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Ignorância é força

Desde o fim da II Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim, o mundo viveu sob o constante medo da Guerra Fria: duas potências, cada qual a seu lado, impondo à força sua visão de mundo. O futebol não ficou alheio a isso: tratado como amador nos países do bloco socialista, rendeu medalhas de ouro a estes em todos os Jogos Olímpicos de 1952 a 1980, já que entravam na disputa com suas seleções principais enquanto o resto do mundo enviava apenas, como mandava a regra, amadores. A história das Copas do Mundo também tem seus capítulos: da Copa da Suíça em 1954, em que Brasil x Hungria fizeram o duelo capitalismo x comunismo com vitória húngara, “xingamentos” de comunista da delegação brasileira ao juiz inglês e batalha campal após cusparada de um jogador magiar em um atleta canarinho, à Copa de 1974, quando a URSS se recusou a jogar uma repescagem contra o Chile de Pinochet e ficou de fora da disputa, passando por 1966 e o gol do inglês Hurst na final contra a Alemanha em que a bola não ultrapassa a linha e o bandeira do Azerbaijão – ex-república soviética – valida o lance e por 1970 e o gol do Uruguai contra a URSS em que um jogador sul-americano cruza uma bola que havia saído mais de metro, a zaga soviética pára e o time uruguaio marca com a conivência de juiz e bandeira – entre outros episódios.

Com o fim da Cortina de Ferro e da Guerra Fria, o mundo ficou definitivamente sob a égide do capital. O futebol não seguiu caminho diferente. A disputa simbólica capitalismo x comunismo acabou relegada ao folclore no esporte, agora regido pelas duras regras de sua entidade máxima, a toda poderosa Fifa. Até que a Coreia do Norte, “resquício” do mundo bipolar e sob uma ditadura política que impõe feroz censura à imprensa – categoria cada vez mais protagonista de um mundo cada vez mais midiático -, resolve voltar à cena e se classifica para a Copa de 2010.

Vivemos o século XXI e o senso comum diz ser inadmissível um governo privar seus cidadãos da “verdade”, representada pela enxurrada de informações capitaneada principalmente pela internet. Críticas são feitas ao bloqueio à rede mundial de computadores no Irã e na China. Pede-se a cabeça de Hugo Chávez quando este fecha o canal de televisão mais poderoso da Venezuela. E, como era de se esperar, brada-se contra o governo norte-coreano ao se ter a notícia de que os jogos de sua seleção não seriam televisionados ao vivo, apenas reprisados caso o país tenha feito um bom jogo. “Inimigos da democracia”, “assassinos da liberdade” e muitos outros epítetos de mesma estirpe ecoam pelos quatro cantos do planeta. O mundo do futebol, que não guarda com muito carinho as alianças entre ditadores e esporte (Mussolini em 34, Vargas em 50, Videla em 78, pra ficar só  nos exemplos mais explícitos), tem na Coreia do Norte um revival da Guerra Fria. Numa época em que o ideário do consumo venceu, ser impedido de consumir a Copa é impensável para a democracia ocidental.

A Coreia do Norte, então, passa a ser o bode expiatório, o idiota útil da vez. Aquele que faz esquecer que Honduras, que também está na Copa, vive sob um golpe militar recém-aplicado, por exemplo. E os jogos da seleção asiática adquirem um estranho interesse.

No primeiro, derrota para o Brasil por 2 a 1. Derrota digna, uma vez que enfrentam a maior campeã do torneio de todos os tempos. Mas que não faz com que o mundo virtual deixe de brincar com os melhores momentos que supostamente seriam exibidos na parte norte da península coreana:

http://video.portalcab.com/?play=brasil_vs_coreia_do_norte_editado

Na segunda partida, 7 a 0 para Portugal, e “rumores”, ecoados por reconhecidos comentaristas políticos (de direita, claro) de que os jogadores seriam enviados para minas de carvão ao voltar para casa. Sem falar no alarde de possíveis deserções com consequências graves para as famílias dos desertores.

A terceira partida acaba ficando sem muita atenção, uma vez que a equipe já não tem mais chances de avançar, e o assunto Coreia do Norte é encerrado nas redações de jornais na África do Sul.

A Copa, porém, continua, e se encontra nas oitavas de final. Jogam Alemanha e Inglaterra. Os germânicos vencem por 2 a 1 quando Lampard chuta por cobertura. A bola acerta o travessão e ultrapassa – e muito – a linha do gol. Mas a arbitragem não vê e o jogo segue. O episódio Hurst-66 volta a ser lembrado.

Mais tarde, a Argentina enfrenta o México, e Carlos Tevez abre o placar para os sul-americanos em completo impedimento. A arbitragem outra vez não vê, mas o telão do estádio, que supostamente só deveria passar os lances livres de polêmica, exibe o gol para todos, incluindo o bandeira e os mexicanos. O árbitro consulta o bandeira mas, com medo de ser punido por anular um gol graças ao auxílio do telão, confirma o tento, para desespero da seleção – e da mídia – mexicana.

Nas redações, o poder do fetiche da informação é tão grande que se clama aos quatro ventos por duas coisas: ou se usa o auxílio tecnológico de uma vez, coisa que – nesse momento conveniente – a “reacionária” Fifa não permite, ou NÃO SE EXIBE lance algum no telão.

Pior acontece no site da entidade máxima do futebol. Os relatos dos dois jogos simplesmente omitem os fatos. No primeiro jogo, a bola inglesa apenas tocou o travessão. No segundo, Tevez abriu o marcador e foi tudo normal.

Isso mesmo: a censura, uma vez que não norte-coreana, é permitida e DESEJADA. Porque – diz-se ingenuamente – não é política. É para o bem do espetáculo – no caso do telão – e dos negócios – no caso do site. O todo poderoso mundo do capital futebolístico se vê encurralado. A Fifa ou admite que o jogo é humano e há erros ou admite o uso de tecnologia e tira o lado humano do jogo, torna-o mais lento – já que a cada consulta ao VT o jogo precisa parar, como no futebol americano – e menos interessante para seus principais compradores, os veículos midiáticos.

Não há, entretanto, menção alguma nas redações mundo afora à contradição explicitamente escancarada. O futebol está exposto: jogo ou negócio? Se for jogo, não faz sentido tanta atenção e tando dinheiro para “corrigir os erros humanos”. Se for negócio, há que se pensar uma solução para fazer passar a polêmica como parte do jogo, quando ela é na verdade necessária para atrair mais consumidores – todo mundo, mesmo quem não entende das regras, quer ver o absurdo gol inglês que não foi dado. Mais: o capital está exposto enquanto projeto político-ideológico que precisa da mentira da propaganda para sobreviver. O comercial de hambúrguer não pode dizer que comendo-o você correrá riscos de saúde. A Copa da Fifa, cujo slogan é o fair play, não pode deixar claro que você está pagando para ver um “espetáculo” que pode ser fraudado – voluntária ou involuntariamente – exatamente porque é humano. Um espetáculo que por vezes é injusto. Admitir que futebol não é pra ser justo é tirar toda a vestimenta de jogo democrático e igual para todos que serve para mascarar o enorme abismo entre times e jogadores trilionários que usufruem dos privilégios do jogo-espetáculo-negócio às custas de times e jogadores pobres utilizados como laboratório para novos “craques” – novos negócios.

“Ignorância é força”, dizia George Orwell em seu 1984. Os norte-coreanos seguem a citação à risca. O capital também. Ou há alguma diferença entre omitir fatos num país sob uma ditadura política e omitir fatos num mundo sob uma ditadura econômica?

O replay está para a Fifa como a cruz está para o vampiro. E ambos sugam nosso sangue – embora o segundo apenas no sentido figurado.

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