.

Até minha avó, que, aos 88 anos, criticou desde o começo as “mordomias de Rei-naldo”, me ligou, emocionada, dizendo não ter visto algo tão lindo desde a Copa de 94.

O que se explica pela figura do camisa 9.

Mais que um jogador, mais que um ídolo, uma personagem que representa o povo.

Que começou cedo, despontou como craque, ganhou o mundo, teve o corpo prejudicado pelo trabalho (ou melhor, pela idéia de trabalho de alguns preparadores físicos que transformam jogadores em monstros musculares, mesmo quando a estrutura óssea não é capaz de segurar), voltou duas vezes a jogar contra tudo e todos e que, agora, volta ao país para, aos 32 anos, em um fim precoce de carreira, como a de Garrincha, Zico e tantos outros, mostrar que é um guerreiro, um batalhador, como outros tantos milhões país afora.

Como não esperar que o motoboy pai de família aos 20, desempregado, sem dinheiro, que luta dia após dia por sobrevivência não se identifique com sua história?

Ou a dona-de-casa laboriosa, que se sacrifica pra criar os filhos, dar a eles uma vida digna num país que se esforça em ser cada vez mais indigno para com quem trabalha, não vibre de alegria com o gol do filho que também é seu?

Não à toa, o Fenômeno, sempre frio e comedido nos gols e comemorações, extravasou no alambrado.

Porque o momento do gol  não poderia ser outro. 

Na bacia das almas, com a torcida adversária (ou pelo menos parte dela) gritando “silêncio na favela”.

A bola, ao estufar as redes, significou mais que o empate. Significou que quanto mais perto do fim se pensa estar, quando se fala de Ronaldo e de povo, sempre há espaço para um recomeço.

A favela não se cala nunca.

E ele ficou louco, mais um no bando.

Bando que derrubou o alambrado, saiu às janelas e às ruas, comemorou a vitória de quem enfrenta toda série de obstáculos rotineiramente no dia-a-dia.

Porque está em Ronaldo, e Ronaldo está nele.

Retrato falado, cuspido e escarrado do Brasil.

***

Ouça aqui e veja aqui o gol do povo.

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Dona Zica

O Rio de Janeiro conheceu o maior gênio da música brasileira.

Angenor de Oliveira, ou Cartola, escreveu e musicou as mais belas poesias já ouvidas neste país.

Nasceu pobre, cresceu pobre, viveu quase anônimo e morreu pobre.

Nesse meio tempo, casou com Dona Zica, com quem fundou o bar “Zicartola”, que foi à bancarrota porque toda a boemia sambista carioca bebia lá de graça e os donos não conseguiam cobrá-los – eram amigos.

Mas esse começo é só um gancho, um trocadilho, uma espécie de piada pronta pro que vem a seguir.

Acontece que meu coração ficou frio que ontem fui passear com a cachorra e, na volta, já quase na rua de casa, escutei gritos de torcida.

Eram 18h30, então pensei que estavam os palmeirenses rumando pela Av. São João sentido Palestra Itália.

Só que os gritos eram estranhos, pareciam em espanhol, e mesmo com a mania (mais brasileira do que tudo) de descaracterizar e descontextualizar as hinchadas argentinas que acontece a todo vapor por aqui, a sonoridade era mais pra castelhano do que pra portunhol.

Eis que, então, na esquina de casa, hospedados no albergue que ali fica, estão nada mais, nada menos do que os pouco mais de 30 torcedores do Colo-Colo que tinham vindo para o jogo.

Poucos, porém loucos, como gostam de dizer.

Me aproximei com a intenção de lhes dar o aviso de que ali era passagem de palmeirenses, mas logo depois de fazê-lo pensei “eles devem estar acostumados a ir em jogos fora de casa, quem sou eu pra falar alguma coisa”, e achei melhor trocar idéias com los hermanos.

Disse a eles que era corinthiano, que queria ver um jogo do Colo-Colo quando fosse ao Chile, quem sabe a volta contra o Palmeiras, já que estarei pela Argentina entre 14 e 26 de março, e então me questionaram:

– Pero vas a hinchar por Colo-Colo?

E eu:

– CLAAAAAAARO!

E a partir de então me tornei um hermano dos chilenos.

Antes de seguir meu rumo, desejei -lhes boa sorte e “que gañen hoy”, mesmo não acreditando muito que isso fosse acontecer, uma vez que o time do Palmeiras está(va?) jogando muita bola.

Horas mais tarde, porém, assistindo ao jogo no bar enquanto comemorava os 88 anos de minha corinthianíssima vó, percebi que, sem querer querendo, me parece que incorporei Dona Zica.

E Sebastian “Chamagol” González resolveu deixar nas memórias dos hinchas chilenos a imagem de “un brasileño flaquito, con una perrita muy rica, que encontramos por las calles de San Pablo y que nos dió mucha suerte”…

Amigos palmeirenses, juro que eu não queria.

Juro.

Por Wanderley Luxemburgo.

E relaxem porque domingo não tem Chamagol, viu, Diego Souza?

Em compensação…

Me aguardem...

Me aguardem...

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Brasil x Argentina

Enquanto por aqui os estádios vão virando cada vez mais shoppings centers, na Argentina se encontram outras formas de explorar o dia do jogo que não seja atropelando os costumes, tradições e vontades do torcedor.

O texto que segue é de uma amiga brasileira que esteve na Bombonera em 2008 num Boca x River. Me faz lembrar de quando os estádios ainda eram estádios por aqui – porque se engana quem acha que é só lá que a festa acontece dessa maneira.

Longe, porém, de querer soar saudosista, a idéia de publicá-lo é exatamente mostrar que existem outros caminhos que não o que se insiste em tomar por aqui: o da exclusão social e da normatização espacial dos estádios.

Vale a pena ler.

“Buenos Aires, 5 de maio de 2008.
 
Desde muito queria conhecer a 
Bombonera, cheia. Jà havia visitado em um periodo de vacaciones no esquema gringo, roteirinho, mas ja dava pra imaginar como fica aquele lugar lotado. Outra vez, eu e a Re tentamos ir a uma partida, nem classico nem nada, mas ou era os 300 dólares na gringa ou na Popular. Ninguém quis nos levar a popular, nem vender ingresso. Nos chamaram de loucas varridas pra mais.
 
Cheguei meio-dia nas redondezas de La Cancha. Sem ingresso, sem companhia. Algumas platas e muita vontade de ir ao jogo.
Ia encontrar um amigo do amigo tal e que ia me vender o ingresso, mas dependia de telefone, ligar na hora certa tal e que obviamente nao rolou, o cara nao atendia.
 
Ali, rola desde cedo uma festa. Enquanto os vàrios onibus de turismo chegam, La Boca toda vira uma parrillada familiar de domingo ao ar livre. Pertinho da entrada, hà dois ou tres restaurantes que vendem os tais Choripan, Lomito, Patty. Compra o Ticket depois de muito se amassar na fila, o cara pega o pao gigante, bota um naco de carne GIGANTE, te entrega de mao a mao e entao pronto.
 
Esta altura, quase 13:30, ja havia desistido de comprar ingresso na rua e enquanto comia meu Patty na sarjeta à frente de La Cancha me preparando para assim que acabar de comer ir embora, apareceu “un tipo” querendo me vender platèia por 600 pesos. Disse que nao tinha tal plata. Perguntou quanto tinha, disse “Cem!”, ele disse “Vambora brasileira, te llevo a la 12”. 
 
Era absolutamente tudo que eu queria. Clássico Boca X River. A la 12! A Popular. Onde, teoricamente, nao se paga para entrar. Entra quem o porteiro, a organizacao conhece. O “tipo” me levou de namorada. Na hora de entrar acabei me dando bemzaço, porque no empurra-empurra que è para passar deste portao, crianças, namoradas, esposas tem máximo respeito e passam na frente. Subimos as escadas e, UAU: Lindo domingo de sol, popular já completamente cheia, e diziam que nao era nem a metade.
 
Antes do clássico começar, a festa vai esquentando. A guerra de milho é geral (“Aquel que no salta es un Gallina!”). Entramos uma hora antes e na Popular já se distribuía os baloes, os rolinhos de papel, os pedacinhos de papel, bandeiras, e a bateria, do ladinho, pertinho, é difudê.
 
Jogo começa. Dalí, nao hà sequer espaço para deixar os dois pés no chao. As pessoas vao se engalfinhando, se apoiando para conseguir espaço pra se manter em pé, cantar e ainda assim ver o jogo. E logo no começo do jogo, Gol!! Achei que esse negòcio ia cair, ou todos cairem pra frente, sei là. Torcida toda, senhores, crianças, festejam num emprurra-empurra na certeza que ninguèm vai cair, pq nao ha espaço para tal. Um abraço coletivo gigante-mór. A cantoria nao pára um segundo, e a bateria acompanha num coro sò, como um estadio pequeno de Bairro, um Juca, apenas com 50 mil pessoas dentro.
 
O juiz apita final do primeiro tempo. Automaticamente e simultaneamente (!) as pessoas todas sentam. Eu, no meio de uma torcida gigante fiquei em pé, com os pés presos porque tinham oito pessoas por metro quadrado sentados neles, esquema Joao-Bobo mesmo, quando um tiozao carinhosamente me oferece um pedacinho do degrau que tinha na frente dele. Logicamente nao se vende bebida alcoolica, afinal ali tudo já está ao limite das CNTP, mas se vende CocaCola, água e amendoins. O cara que está là em baixo quer comprar, a fila toda, desde lá de cima colabora, pq nao há condiçoes de ninguém se mexer. O que rola é uma intimidade de compratilhar as coisas, as conversas, as comidinhas, o espaço.
 
Começa o segundo tempo, a “inchada”, torcida, nao pára de cantar. Me impressionou a organizaçao, a quantidades de cançoes e familiaridade com elas. O jogo, afinal, tava chato que só. O River decidiu nao jogar, e restou ao Boca mais alguns chutes a gol e muita festa a La Cancha. Ah, vale citar também que o meu vocabulário chulo portenho cresceu 1000% depois desta experiencia multicultural-multicultural.
 
Acabado o jogo, a festa continua lá dentro, até porque é um passo infinito sair de là. Mas continua a festa pelas escadarias, e como a altura é grande, o por do sol contribuiu para o momento. Ao sair, na rua, a bateria está lá, e a festa continua nas parrilladas. O clima é de um Juca, com uma galerinha em volta da bateria à frente do estadio. Novamente fiquei impressionadíssima.
 
Sou fa de carteirinha da Argentina e volto a afirmar que quem nao gosta disso aqui tem é muita inveja ou nao conhece suficiente. Até onde a rixa existe, o fabuloso futebol, os caras mandam bem pra cacete. Em termos de presença no estádio, eles sao o verdadeiro Carnaval. E aí, que na minha opiniao, está inserido o contexto paixao pelo futebol, na possibilidade do jogador e dos tantos outros no campo, fazerem algo unico, uma jogada que nunca pode ser repetida, nas milhares de combinaçoes de passes e lances que tornam o feito único, e estar presente apoiando o time torna também o fato como único, e imensurável.
 
Desta experiencia nao levei nada fisico. Nem ingresso, nem foto, apenas estas recordaçoes, que ainda anestesiada compartilho com vcs. Cheguei às 22h em casa tava morrendo de vontade de compartilhar com os amigos brasileiros – desculpem os acentos, teclado gringo! –  mas nao tive forças de chamar a ninguèm.
Pai, Mae, tá tudo bem.
 
Ainda em tempo: azeite porcada.
 
Beijos,
Lau”

(por Laura Fosti)

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