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Ignorância é força

Desde o fim da II Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim, o mundo viveu sob o constante medo da Guerra Fria: duas potências, cada qual a seu lado, impondo à força sua visão de mundo. O futebol não ficou alheio a isso: tratado como amador nos países do bloco socialista, rendeu medalhas de ouro a estes em todos os Jogos Olímpicos de 1952 a 1980, já que entravam na disputa com suas seleções principais enquanto o resto do mundo enviava apenas, como mandava a regra, amadores. A história das Copas do Mundo também tem seus capítulos: da Copa da Suíça em 1954, em que Brasil x Hungria fizeram o duelo capitalismo x comunismo com vitória húngara, “xingamentos” de comunista da delegação brasileira ao juiz inglês e batalha campal após cusparada de um jogador magiar em um atleta canarinho, à Copa de 1974, quando a URSS se recusou a jogar uma repescagem contra o Chile de Pinochet e ficou de fora da disputa, passando por 1966 e o gol do inglês Hurst na final contra a Alemanha em que a bola não ultrapassa a linha e o bandeira do Azerbaijão – ex-república soviética – valida o lance e por 1970 e o gol do Uruguai contra a URSS em que um jogador sul-americano cruza uma bola que havia saído mais de metro, a zaga soviética pára e o time uruguaio marca com a conivência de juiz e bandeira – entre outros episódios.

Com o fim da Cortina de Ferro e da Guerra Fria, o mundo ficou definitivamente sob a égide do capital. O futebol não seguiu caminho diferente. A disputa simbólica capitalismo x comunismo acabou relegada ao folclore no esporte, agora regido pelas duras regras de sua entidade máxima, a toda poderosa Fifa. Até que a Coreia do Norte, “resquício” do mundo bipolar e sob uma ditadura política que impõe feroz censura à imprensa – categoria cada vez mais protagonista de um mundo cada vez mais midiático -, resolve voltar à cena e se classifica para a Copa de 2010.

Vivemos o século XXI e o senso comum diz ser inadmissível um governo privar seus cidadãos da “verdade”, representada pela enxurrada de informações capitaneada principalmente pela internet. Críticas são feitas ao bloqueio à rede mundial de computadores no Irã e na China. Pede-se a cabeça de Hugo Chávez quando este fecha o canal de televisão mais poderoso da Venezuela. E, como era de se esperar, brada-se contra o governo norte-coreano ao se ter a notícia de que os jogos de sua seleção não seriam televisionados ao vivo, apenas reprisados caso o país tenha feito um bom jogo. “Inimigos da democracia”, “assassinos da liberdade” e muitos outros epítetos de mesma estirpe ecoam pelos quatro cantos do planeta. O mundo do futebol, que não guarda com muito carinho as alianças entre ditadores e esporte (Mussolini em 34, Vargas em 50, Videla em 78, pra ficar só  nos exemplos mais explícitos), tem na Coreia do Norte um revival da Guerra Fria. Numa época em que o ideário do consumo venceu, ser impedido de consumir a Copa é impensável para a democracia ocidental.

A Coreia do Norte, então, passa a ser o bode expiatório, o idiota útil da vez. Aquele que faz esquecer que Honduras, que também está na Copa, vive sob um golpe militar recém-aplicado, por exemplo. E os jogos da seleção asiática adquirem um estranho interesse.

No primeiro, derrota para o Brasil por 2 a 1. Derrota digna, uma vez que enfrentam a maior campeã do torneio de todos os tempos. Mas que não faz com que o mundo virtual deixe de brincar com os melhores momentos que supostamente seriam exibidos na parte norte da península coreana:

http://video.portalcab.com/?play=brasil_vs_coreia_do_norte_editado

Na segunda partida, 7 a 0 para Portugal, e “rumores”, ecoados por reconhecidos comentaristas políticos (de direita, claro) de que os jogadores seriam enviados para minas de carvão ao voltar para casa. Sem falar no alarde de possíveis deserções com consequências graves para as famílias dos desertores.

A terceira partida acaba ficando sem muita atenção, uma vez que a equipe já não tem mais chances de avançar, e o assunto Coreia do Norte é encerrado nas redações de jornais na África do Sul.

A Copa, porém, continua, e se encontra nas oitavas de final. Jogam Alemanha e Inglaterra. Os germânicos vencem por 2 a 1 quando Lampard chuta por cobertura. A bola acerta o travessão e ultrapassa – e muito – a linha do gol. Mas a arbitragem não vê e o jogo segue. O episódio Hurst-66 volta a ser lembrado.

Mais tarde, a Argentina enfrenta o México, e Carlos Tevez abre o placar para os sul-americanos em completo impedimento. A arbitragem outra vez não vê, mas o telão do estádio, que supostamente só deveria passar os lances livres de polêmica, exibe o gol para todos, incluindo o bandeira e os mexicanos. O árbitro consulta o bandeira mas, com medo de ser punido por anular um gol graças ao auxílio do telão, confirma o tento, para desespero da seleção – e da mídia – mexicana.

Nas redações, o poder do fetiche da informação é tão grande que se clama aos quatro ventos por duas coisas: ou se usa o auxílio tecnológico de uma vez, coisa que – nesse momento conveniente – a “reacionária” Fifa não permite, ou NÃO SE EXIBE lance algum no telão.

Pior acontece no site da entidade máxima do futebol. Os relatos dos dois jogos simplesmente omitem os fatos. No primeiro jogo, a bola inglesa apenas tocou o travessão. No segundo, Tevez abriu o marcador e foi tudo normal.

Isso mesmo: a censura, uma vez que não norte-coreana, é permitida e DESEJADA. Porque – diz-se ingenuamente – não é política. É para o bem do espetáculo – no caso do telão – e dos negócios – no caso do site. O todo poderoso mundo do capital futebolístico se vê encurralado. A Fifa ou admite que o jogo é humano e há erros ou admite o uso de tecnologia e tira o lado humano do jogo, torna-o mais lento – já que a cada consulta ao VT o jogo precisa parar, como no futebol americano – e menos interessante para seus principais compradores, os veículos midiáticos.

Não há, entretanto, menção alguma nas redações mundo afora à contradição explicitamente escancarada. O futebol está exposto: jogo ou negócio? Se for jogo, não faz sentido tanta atenção e tando dinheiro para “corrigir os erros humanos”. Se for negócio, há que se pensar uma solução para fazer passar a polêmica como parte do jogo, quando ela é na verdade necessária para atrair mais consumidores – todo mundo, mesmo quem não entende das regras, quer ver o absurdo gol inglês que não foi dado. Mais: o capital está exposto enquanto projeto político-ideológico que precisa da mentira da propaganda para sobreviver. O comercial de hambúrguer não pode dizer que comendo-o você correrá riscos de saúde. A Copa da Fifa, cujo slogan é o fair play, não pode deixar claro que você está pagando para ver um “espetáculo” que pode ser fraudado – voluntária ou involuntariamente – exatamente porque é humano. Um espetáculo que por vezes é injusto. Admitir que futebol não é pra ser justo é tirar toda a vestimenta de jogo democrático e igual para todos que serve para mascarar o enorme abismo entre times e jogadores trilionários que usufruem dos privilégios do jogo-espetáculo-negócio às custas de times e jogadores pobres utilizados como laboratório para novos “craques” – novos negócios.

“Ignorância é força”, dizia George Orwell em seu 1984. Os norte-coreanos seguem a citação à risca. O capital também. Ou há alguma diferença entre omitir fatos num país sob uma ditadura política e omitir fatos num mundo sob uma ditadura econômica?

O replay está para a Fifa como a cruz está para o vampiro. E ambos sugam nosso sangue – embora o segundo apenas no sentido figurado.

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Passa Palavra 5

O Passa Palavra continua com seu Especial Futebol e Política.

O texto, dessa vez, é assinado por Tatiana Melim e trata da relação entre mídia e torcida.

Leia aqui.

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O Cruzeiro e o real

Eu não tenho curtido muito o Juca Kfouri, mas esse texto é animal.

Leitura obrigatória!

JUCA KFOURI

O Cruzeiro e o real

Mais que a derrota na final da Libertadores, importa considerar como a decisão foi tratada aqui no Brasil

O BRASIL não é o país do futebol. É o maior vencedor e o maior celeiro, mas mais países do futebol são a Inglaterra, a Argentina, a Itália.
Aqui não se cultiva O JOGO, não se trata o futebol com reverência, não se dá a ele a liturgia que merece.
No máximo é visto como paixão e entretenimento, pois até como negócio é maltratado.
Prova disso, mais uma vez, foi que na maior noite do futebol no continente outras seis partidas do campeonato nacional rivalizavam com a decisão da Libertadores, num desrespeito à grandeza do que acontecia no Mineirão.
E o eixo Rio-São Paulo nem sequer recebeu a transmissão do evento internacional pela TV aberta, algo simplesmente impensável na Europa, na Liga dos Campeões.
É ululante que o torcedor prefira ver seu time em ação a qualquer outro, por mais importante que seja a disputa em que este esteja.
Razão pela qual, em nome do JOGO, há que se tratar de maneira diferente aquilo que é mesmo diferente, raro, que acontece, no máximo, uma vez por ano, quando acontece, no dito país do futebol.
A dor da maioria, a festa da minoria, a primeira apoteose, a virada dramática, os ingredientes todos que fazem do JOGO o mais popular e mais democrático do mundo (só nele alguém com o físico de Diego Armando Maradona pode ser o número 1) deveriam ter sido tratados com o devido respeito, para que as gerações se sucedam na perpetuação de seus vínculos e não apenas como a repetição do ganhar, do perder ou do empatar.
Quem não entende que o estádio tem um quê de templo, que aquele cimento é um território sagrado, que aquela grama é a mais especial que há na face da Terra, não está entendendo nada do que fala a linguagem do JOGO.
São meros burocratas, gente capaz apenas de pensar da mão para a boca, sem nenhuma preocupação com o futuro, porque, afinal, estarão tão mortos amanhã como estão hoje em sua mediocridade.
Quem não viu ou não teve como ver os 90 minutos de tensão disputados por Cruzeiro e Estudiantes na última quarta-feira perdeu a chance de viver com a camisa celeste a angústia de um épico tal e qual teria vivido com as cores do seu time de coração. E perdeu a chance de ser solidário, de ser generoso, de se sentir protagonista de um momento especial na vida do JOGO.
É de se lamentar, enfim, que o pragmatismo do dinheirismo insuflado pela batalha das audiências chegue ao ponto de fazer tábula rasa de momentos sagrados, como uma decisão de copa continental.
Razão pela qual o velho escocês Bill Shankly, saudoso técnico e gerente do Liverpool quando o time inglês dominou a Europa, deve mesmo ser imortalizado pela frase que consagrou: “É claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso…”.
Um dia, quem sabe, haverá, no Brasil, dirigentes e não cartolas, executivos e não burocratas na administração do JOGO e de tudo que o cerca, para que nunca mais ninguém seja privado de ver o essencial em nome do circunstancial.
Bem diferente, portanto, da realidade de hoje. Oremos.
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Passa Palavra 3 e 4

Fechando o Especial Futebol e Política, o Passa Palavra publicou os dois últimos textos sobre esta intrínseca relação.

O terceiro, “Futebol de Várzea – caminhos de insubordinação”, é assinado por Rafaaa e versa sobre a organização varzeana e seus princípios de solidariedade.

Leia aqui.

O quarto, “O Futebol-Empresa”, é de autoria de Tiago Ripa e é uma análise soberba e substancial sobre os rumos do futebol brasileiro cada vez mais subjugado ao mercado financeiro internacional.

Leia aqui.

Se o Especial termina, no entanto, é só por enquanto. Com a Copa de 2014 no horizonte, não faltarão oportunidades de se discutir futebol e política no Brasil e no mundo.

Que a iniciativa do Passa Palavra, portanto, não definhe esquecida por estes rincões virtuais. Se depender do Vai, Lateral!, estaremos sempre vivos.

E, quiçá, cada vez mais fortes.

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A voz da rua

Manifesto dos Gaviões da Rua São Jorge escrito depois da morte do Clayton em 04/06.

Mostra bem o direcionamento político que estão tomando.

Serão cada vez mais marginalizados.

E aqui, no Vai, lateral!, terão cada vez mais espaço. E colaboração.

Que fale cada vez mais alto a voz da rua!

***

A VOZ DA RUA

Os fatos deviam sempre falar por si. Um bom jornalismo apresenta os fatos e deixa que os leitores, que têm inteligência suficiente para isso, cheguem às suas conclusões. Mas quando a grande mídia apresenta os fatos, já vai logo dando sua versão, não deixando espaço para um julgamento isento de opinião particular, de classe ou de preconceito. A grande mídia são os grandes jornais, as grandes emissoras de radio e TV, e seus apresentadores, que se crêem os donos da verdade e os paladinos da moral.  Não todos, é claro. Mas uma grande maioria. São formadores de opinião que esquecem que de perto ninguém é normal. E que todos os seres humanos têm as suas perversões. Vai saber a vida de cada um. Sempre, um dia, alguma bomba estoura. E muitas máscaras caem. Mas enfim. Não é destes medíocres que vamos falar. Não agora.

O que queremos neste momento é elucidar os últimos fatos relacionados aos Gaviões da Rua São Jorge, e que foram levados á publico envoltos em versões que não correspondem à realidade. Versões que, para além do preconceito, escondem intenções muito mais amplas e maldosas, nesse jogo de bandido e mocinho que jogam os donos do poder deste país, e que faz de nós, torcidas organizadas, risíveis joguetes, numa engrenagem, que mesmo os mais atentos dentre nós, não percebemos com clareza. Também deste jogo de mocinho e bandido, e da criminalização da pobreza, que tem levado ao extermínio os jovens de nossas periferias, não trataremos aqui. Não agora. Lembramos, apenas, que nossos jovens vêm, em sua estonteante maioria, dessas periferias desprovidas, desafortunadas, cheias de medo de não amanhecer, esquecidas das políticas publicas, principalmente para essa juventude. Também das necessidades dessas políticas públicas para a juventude, que sejam capazes de fazê-los acreditar em um futuro mais justo e digno para eles neste país, também não trataremos aqui. Não agora.

Nossa voz se levanta aqui para nos defender das mentiras que foram ditas por uns e veiculadas por outros a respeito dos fatos que ocorreram na quarta-feira, dia 04 de Junho de 2009. Versões alardeadas pelo Sr. Paulo Castilho e pela Sra. Ana Maria Braga. Aquele por maquiavélica inteligência. Esta por pura burrice e desinformação. Aliás, se o Louro José trocasse de lugar com ela, ninguém notaria. Não. Notariam sim. Ele tem mais inteligência do que ela. Ela é que é a papagaia. E aqui paramos pra pensar: Como podemos qualificar o ato cruel de invadir diariamente a residência de milhões de brasileiras pobres, que mal conseguem comprar o arroz, o feijão e a mistura, para torturá-las com receitas, comidas e guloseimas que elas nunca terão acesso? Como qualificar o ato de incitar desejos de consumo a uma população de miseráveis que nunca, nunca vão poder satisfazer-los? Quem é mais quem? Como ser mais você, se tudo na vida de quem é pobre é menos? O que Ana Maria diz diariamente em seu programa é: Olha, todos podem ter acesso a isso: Menos você. Como qualificamos isso? Tortura? Sacanagem? Ignorância? No entanto, D. Ana Maria Braga, se acha no direito de nos chamar de um bando de marginal e vagabundo.

Já a inteligência da perversidade do Sr. Paulo Castilho atende, não sabemos se consciente ou inconscientemente, às necessidades de elitização do futebol, que pede o afastamento dos favelados, dos periféricos, dos negros, dos mestiços, dos pobres, da imensa maioria do povo brasileiro. Porque, não nos enganemos, esse discurso de “famílias afastadas dos estádios”, não se mantém se verificamos a realidade. Ou aquele senhor que eu conheço e que mora na minha quebrada, que foi ao estádio com sua esposa e filha, não é família? A questão é saber de que família estes senhores da moral, estão falando. Não é da pobre e favelada. Mas desses processos de elitização do futebol não trataremos aqui. Não agora.

Faz-se necessário um debate interno dentro do Movimento da Rua São Jorge. Abrir a cabeça dos nossos jovens para o jogo perverso que nos envolve, e se não estivermos atentos, seremos arrastados pelo rolo compressor da mentira e da perversidade daqueles para quem a nossa criminalização só trará benefícios pessoais. Jovens promotores, querendo construir carreiras, se auto considerando, os benfeitores da sociedade. Jovens promotores que desconhecem a vida, o mundo real e a sociedade brasileira. Jovens promotores formados entre quatro paredes, presos a livros e a leis frias, que aplicam como dessem comprimidos para a dor de cabeça. Defensores da lei e da ordem que só beneficiam sua classe social. Pois não é com a sociedade pobre e marginalizada que eles estão preocupados. Mas desses jovens promotores também não trataremos aqui. Agora não.

O momento é de esclarecer a sociedade civil o que verdadeiramente aconteceu na Marginal Tietê. Porque não foi emboscada nenhuma. E olhamos perplexos um mundo de exageros e mentiras desabar sobre nossas cabeças. Condenados sem julgamento. Criticados por todos, sem conseguir expressar nossos sentimentos. Nossa dor pela perda de um irmão. Nossa revolta.

O nosso objetivo aqui será o de  encaminhar a razão e procurar a verdade nos fatos. Recusar todos os preconceitos, não aceitando como verdadeira nenhuma versão que não seja comprovada. Vamos aqui enunciar versão a versão e mostrar o quanto são refutáveis.

Emboscada? Se por emboscada entendemos, e assim nos diz o Aurélio, que é o ato de esperar às escondidas pelo inimigo para atacá-lo de surpresa, Como  pode ter sido emboscada se aquele sempre foi o caminho dos gaviões da Rua São  Jorge? Todos sabem disso. Policia e torcidas adversárias. Não é um caminho que se vai quando se quer se esconder e atacar de surpresa. Ou o jovem promotor não entende nada de ciência militar, ou optou por mentir descaradamente.

Como emboscada se era 1 ônibus contra 13 num terreno pouco favorável a um ato destes? Um ônibus visível até pelos mais míopes. E esse único ônibus trazendo mulheres, crianças e um deficiente, ocupando espaço que poderia ser destinados a outros briguentos. Seria inteligente tirar homens e colocar mulheres e crianças para ir para uma briga?

Tínhamos escolta? Tínhamos. A nossa. Não porque fôssemos os poderosos e não precisássemos da colaboração da polícia, mas porque ela nos foi negada. Sem escolta batemos no peito pra dizer: é com nóis mesmo. Nossa defesa eram nossos punhos. Não tínhamos nenhuma arma. Muito menos a arma de alto calibre que foi veiculada na mídia. Mentira, mentira, mentira.

O fato é que quando chegamos na altura da rodoviária do tietê, três motos da Rocam, aparecem do nada, e nos joga para a direita. Se ela queria aparecer, porque não o fez desde a saída da Rua São Jorge? Após o viaduto das Bandeiras pararam nosso ônibus e carros. E olha a coincidência: “40 segundos” depois passavam os 13 ônibus vascaínos na pista central. E olha a coincidência: eles também foram parados. A rivalidade antiga aflorou, falou mais alto e eles marcharam para cima de nós. E aí já estávamos no meio de uma briga lutando pra se defender. Recuamos no sentido da ponte Tiradentes. Para trás ficaram nossos carros e o ônibus. Até esse momento ninguém tinha sido foi preso. Dos vascaínos ninguém chegou a ser preso. Seus ônibus seguiram tranquilamente para o estádio como se nada tivesse acontecido. E, então, voltarmos para os nossos carros e ônibus, acreditando que seria o mais seguro devido à presença da polícia no local. Eles mesmos disseram que nós tínhamos sido vítimas. Mas coma chegada da delegada Margareth e do jovem promotor, tudo mudou de figura.

Se tínhamos sido vítimas de vandalismo, roubo e morte, se tivemos nosso ônibus depredado, nossos carros destruídos e uma moto incendiada, passamos a ser os vagabundos, os criminosos, os bandidos.

Se somos bandidos porque insistimos em participar e dar nossa contribuição em todas as reuniões do Batalhão?  Mesmo quando a delegada Margareth manda nossos representantes se retirarem da reunião, justificando que somos os Gaviões da Rua São Jorge, que não somos reconhecidos como tal, que não possuímos CNPJ.

Também fomos retirados de uma reunião no Fórum com o Promotor, o Secretário do Ministro e todas as outras torcidas organizadas. Não nos identificaram como Rua. Quem vive na rua vive ao relento. Sem voz, nem vez. É assim a nossa sociedade.

Se somos bandidos porque insistimos em pedir escolta? De início fomos atendidos. Mas logo começou o boicote.  Inclusive de outras torcidas. Inclusive de parte da nossa torcida. Na rua é assim: cada um por si e Deus por todos.

Estão todos esses fatos e essa versão de emboscada desconectados um dos outros? São fatos isolados? Não se vê nessa forma de agir contra os Gaviões da Rua São Jorge uma certa lógica?

Sabemos que nos envolvemos em brigas. Sabemos que isso não leva a nada. Como sabemos, por experiência, que à medida que a idade vai chegando, esses pensamentos vão mudando. E nós mesmos, olhando em retrocesso o nosso passado de brigas, dizemos aos mais jovens, que isso é besteira, que não dá futuro a ninguém. Mas futuro, nenhum periférico tem nesse país. Então que diferença faz? O jovem se pergunta. E aí já não sabemos mais responder. Não somos sociólogos nem psicólogos sociais. Simplesmente nascemos dentro de uma realidade brasileira, de um contexto, de uma formação social que nos é adversa. Somos formamos nela. E respondemos tentando sobreviver a isso. Mantendo nossa sobrevivência psíquica em tempos de crise civilizatória. Sabemos, sim, que apesar das confusões que causamos, não somos bandidos, como querem fazer a sociedade crer. Não somos terroristas, que é o medo da moda desde o 11 de Setembro. Não somos delinqüentes nazistas que matam negros, nordestinos e índios. Somos periféricos que brigam com periféricos. E que nesse brigar, infelizmente, para nosso pesar e tristeza, morre, ás vezes, um jovem. Aí somos pobres matando pobres. É justamente aqui que riem de nós. E pensam: Isso! Matem-se. Mostrem à todos, quem vocês são de verdade. Vagabundos. Marginais. Bandidos. Se vocês são ou não são, isso não nos interessa. O que não queremos é que um bando de loucos estejam organizados. E que um dia, deixem de brigar e invadam câmaras e senados brigando por educação, igualdades e direitos. Pois é para isso que queremos caminhar. Que a cobrança por títulos para o Todo Poderoso Corinthians venha acompanha de outras cobranças, lutas e conquistas sociais e humanas. Que os Gaviões da Rua São Jorge possa contribuir verdadeiramente para a higienização do futebol, ocupando as salas e pondo os cartolas contra a parede. Em nome da nação Corinthiana, em nome da nação brasileira. Os Gaviões que se juntaram na Rua São Jorge, querem e vão brigar para construir um novo modelo de torcida. A cada dia com seu nível de consciência mais elevado, a cada dia mais organizada.

Mas aqui tem um bando de loucos, sim. Loucos por ti Corinthians. Loucos por ti minha quebrada. Loucos da rua. Porque a rua ensina e mostra ao homem a sua verdadeira dimensão. Porque a rua é do tamanho do mundo. A rua é o mundo. E o homem é do tamanho de uma pedra miúda. E, aqui, deixamos para todos nosso recado final: CNPJ? CNPJ é a rua mané. Nela, é nóis que tá.

Movimento Gaviões da Rua São Jorge.

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Passa Palavra

Surgiu recentemente um novo site de contra-informação na Internet: o Passa Palavra.

Eles iniciaram hoje uma série de artigos sobre futebol. O primeiro, que reproduzo abaixo, encontra-se neste link.

Importante e satisfatório ver que cada vez mais espaços se abrem na mídia e na academia para pensar o futebol. Ter parâmetros para (re)orientar as nossas ações enquanto torcedores é fundamental, e discutir socialmente as questões que nos afligem, também. 

Então, longa vida aos especiais sobre futebol e ao Passa Palavra!

Especial Futebol (I): Torcidas organizadas e orientação política

Esse artigo inaugura um especial do Passa Palavra sobre futebol. Aqui se analisa as relações entre política e futebol a partir da ação política das torcidas organizadas em seu contraditório processo.

FRANCE SOCCER CHAMPIONS LEAGUEA relação entre futebol e política é evidente e de uma maneira geral esse esporte foi usado amplamente para os mais diversos interesses. Isto se dá, muito provavelmente, pelo inegável potencial de mobilização popular que o futebol tem manifestado por suas torcidas, por um lado; e pelo crescente poder econômico que os clubes vêm acumulando, por outro. Cabe então analisar qual é a ação política realizada por estas torcidas e quais as contradições desse processo.

A torcida de futebol é percebida como espaço de dissolução das classes, nas arquibancadas somos todos iguais, unidos pelas mesmas cores. Evidentemente existem diferenciações dentro dos estádios, afinal alguns setores são mais caros que os outros e, por vezes, uma ou outra polêmica divide os torcedores. Tal diferenciação chega a ser enxergada pelos próprios torcedores, causando um certo desconforto, mas nada que ponha em cheque o sentimento de união em torno de algo maior: o time. O fator de união entre os que estão ali presentes se dá com o time e não com a situação produtiva aparentemente, rompendo todas as barreiras da fragmentação imposta na sociedade atual.

Digo aparentemente porque cada vez mais o ócio e a cultura se transformam em mercadorias, incluindo o futebol e todas as outras formas de lazer no âmbito da produção capitalista. Além de todas as contradições já impostas ao futebol, cada dia essa nova característica ganha força e se hegemoniza. Os clubes se transformam em empresas e os torcedores que têm influência nos rumos do time são, na maioria dos casos, um pequeno grupo de empresários, isso quando o time não se torna totalmente apêndice de uma outra empresa qualquer. Portanto, o que era um equívoco falar há cerca de duas décadas atrás, “o torcedor é um mero consumidor”, se torna cada vez mais real. Isso influencia completamente na composição das torcidas e nos seus comportamentos, já que o consumidor vale pelo seu poder de compra, passando os clubes por um processo de elitização das torcidas, a ponto de eliminar dos estádios as gerais – espaços das arquibancadas vendidos a preços reduzidos. Transformam os estádios em shopping centers, cobram preços absurdos pelos ingressos e afastam assim as camadas mais populares das arquibancadas, para pôr no lugar pessoas que podem consumir futebol e, desta forma, ter uma postura “menos apaixonada”, deixando de exigir a participação na gestão do clube através dos gritos e da força para participarem de forma pacífica, mediada pelo poder do dinheiro, ou melhor, participando somente de forma ilusória.

Por outro lado, as torcidas perdem a ligação com o espaço geográfico de forma cada vez mais intensa. Essa ligação com o espaço geográfico, que determina a origem de diversos clubes de futebol, começa a se perder a partir de meados do século passado, com a criação da cultura de massa, que impôs a criação de torcidas nacionais a custo da eliminação de torcidas menores e de times de regiões periféricas sob a ótica do desenvolvimento capitalista. No Brasil isso é ainda mais verdadeiro, perceptível nos grandes times do Rio de Janeiro e de São Paulo, que possuem torcidas em todo território, às vezes até maior do que a dos times locais. Já na virada do século passado para o atual, com a efetivação da globalização, ou melhor dizendo, com a transformação dos clubes de futebol e empresas transnacionais, o futebol avançou ainda mais no processo de ruptura das fronteiras, sejam elas locais, nacionais ou continentais. Assim, já se é possível torcer por um time de um outro país que não o seu, não pela identidade que formou com ele, mas pela imposição dos meios de comunicação. Entretanto, é só olhar a localização dos estádios em Londres ou Buenos Aires e analisar a composição das torcidas dos clubes de menor expressão econômica-midiática, e ver que os bairros ainda exercem influência direta na formação das mesmas.

Mas esses processos de ressignificação (ou eliminação) das identidades das torcidas ainda está longe de se efetivar. Mesmo os gritos que exaltam determinada condição social do torcedor, como é o caso da torcida do Corinthians (“é festa na favela”), são afirmados enquanto discurso identitário, tentando expressar que todos os corinthianos são favelados, o que não condiz com a realidade, mas reforça os laços entre aqueles que vestem as mesmas cores. Vale destacar aqui a contraposição feita entre Corinthians e São Paulo, pois os são paulinos se identificam enquanto elite e os corinthianos enquanto povo (oposição explicada em parte pelas origens dos times). Mas essa dualidade vale para outras rivalidades regionais existentes no Brasil e, provavelmente, no mundo. Assim, os torcedores anulam as diferenças internas da sua própria torcida e transferem este conflito para o âmbito externo: o outro time é o inimigo, especificamente o seu torcedor. As diferenças entre as torcidas, portanto, por mais que expressem de alguma forma uma parte da realidade, não explicam o todo, e se transformam mais em ideologias para justificar a rivalidade do que como explicação real para o conflito.

Estas identidades construídas de forma artificial se expressam com maior intensidade nas ações violentas das torcidas organizadas, sendo fator de orgulho quando elas se enfrentam. É um mérito ter acuado a torcida de outro time, roubado suas bandeiras, seus instrumentos, ter mandando meia dúzia para hospitais e, quem sabe, ter assassinado um suposto adversário.

Essa violência, geralmente, é realizada por membros das classes mais populares, mas nem sempre, já que as torcidas organizadas são divididas em facções (comandos, batalhões, brigadas, etc.), quase sempre segmentadas por bairros, onde alguns pouquíssimos grupos chegam a ser compostos por sujeitos das classes dominantes. O alvo, por sua vez, são os membros e patrimônio das outras torcidas, quase sempre proletários também, ganhando conotação de classe, pelo menos nos discursos, quando são times de torcidas de origens sociais diferentes.

Mas essa violência se expressa também contra os próprios clubes, quando esses não abrem espaço para que as torcidas interfiram na gestão do mesmo; ou contra a polícia, instituição que cada dia mais intensifica as ações contra as torcidas organizadas. E a medida que elas se tornam mais proletárias e, portanto, populares, mais agressiva é a resposta. Por último, a violência contra o patrimônio é a menor, e se expressa em pichações em muros ou depredações de ônibus.

Evidentemente esta violência entre trabalhadores não é uma exclusividade das torcidas organizadas de futebol, sendo presente nos diversos coletivos urbanos (principalmente nos meios juvenis), a diferença é que no caso do futebol esses confrontos ganham dimensões extraordinárias devido a quantidade de pessoas envolvidas e por acontecer ali, bem em frente dos espetáculos midiáticos e, portanto, não mais somente nas periferias das cidades. Esses confrontos entre torcidas organizadas foram amplamente combatidos através dos meios de comunicação, chegando a haver, no Brasil, um movimento para banir as torcidas organizadas dos estádios. Como o apaziguamento das torcidas – ou pelo menos o desvio dos confrontos para regiões periféricas dos estádios – diminuiu bastante o interesse dos espectadores pelo futebol, as torcidas hoje passaram a ser mostradas de forma contraditória, pois a exploração da violência enquanto espetáculo continua, principalmente agora na onda de terror que se impõe à população, mas boa parte das transmissões são dedicadas a expor os gritos que vêm das arquibancadas, isso tudo porque a saúde do negócio é ainda mais importante.

Cabe apenas destacar que esta violência não se volta apenas contra torcedores de outros times, mas dentro da torcida de um mesmo time são proibidas cores identificadas com o time adversário. Mesmo a população em volta dos estádios – tanto em dias de jogos, quanto nos de compra de ingresso – está sujeita a estas ações. E há casos de brigas entre torcidas organizadas do mesmo time, e esses casos, apesar de raros, são os mais emblemáticos da penetração da luta de classes nas arquibancadas, já que esses confrontos se dão pela formação de torcidas por frações diferentes da classe trabalhadora, ou até mesmo de classes antagônicas; ou como é cada vez mais comum, por parte dos torcedores terem comportamentos não aceitos pela maioria, como é o caso das manifestações de racismo que sempre dividem torcedores que carregam a mesma bandeira. Portanto, é incorreto afirmar que há torcidas completamente racistas, mesmo que a maioria dos seus torcedores compartilhem com esse tipo de sentimento; por outro lado, há torcidas onde são completamente intoleráveis expressões do racismo, e isso acontece não por causa da ação político-conscientizadora das torcidas organizadas, mas pela composição étnico-racial dos torcedores em geral, pois da mesma forma que muitas classes podem conviver aparentemente unidas nas arquibancadas, muitas cores compartilham do mesmo sentimento, para além daqueles expressas nos uniformes.

As torcidas organizadas são também organizações coletivas, rompem com a individualização de nossa sociedade e surgem como iniciativa de participação na vida do time. Para a maioria dos seus componentes, formada por proletários das camadas mais populares, quase todos jovens, é essa a primeira e única experiência organizativa. Na medida em que o torcedor é colocado como consumidor do espetáculo do futebol – que deve apoiar o time em todas as situações, comprar os produtos do time, pagar o ingresso sem questionar – as torcidas organizadas podem ser encaradas como uma ruptura com este padrão. Quando surgem, inclusive, a grande maioria segue a estrutura associativa, com participação ampla dos seus sócios. Elas querem influir nos rumos do time, nos preços do ingresso, nas posturas dos dirigentes, técnicos e jogadores, são então uma estrutura de participação coletiva e reivindicação política na sociedade, tentam tomar o controle de algo que lhes parece fundamental em suas vidas: o futebol.

É verdade: quando essas torcidas crescem, e passam a interferir na dinâmica do clube, entram em um processo de profissionalização, que significa assumir toda a racionalidade instrumental típica de uma empresa capitalista e, portanto, ao gerar hierarquias internas bastante rígidas, deixam de ser espaços de aprendizado organizativo para os seus componentes, ou pelo menos para a maioria deles. Mas mesmo assim, nunca é uma transição tranqüila e há casos de torcidas que foram nesse caminho e regressaram (após conflitos internos retornaram a uma situação de maior participação dos seus componentes). Esse processo de profissionalização acontece por dois motivos. O primeiro é que a torcida passa a gerar renda com a venda de materiais e com a realização de atividades recreativas – fora o fato de algumas receberem recursos dos dirigentes dos seus times – necessitando assim de uma estrutura administrativa; por outro lado, ao ganharem visibilidade, precisam eleger representantes ou donos, para que as outras instituições da sociedade tenham a quem se dirigir (ou corromper, quando for necessário).

Evidentemente isto não quer dizer que as torcidas organizadas são espaços de formação de uma consciência de classe proletária, mas mostra que há uma contradição interna bastante latente. A torcida do Zenit da Rússia, por exemplo, considera que nenhum jogador negro deve jogar no time, e assim impede através da hostilização violenta a participação de qualquer um que tenha a pele escura e traços africanos. Na Europa, o caso mais característico é o da “Irriducibili Lazio” que tem entre seus gritos saudações a Mussolini e a canção “Facetta Nera”. Mas também dentro das arquibancadas do Lazio há torcedores que negam e combatem essa postura. Por outro lado, mas ainda na Itália, existe uma politização de esquerda, por vezes organizadas diretamente para combater o racismo e o fascismo, chegando a formar organizações comunistas, como é o caso da torcida do Livorno, que leva bandeiras com imagens de Che Guevara e Antonio Gramsci, além de cantar “Bandiera Rossa” e preencher as arquibancadas com cânticos revolucionários e bandeiras vermelhas. O preço, claro, foi descer para a segunda divisão do campeonato italiano… Por vezes estas duas torcidas entraram em confronto físico direto.

Sem querer entrar na composição das torcidas, mas explicitando um caso emblemático de uso do futebol para fins nitidamente políticos, podemos citar o caso do Real Madrid, que durante a Guerra Civil Espanhola foi usado como instrumento de propaganda ideológica do regime fascista, pois o clube mais vencedor do país até então, o Barcelona, era o time dos catalães que lutavam contra a unificação autoritária do país e, ao mesmo tempo, levantavam a bandeira do comunismo. E essa rivalidade é presente até os dias atuais. Isso sem falar nos casos emblemáticos em Copas do Mundo, onde as seleções cansaram de ser usadas como instrumentos de regimes fascistas e/ou autoritários.

Vale destacar as tentativas de organização política de esquerda por parte das torcidas organizadas no Brasil, com destaque particular para a torcida do Corinthians, a “Gaviões da Fiel”, que desde sua fundação tem como marca uma forte atuação política, inicialmente na luta contra a “ditadura” de Wadih Elu, e 15 anos depois na luta pelas diretas já. Nos últimos anos, graças a um grupo que já ocupou sua diretoria, busca um trabalho com movimentos sociais, participando de articulações e ações com a Via Campesina, compondo o bloco “unidos da lona preta”, apoiando as mobilizações contra o aumento da passagem em 2006 e mantendo uma rádio livre on-line.

Cabe alertar que este grupo da Gaviões da Fiel está hoje longe da diretoria da torcida e se organiza internamente no auto-denominado Movimento Rua São Jorge, que realizou um seminário com o objetivo de refletir qual o papel social da torcida, que contava entre os debatedores convidados representantes do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Acenam desta maneira com uma ação política radical de esquerda com movimentos transformadores, por vezes buscando uma maior integração com as torcidas rivais; porém, convive com a enorme contradição que é a retomada dos gritos de incentivo à violência (ausentes na Gaviões desde os anos 90) por entenderem que estes representam a contestação principalmente à atual diretoria.

Um exemplo menor, mas já bem conhecido, é o da torcida do Ferroviário do Ceará. Considerado o terceiro time da capital do seu estado, com torcida significativamente menor que a dos outros dois primeiros, o Ferroviário é um time de origem operária que possui uma torcida organizada, a Ultra Resistência Coral, assumidamente anti-capitalista, que leva como lema essas duas frases: “Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes” e “Nada diminui nossa paixão incendiária. Ferroviário, orgulho da classe operária”. A torcida, assim, nega-se a se confrontar com outras e direciona suas forças contra aqueles que realmente merecem.

Resta o desafio àqueles que vêem aí um campo fértil para a transformação social, que é o de lidar com a contradição sempre presente nas organizações populares dos trabalhadores (seja elas para fins explicitamente políticos ou não), que ao mesmo tempo que reafirma o capitalismo, questiona-o. Se, portanto, a transformação dos times de futebol em empresas, e dos torcedores em consumidores, tende a diminuir os conflitos entre as torcidas de futebol, a transformação de alguns desses mesmos clubes em transnacionais pode levar de uma vez por todas à destruição da identidade dos torcedores com os seus clubes. E as torcidas organizadas vão ter que identificar seus verdadeiros inimigos, ou deixar de existir enquanto tal. Passa Palavra

Fontes Consultadas:

Blog do Pulguinha: http://blogpulguinha.blogspot.com/

Resistência Coral: http://br.geocities.com/resistenciacoral/

Blog do Kadj Oman: http://manihot.wordpress.com/

Site da Gaviões da Fiel: http://www.gavioes.com.br/

Trabalho de Graduação Individual de Danilo H. V. Cajazeira, disponível em:http://www.4shared.com/file/101060888/22b819c5/Geografia_s__do_futebol_-_Danilo_H_V_Cajazeira.html.

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Uma matéria de verdade

O Observatório da Imprensa mostrou como se faz.

Repito, deveriam retirar a licença de repórteres que fazem matérias sem apurar as informações. Assim como retiram de motoristas bêbados. Ambos oferecem grande perigo à sociedade.

Leiam:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=541IMQ001 
Matou um igual e foi assistir ao jogo
Por Walter Falceta Jr. em 9/6/2009
 
 
Na virada fria de quarta para quinta-feira (4/6), o repórter Fábio Lucas Neves, da TV Bandeirantes, produzia a típica “matéria de ambiente”, depois do empate sem gols que classificara o Corinthians para a final da Copa do Brasil, em São Paulo. Nas arquibancadas do estádio do Pacaembu, ao buscar os personagens para sua reportagem, percebeu que vários vascaínos estavam feridos e que alguns tinham as roupas tingidas de sangue.
 
Nesse momento, descobriu que algo grave ocorrera cerca de três horas antes. Segundo os torcedores, violento embate fora travado com corintianos nas proximidades da Ponte das Bandeiras, na Marginal Tietê. Os brigões recusaram-se a aparecer diante das câmeras, mas apresentaram alguns troféus da batalha, como bonés, gorros e camisas tomados dos rivais paulistas.
 
Logo, com orgulho selvagem, exibiram ao jornalista uma carteira de associado da Gaviões da Fiel, cuja imagem foi gravada pelo cinegrafista Alexandre Ribeiro, o “Cabeção”. Pertencia a um certo Clayton Ferreira de Souza, que segundo a data de nascimento deveria contar 27 anos de idade. 
 
– Batemos muito, acabamos com ele – jactava-se um fanático cruzmaltino.
 
Em seguida, Neves e o cinegrafista puseram-se a documentar o incêndio que consumia um dos ônibus alugados pelos visitantes. Nesse momento, ignoravam que o corintiano Clayton, um promotor de vendas de supermercado, morador da Vila Industrial, na periferia da Zona Leste paulistana, já estivesse morto. 
 
A causa? Traumatismo cranioencefálico provocado por agente contundente. O rapaz fora espancado até a morte. Tinha o rosto desfigurado e lhe haviam subtraído os documentos, o celular, o cartão de crédito e até as vestes.
 
 
Status de verdade
 
Neves teria seu esforço de reportagem valorizado na tarde de quinta-feira (4), quando o corpo do jovem foi identificado pela família. “De repente, eu vi que o nome era o mesmo”, relata. “Embora eu já cogitasse dessa hipótese, foi um choque.”
 
Esta é apenas uma das inúmeras pontas de uma história de horror cuja coerência escapou à polícia, à promotoria e à grande imprensa. Inúmeras versões chegaram prontamente às páginas dos jornais, às telinhas e telonas, muitas delas tolas ou inverossímeis.
 
Na madrugada de quinta-feira, a Gazeta Esportiva Net decretava:
 
“Um ônibus da torcida do Corinthians sofreu uma emboscada. Palmeirenses e vascaínos, que possuem relação amistosa, atacaram os rivais. O tumulto culminou com a morte de um corintiano.”
 
Em matéria levada ao ar às 12h52, a Agência Estado, apresentava outro enredo para a tragédia, baseado em declarações à TV Globo do major Alfredo Donizete Rodrigues de Souza, subcomandante do 2º Batalhão de Choque da PM paulista: 
 
“O confronto começou por acaso, porque um ônibus de corintianos cruzou com o comboio de vascaínos e eles começaram a se provocar – declarou.”
 
Nesse momento, entretanto, uma terceira versão já fora apresentada à imprensa. Às 13h19, por exemplo, o G1 trazia matéria em que o promotor Paulo Castilho, encarregado de combater a violência nos estádios, acusava os corintianos de terem armado a emboscada. Segundo ele, cerca de 50 torcedores da facção Rua São Jorge, uma dissidência da Gaviões da Fiel, distribuídos em um ônibus e quatro carros de passeio, esperaram pelos vascaínos com barras de ferro e armas de fogo. Os cariocas eram cerca de 650, distribuídos em 15 ônibus.
 
“Eles vieram em paz, mas tiveram que revidar”, declarou o promotor ao diário Lance!. Ao Observatório, afirmou que as outras versões eram fantasiosas. “Esse grupo da Rua São Jorge já havia provocado problemas na Baixada Santista”, disse.
 
A partir desse momento, a narrativa adquiriu status de verdade para a grande imprensa, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A cobertura limitou-se a reproduzir a história do promotor e da delegada encarregada do caso. Por horas, não se encontrou nos canais de informação qualquer testemunho dos torcedores envolvidos no conflito.
 
 
Pautas e fios
 
O promotor Castilho adiantou-se em pedir a “torcida única” nos estádios de futebol. A solicitação foi imediatamente endossada pela Polícia Militar e divulgada nos principais portais de notícias na internet.
 
Parecia findo o rito sumário de construção da notícia. A polícia fizera o possível. A exclusão da presença de adversários restituiria a tranquilidade ao mundo do futebol.
 
À noite, no entanto, a jornalista Leonor Macedo, 26 anos, que hospeda seu blog no site da revista TPM, resolveu expor os resultados de sua investigação jornalística. Depois de ouvir vários torcedores, apresentou outra versão para a ocorrência (ver aqui; outros post sobre o caso no blogeneaotil).
Retidos numa blitz da polícia, nas proximidades do Clube Espéria, os corintianos teriam sido alcançados pelo comboio vascaíno. Em ampla maioria, de dez para um, os cariocas teriam iniciado o massacre. 
 
“Não quero dizer que os paulistas sejam santinhos, mas não me parece razoável que mobilizassem apenas 50 pessoas para enfrentar 500”, diz Leonor. “Também é difícil acreditar que os policiais supostamente presentes não tenham sido capazes de impedir o conflito e evitar os linchamentos.”
 
Segundo a jornalista, é estarrecedor saber que a força policial tenha facultado aos assassinos assistir ao jogo, levando ainda como prêmio os pertences de Clayton. “Também vale questionar a razão pela qual a PM se recusou a realizar a escolta do grupo Rua São Jorge e se essa omissão não os levou a constituir a própria defesa”, afirma. “Tudo isso é vital à compreensão do caso, mas o que se vê é uma cobertura jornalística chapa-branca, de viés conservador e que despreza a informação divergente.”
 
O trabalho pessoal da repórter reacendeu o debate sobre o caso e também sobre a conduta da imprensa ao noticiar o episódio. Na sexta-feira (5/6), pela manhã, o jornalista Luciano Martins tratou do tema no programa radiofônico deste Observatório, na Rádio Cultura, considerando a hipótese de um gravíssimo erro tático da polícia. “A versão oficial, defendida pelo promotor encarregado do caso, é quase inverossímil, mas a imprensa compra a história sem ouvir testemunhas”, afirmou.
 
Na tarde desse mesmo dia, em matéria de destaque, o portal UOL reproduzia sem dissonância a tese da emboscada corintiana e do “potencial violento” da dissidência da Gaviões da Fiel, repetindo informações da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).
 
A redação paulista do diário Lance!, ao contrário, agitava-se no exercício da dúvida e preparava uma matéria especial sobre os enigmas da “batalha da Marginal”. “Essa história é um quebra-cabeças em que as peças definitivamente não se encaixam”, disse Marcel Merguizo, um dos editores do jornal. “Se queremos fazer bom jornalismo, não podemos aceitar simplesmente a versão oficial.”
 
O repórter Rodrigo Vessoni, enroscado em pautas e fios de telefone, buscava escrever sobre o futebol corintiano e, simultaneamente, obter mais informações sobre o conflito. “A história tecida não confere com os fatos”, dizia. “Como é possível que a polícia tenha levado os assassinos até o estádio para assistir ao jogo?”.
 
 
Cultura subterrânea
 
De fato, logo após o conflito, a polícia deteve dezenas de corintianos. Um palmeirense e dois vascaínos prestaram esclarecimentos, na qualidade de testemunhas. Quarenta e oito horas depois da trágica ocorrência, não havia qualquer pista concreta do assassino de Clayton.
 
À hipótese do erro tático somou-se a da negligência. Segundo o promotor Castilho, 22 homens da PM escoltavam o comboio dos cariocas. Nos depoimentos colhidos pelo repórter Fabio Lucas Neves, porém, os vascaínos afirmavam ter chegado ao local do conflito sem qualquer proteção policial. “Acredito na hipótese da emboscada corintiana, mas é fundamental verificar se faz sentido a história contada pelos torcedores do Vasco”, afirmava Neves, no fim da tarde de sexta-feira (5). Até aquele momento, a polícia desprezara seu auxílio nas investigações. 
 
Naquele momento, em casa, Neves se preparava para participar de uma festa junina com a família, mas ainda não havia tirado do pensamento a imagem da carteirinha transformada em troféu. Simultaneamente, na Vila Industrial, a família de Clayton Souza cogitava de processar o Corinthians e o estado de São Paulo. Nos portais de internet, o tema já desaparecera das páginas principais.
 
Matar e espairecer pode constituir-se em evento escandaloso, ainda que menos raro do que se imagina. Entre nós, o entretenimento sucede, com frequência, a infração grave. Não é à toa que se enxerga com certa paralisia complacente a saga do protagonista de Matou a família e foi ao cinema, de Julio Bressane, de 1969, filme cujo apelo temático rendeu um remake, em 1991, dirigido por Neville de Almeida. 
 
Na ficção, como na realidade, nossa cultura subterrânea admite silenciosamente algum crime tido como privado, em que a vítima é o outro distante, e concede ao autor até mesmo o refresco da diversão. Alguém matou um igual e foi ao futebol. Somente isso. Resta saber se esta trama tem fim.
 
*** 
 
Em Tempo
 
1. Na segunda-feira (8/6) à tarde, o repórter Fabio Lucas Neves (que gravou as imagens da carteira de Clayton nas mãos dos vascaínos) ainda não tinha sido contatado pelos responsáveis pelo inquérito.
 
2. Nas edições de sexta, sábado e domingo, os repórteres do diário Lance! publicaram várias reportagens que exibiam as incongruências na versão oficial. Seguiam um caminho de investigação desprezado pela grande imprensa.
 
3. Segundo o promotor Paulo Castilho, não teria ocorrido a visita dos vascaínos à sede dos aliados da torcida Mancha Alviverde. Em sua edição de segunda-feira (8), entretanto, o diário Lance! apresenta links para uma série de vídeos no Youtube que provam esse encontro antes do jogo.
 
4. Fotos do conflito, publicadas em páginas de vascaínos em sites de relacionamento, comprovavam que esses também portavam artefatos explosivos. Essas imagens também mostravam que o comboio carioca havia, sim, ultrapassado o local onde estariam os corintianos.
 
5. Na segunda-feira, ainda não havia qualquer pista dos assassinos de Clayton Souza.

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