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Derby

E na semana do Derby, posts não faltarão.

A começar por este.

Que tem duas partes: a primeira é de denúncia do péssimo serviço prestado pela BWA, comprovado por Leandro Iamin em seu blog.

É inadmissível que uma empresa coloque apenas UM guichê pra atender aos torcedores que desejam comprar ingressos.

O desrespeito foi tanto que muita gente desistiu.

Quando não é o preço dos ingressos que é exorbitante, é o serviço de venda que é um lixo.

E os clubes compactuam com isso.

A torcida precisa cobrar por mudanças nesse sentido.

Sem falar no fato do jogo ser em Presidente Prudente, que será abordado em outro post.

A segunda parte do blog é reservada a um caso curioso: o dia em que palmeirenses torceram para o Corinthians e corinthianos para o Palmeiras, em pleno clássico.

Do excelente blog do AA Anhangüera:

Corinthians X Palmeiras

Há um jogo entre Palmeiras e Corinthians que não consta nos dados oficiais e nem teve a repercussão merecida; um dos grandes jogos da história do clássico. Poderia até ter saído uma nota no finado diário A Gazeta Esportiva, quando o futebol amador ainda era vitrine para clubes grandes e craques despontavam nas peladas. Isso mesmo; foi um jogo de várzea. E como nessas águas eu remo com um remo só – modéstia às favas -, vou relatar aqui este que foi um jogaço. Muito embora esquisito, foi um jogaço.

Em meados dos anos 50, num domingo de manhã num campo na Mooca, jogaram Corinthians do Bom Retiro e Palmeiras da Penha. Não só nos nomes esses times homenageavam os dois maiores da cidade. As cores, o uniforme, o símbolo, enfim, tudo remetia aos grandes. Abundavam pela cidade times assim. Se Portuguesa havia mais de 20, imaginem Palmeiras e Corinthians!

No jogo em questão havia, entretanto, um porém. O Bom Retiro de baixo (da Rua Sólon até a Marginal), onde ficava a sede do Corintinha, na época, era predominado por italianos que, obviamente, eram palmeirenses – até hoje os velhos se denominam palestrinos. A Penha também era um bairro essencialmente italiano, mas a partir da década de 40 a grande maioria dos migrantes nordestinos se alocou ali – da região do Brás pra dentro da Zona Leste -, além dos negros que estavam sendo afastados da região central. Com o preconceito sofrido pelos carcamanos, os “baianos”, em sua maioria, preferiram o Corinthians.

O fato de um corinthiano torcer pelo Palmeiras da Penha, o time do seu bairro, possivelmente até de sua rua, não justificava vergar a camisa alviverde; exceção restrita aos jogadores. No caso dos palmeirenses do Bom Retiro, idem. Vestir alvinegro, jamais! A várzea vivia então seus tempos áureos, os bairros eram representados pelos seus times e as torcidas eram fanáticas. Quando o jogo era entre times de bairros distintos todo mundo ia torcer. Neste dia, por exemplo, muita gente que era Anhangüera, Nacional, Junqueira, Marconi, Bola Preta, XV de Novembro, Grajaú, etc., foi torcer pelo Corintinha; afinal de contas, além de seus amigos estarem em campo, não se costumava perder grandes jogos, como tal.

O que se viu foi uma desordem generalizada e sem precedentes. No dia do prélio, mais de 1.000 expectadores, dizem os relatos, lotaram o campo da Mooca. A turma do Bom Retiro foi em peso torcer para o Corintinha e o pessoal da Penha para o Palmeirinha. Tudo normal, não fosse pelo jogo que aconteceria a tarde no Pacaembu pelo Campeonato Paulista: Corinthians e Palmeiras. Muita gente sairia da Mooca direto pra o estádio municipal. Foi isso que causou a confusão; na torcida do Corintinha predominavam torcedores com camisa do Palmeiras e na torcida do Palmeirinha as camisas do Timão eram maioria.

O Corintinha fazia um gol, os palmeirenses comemoravam; e vice-versa. Os jogadores, totalmente atordoados, não sabiam com que torcida comemorar. Um jogador do Palmeirinha foi pro alambrado comemorar com a torcida “palmeirense” e levou uma cusparada na cara. A cena pitoresca justificou o ditado de que a banana estava comendo o macaco. Na mesa de jogo de sueca, os velhos sempre quietos, ranzinzas, riam achando tudo aquilo engraçado. A mulher do português que arrendava o bar do clube desistiu de vez de entender alguma coisa sobre o futebol. Um bêbado tentou invadir o campo e “destrocar” as camisas dos jogadores; pregava, austero, que “ainda não acabou o jogo. Por que já trocaram as camisas?”.

Após mais de 50 anos não existem mais registros do prélio, somente depoimentos das testemunhas. A única certeza é que o jogo terminou 3 a 2. O problema é que não se sabe mais pra quem, uns dizem que foi o Palmeirinha, outros dizem o contrário. É certo que a confusão das camisas nas torcidas confundiu as memórias no Tempo. Pra mim, meus caros, o resultado da partida foi o único da história a contrariar a impossibilidade; o que se deu foi uma retumbante vitória de Corinthians e Palmeiras.

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Casa do Torcedor

Hoje, três dias e muitos textos lidos e repassados após o clássico, colhi mais um fruto do diálogo acerca do mesmo: descobri o Casa do Torcedor, um blog cujo nome diz tudo.

Lá, encerrando a série de relatos sobre o jogo, pode-se ler o texto de Bruno Camarão, que traz mais algumas coisas para o debate, detalhes que às vezes parecem pequenos mas que fazem diferença.

O blog tem bastante informação e muitos relatos, vale a pena dar uma olhada.

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Do Majestoso vira-latas

Normalmente, quem escreve defendendo uma posição ou uma tese tem um certo prazer em poder dizer, ao ver ela confirmada, a célebre frase “eu falei”.

Hoje, nada me agradaria mais do que não poder fazê-lo.

Eu teria um enorme orgulho se pudesse estar aqui dizendo: “eu errei, tivemos uma festa linda no Morumbi, todos saíram contentes”.

Mas infelizmente, como o previsto para uma desgraça anunciada, se em campo, num jogo ruim, ninguém ganhou, fora dele, todos perderam.

Antes de mais nada perdeu a Federação que, num campeonato de turno único onde detém o mando de todos os clássicos, deixou toda a confusão acontecer sem mexer uma palha como forma de atacar o São Paulo e, no final, viu seu campeonato ter num jogo que poderia ser memorável um exemplo de contra-propaganda.

Perdeu o São Paulo, que nos próximos três anos, caso Andrés Sanchez seja um homem de palavra, não terá mais um de seus maiores clientes alugando o Morumbi.

Perdeu o torcedor são-paulino que, além de ver sua diretoria desprestigiar o Majestoso colocando-o como “brinde” para os jogos em casa da primeira fase da Libertadores, viu também seu técnico escalando um time misto, como forma de reforço do desdém com que o clube trata o campeonato da Federação com a qual está brigado.

Perdeu mais ainda o torcedor que não entrou na promoção, pois pagou caro pra ver um clássico desvalorizado com cerca de 34.000 torcedores (no Paulista do ano passado, foram cerca de 41.000), ou seja, sem casa cheia (como apostei) nem jogo bonito, já que se de um lado estava o já citado e desentrosado misto tricolor, de outro se encontrava o extremamente nervoso e mal-posicionado 3-6-1 alvinegro, ambos abusando dos passes errados.

E perdeu, principalmente, o torcedor corinthiano, que, graças ao confinamento dos 10%, viu mais uma vez a Polícia Militar protagonizar um show de despreparo que culminou em pernas quebradas, pisoteamento e mais de 30 feridos.

Emblemática quanto a isso a fala de um torcedor entrevistado pela ESPN Brasil, dizendo que em 25 anos de estádio, nunca tinha vido nada igual. “É que vocês da mídia acabam de cobrir o jogo quando o juiz apita, não vêem o que é a PM na saída dos estádios”, completou.

Logo depois, aliás, aparece o responsável pelo policiamento do clássico, comandande Hervando Velozo, com uma versão que simplesmente não convence, o que não surpreende quando se trata da Polícia Militar. 

Diz ele que a confusão começou porque a torcida do Corinthians partiu pra cima da patrulha da PM, composta por “apenas 5 policiais e 1 tenente”, e esta revidou. Eram, segundo o comandante, cerca de 500 torcedores. 

Primeiro de tudo, suspeita a conta de apenas 5 policiais para fazer a evacuação da torcida. 

Depois, estranho que 500 torcedores tenham fugido de 5 policiais, mesmo estando estes atirando “apenas 3 bombas de efeito moral” – prática, aliás, que não poderia resultar em outra coisa, estando os torcedores confinados em um setor com uma única saída.

Pra piorar, se contradizendo, no fim do discurso o comandante diz que a torcida corinthiana se assustou com uma bomba que estourou perto do portão 15, causando o corre-corre e o pisoteamento, mas sem no entanto explicar por quem ou porquê foi atirada. 

A maioria dos torcedores do Corinthians, entretanto, acusaram a Polícia pela confusão. Disseram estar tentando sair da chuva quando de repente vieram as bombas de gás. Alguns tentaram também agredir Marco Aurélio Cunha quando este foi “prestar solidariedade aos torcedores feridos”, segundo ele mesmo, ou tentar fazer o possível para não piorar ainda mais a imagem do estádio, para aqueles com ouvidos e olhares mais atentos aos bastidores do futebol brasileiro, mas foi quase unânime a opinião de que o problema todo foi a violência descabida da ação da PM.

PM que ao contrário da prática comum nos mesmos países citados como exemplo para a implementação da nova divisão de torcidas em clássicos, insiste em evacuar primeiro a torcida mandante, quando seria mais fácil e rápido dispersar os 5.000 corinthianos antes de permitir a saída dos 29.000 são-paulinos. Estes, tendo saído primeiro e em maior número, puderam protagonizar, como noticiado por diversas rádios, tentativas de emboscar os corinthianos em sua única saída, dando trabalho pra PM (como, aliás, aconteceu na entrada também). Talvez daí tenha saído a bomba iniciadora do corre-corre. Não há como saber, e provavelmente não haverá.

Porque o que interessa no futebol hoje é o negócio, o dinheiro, e não a festa ou a participação popular, muito menos a apuração de responsabilidade pelos 30 feridos – coisa que não mudará enquanto policiais não responderem criminalmente como civis.

Se é possível lucrar mais com menos gente no estádio (a renda do jogo deste ano, com seus quase 34.000 pagantes, foi de R$ 1.066.880,00, enquanto a de 2008, com 7.000 pagantes a mais, foi de R$ 666.390,00), que assim seja, nem que pra isso algumas pernas tenham que ser quebradas, pernas que pagaram absurdos R$ 90,00 pra estar ali.

Em nome do lucro, do marketing e da conquista de patrocínios, um continuum de desrespeito com o torcedor.

Que começou com o anúncio da não divisão em 50% a duas semanas do jogo, continuou com os preços abusivos, e terminou com a violência policial.

Não se discute aqui o direito do São Paulo em cumprir o regulamento, mesmo que pra isso rasgue a tradição, a diplomacia e os bons tratos com seu co-irmão/rival/cliente.

Mas é inaceitável não ver sendo minimamente abordado na mídia o modo como são impostas as mudanças nos estádios brasileiros, os preços e horários abusivos, a falsificação de ingressos e a ação de cambistas contínuas e notadamente o crescimento da ação policial violenta.

Coisas que, nas mãos de jornalistas sérios, poderiam ser desmascaradas em duas ou três reportagens.

Ao invés disso, trata-se o torcedor como uma paisagem que necessita urgentemente parar de se mover, um coadjuvante chato que era pra fazer uma ponta mas insiste em tentar roubar as atenções do ator principal – o dinheiro.

Defende-se os jogos de torcida única, representantes dignos da falência total de qualquer tipo de resquício de uma sociedade democrática e tolerante.

E não se demora em colocar a culpa na torcida pelas pernas quebradas, sempre.

Por conta disso é que o Vai, lateral! começa aqui uma campanha sugerida pelos companheiros do Futebólatras Anônimos: registrar independentemente a ação da polícia nos estádios e em seguida denunciar de todas as formas possíveis os abusos e maus-tratos.

Se a mídia não nos representa como gostaríamos, que sejamos nossa própria mídia.

E se não deu pra fazer deste 15 de fevereiro memorável pelo futebol, que o façamos memorável pela representação de uma mudança na forma com que nós torcedores agimos (ou, no caso, deixamos de agir) em relação aos abusos sofridos.

Porque tentar lavar as mãos pro que se passa é cada vez mais sujá-las de sangue.

***

PS.: pela cidade, muitos foram os incidentes entre torcedores, conforme noticiaram as rádios Jovem Pan e CBN antes da partida. E segundo comunidades de torcedores na internet, só não foi pior porque a confusão com a PM no fim do clássico “esfriou” os ânimos de muitos que planejavam emboscadas e vinganças depois do jogo.

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Respeitar os mais velhos

Sexta fui visitar minha avó.

Corinthianíssima avó.

Puxando papo comigo, ela perguntou:

– E o Corinthians, hein? Vai no jogo?

– Não, vó, tá essa palhaçada de ingresso a noventa reais.

– NOVENTA REAIS? Que é isso? Tão brincando com o povo? Você acha que vai poder ir em todo jogo do Corinthians se for noventa reais? O povo não vai poder ir! Botam aquele desgraçado daquele “Reinaldo” lá sem jogar e cobram noventa reais? Tá na hora de vocês fazerem bagunça lá, viu? Cachorrada sem vergonha…

Amigos, penso que devemos sempre respeitar a sabedoria dos mais velhos.

Sendo assim, comente aí que estiver afim de ir “fazer bagunça lá”.

Não no jogo, porque o preço dos ingressos transcende isso.

“Lá”, no caso, pode ser em vários lugares.

Depende das cores do seu coração.

Que não podem ser usadas mais uma vez pra nos dividir.

O abuso no preço é pra todos, então que façamos todos bagunça.

E que bagunça.

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Ainda os ingressos

A justificativa oficial, ou pelo menos parte dela, é a segurança – do patrimônio, principalmente, do torcedor nem tanto.

Mas aí, dos 6.800 ingressos para visitante, 4.500 vão para as organizadas, as mesmas que são chamadas de vândalas.

E ainda por cima os mais baratos: R$ 40,00.

Pro torcedor comum, só 2.300 ingressos, a R$90,00.

Não que eu seja contra as organizadas, pelo contrário. As defendo a maior parte do tempo. 

Mas a cada dia que passa fica mais claro que são os fatores econômicos – entenda-se VISA – que motivam as ações que envolvem o clássico.

Além da briga com a FPF e com o próprio Corinthians, que recebeu seus ingressos todos sem destacar e sem numerar – uma afronta, inclusive, ao Estatuto do Torcedor.

Parece que o São Paulo sofre cada vez mais de uma certa febre napoleônica.

Ao torcedor, fica a pergunta: vale tudo pra ver seu time?

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Noventa

Na década de 1990, comecei a me interessar o suficiente por futebol e passei a frequentar estádios.

Fui com meu pai a inúmeros jogos antes de começar a ir sozinho ou com amigos. Alguns desses jogos tinham uma aura especial: os clássicos.

Chegar ao estádio e ver do outro lado imensidão igual (ou quase igual) à sua, nas cores adversárias, provocantes, bandeiras pra todo lado, baterias, fogos de artifício, mesmo a tensão no chegar e no ir embora, tudo era parte indispensável da festa. A presença do outro enaltecia a nossa, nos fazia mais forte, tanto na vitória quanto na derrota, que era o momento de mostrar que gritávamos mais independentemente do resultado.

Os anos noventa terminaram, para mim, da melhor maneira possível: dois títulos brasileiros, 98 e 99, e jogos memoráveis entre o meu Corinthians e seus contrários, Palmeiras e São Paulo. 

Todos eles no Morumbi.

Dez anos depois, o local ainda é o mesmo, mas outros noventa norteiam o primeiro clássico do ano: os noventa reais cobrados pelos míseros 6.800 ingressos “generosamente cedidos”, nas palavras do presidente são-paulino, para a torcida corinthiana.

Não bastasse a triste e descabida decisão de fazer um clássico sem o estádio dividido ao meio, que além de desabonar a tradição brasileira e o espetáculo em si provoca ainda mais insegurança para aqueles que se aventuram a comparecer ao jogo, dos dois lados, ainda há a lastimável cobrança de um preço absurdo pelos ingressos de visitante.

A guerra que sempre se instaura, às vezes apenas em forma de clima, outras em vias de fato, ganha tensão desnecessária, com as torcidas prometendo emboscadas e a polícia cacetadas. A rivalidade é acentuada da pior forma possível. E os torcedores dos dois lados sofrem para ver o jogo.

Por conta disso, no próximo dia 15 Corinthians e São Paulo farão um clássico ainda mais marcado pela confusão. 

Primeiro porque muito mais do que 6.800 corinthianos comparecerão. 

Segundo porque boa parte deles planeja não entrar e protestar, ato encorajado (com razão) pela própria diretoria do clube ao saber do preço dos ingresos.

Terceiro porque o jogo não se resume ao estádio, e por toda a cidade Tricolores e Alvinegros tomarão para si a briga emcampada pela diretoria são-paulina contra a Federação Paulista de Futebol.

E nessa guerra entre São Paulo e Federação, é o Tricolor Paulista quem se apequena ao fazer uso das mesmas práticas de Grêmios Barueris da vida quando enfrentam um grande em sua casa: abusar dos torcedores.

O clube cuja mídia propagandeia o maior sucesso em marketing esportivo, o pioneiro nas relações de mercado, o maior vencedor de títulos nacionais e internacionais do país parte para o ataque do lado errado, talvez receoso da iminente crescida do rival alavancada pela contratação de Ronaldo. Ataca sua torcida, a mesma que promete ultrapassar em dez anos, porque sabe que é nela que se baseia a força rival, talvez sem ter a real dimensão do poder – de reação e de destruição – dela. 

E pra tentar disfarçar o ataque, irresponsável por colocar a cidade ainda mais fora de controle, transforma-o em promoção para sua torcida, que ganha o ingresso do clássico ao comprar antecipado os ingressos dos três jogos em casa na primeira fase da Libertadores.

Para além do questionamento sobre se é certo o preço abusivo (coisa que, na Inglaterra, tomada a todo instante por exemplo, não é permitida, uma vez que se obriga o time mandante a cobrar da torcida visitante o mesmo preço do ingresso mais barato para a torcida da casa), fica aqui a indignação de quem acompanhou todos os clássicos paulistas realizados na capital ao vivo e in loco nos últimos três anos, acompanhado da mulher, sem nunca ter presenciado uma cena sequer de violência, e que no domingo estará impedido de fazê-lo.

Não (só) pelo preço ou pela carga de ingressos.

Mas pelos princípios enquanto torcedor – sim, até nós temos um limite além do qual não admitimos ser desrespeitados.

De ouvido colado no rádio, estarei torcendo para que neste infeliz 15 de fevereiro os jornais televisivos não tenham que noticiar eventos tristes envolvendo o jogo.

Por mais difícil – e improvável – que isso pareça.

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Rumo ao cemitério

Cerca de 9.000 pessoas (8.988, pra ser mais exato) assistiram ontem à Corinthians 2 x 0 Mogi-Mirim pela 7ª rodada do Campeonato Paulista 2009.

Um número ridículo em se tratando da maior torcida do estado.

Mas que se explica quando analisadas as condições em que o jogo foi realizado.

A começar, como sempre, pelo horário: 22h de uma quarta-feira. Estávamos nós assistindo a algo impróprio para menores? Cine Privê? O futebol tornou-se tão indecoroso que necessita ser jogado nas últimas horas do dia? 

Não. 

Acontece que quem determina o horário dos jogos não é a equipe mandante, nem a Federação, quem dirá os torcedores. Aliás, o horário e o local. Refém de seus patrocinadores, o futebol acontece na hora e lugar em que a televisão mandar. O estádio estará vazio porque a imensa maioria dos torcedores de futebol trabalha na quinta pela manhã? Sem problemas, é só comprar o pay-per-view.

Que só é mais caro, aliás, que o próprio ingresso no jogo. No Pacaembu, a arquibancada atrás do gol nos jogos do Corinthians só custa R$ 20,00 porque o clube diz “ainda não ter estrutura” (leia-se que sofre pressão das organizadas) para cobrar os R$ 40,00 que gostaria. A arquibancada central custa R$ 70,00, a cadeira descoberta R$ 100,00 e a coberta, R$ 150,00. E na ânsia de lucrar, o Alvinegro atira no próprio pé: segundo a Folha, dos quatro grandes paulistas, é o único que teve a arrecadação diminuída em relação ao ano passado, quando os ingressos eram mais baratos.

O atentado violento ao torcedor não pára por aí. Em nome da diminuição da violência, os estádios vão sendo transformados arquitetonicamente em ambientes prisionais – emblemático, portanto, que o comandante do espetáculo seja um Coronel aposentado. 

Não se permitem bandeiras, camisas, fogos de artifício, restringem-se os lugares de acesso para as organizadas. Grades, lanças, vidros à prova de bala. O fim das barraquinhas de lanches e bebidas no entorno. A proibição da cerveja, objetificando-se nela a culpa por uma cidade segregadora em todos os seus espaços. Até o jornal, esta perigosíssima arma,  está proibido de entrar. Trata-se o futebol como uma doença cujos sintomas precisam ser amenizados. Ou melhor, trata-se o estádio como se fosse um teatro ou um cinema, onde os espectadores devem permanecer em sepulcral silêncio como forma de provar um comportamento “civilizado” e aceitável. 

O merecimento em estar ali passa por provar que é capaz de parecer não estar. E o espetáculo, com isso, vai perdendo um de seus principais atores.

Como disse Mano Brown em entrevista à Benjamin Back, se você tira tudo do torcedor e ainda abusa dele com preços altíssimos por um serviço péssimo (vale lembrar que dentro do estádio um mísero churro, por exemplo, daqueles que você encontra por R$ 0,50 no centro de São Paulo, e ainda por cima frio, é vendido por absurdos R$ 4,00), não pode esperar muita coisa dele, que tem ali o seu desafogo para todos os constrangimentos que sofre pela cidade durante a semana, para além de raiva e violência. Que, muitas vezes, canalizadas na mente de quem já não tem lá muito bom senso, terminam em atos deploráveis. 

O que se esconde, na verdade, por trás disso tudo é a tentativa, brasileira como sempre, de modernizar de forma conservadora uma prática social: à força, encurrala-se quem já não tem muito direito a nada, para depois culpá-lo pelas tragédias ou pela “incapacidade” de participar e, assim, cria-se um jeito de afastá-lo do bolo. Como foi com os cinemas, todos confinados em shoppings centers e longe de serem populares, e com o Carnaval, funcionalizado num sambódromo e transformado em espetáculo para gringos.

Ao se pesar tudo isso, a tristeza inicial de ver o estádio às moscas se transforma parte em raiva, indignação, parte em uma certa satisfação pelo fracasso nas bilheterias. Fôssemos mais organizados enquanto torcedores e os estádios (e pay-per-views) ficariam vazios enquanto não nos respeitassem. 

Enquanto isso não acontece, contam-se os dias para a Copa do Mundo no Brasil, aquela pela qual toda a população, mesmo os mais receosos, anseia.

População cuja imensa maioria assistirá todos os jogos pela televisão.

Porque até 2014, os estádios, então arenas multi-uso apropriadas para diversos abusos e não-usos (uma vez que usar algo implica em ter acesso irrestrito a este algo), terão completado seu caminho rumo ao cemitério.

Pelo menos para nós, torcedores que conheceram o futebol quando ele ainda era, essencialmente, muito mais um jogo do que um imenso balcão de negócios.

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