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Quando a política e a burocracia valem mais que a vida

Ontem, 03 de junho de 2009, Corinthians e Vasco decidiram no Pacaembu uma das vagas à final da Copa do Brasil. Ontem, 03 de junho de 2009, na Marginal Tietê, mais um torcedor foi vítima da violência que permeia não só o futebol, mas toda a sociedade. Uma violência que as capas de jornal e as telas de TV não demoram em taxar de “irracional”, “gratuita” e “criminosa”, no que até chegam a ter razão em alguns momentos, mas que nunca buscam explicar e compreender na esfera que diz respeito ao que mais importa: a segurança da vida dos torcedores de futebol.

A informação oficial do promotor de justiça Paulo Castilho e do major da Polícia Cipriano Rodrigues, responsáveis pela segurança no jogo de ontem (e no caso do promotor, pelas políticas de segurança relacionados a jogos de futebol em São Paulo), segundo o jornal Lance! de hoje, é de que “15 ônibus com cerca de 800 cruzmaltinos chegaram pela Rodovia Presidente Dutra. Na altura de Guarulhos, eles foram acompanhados por 20 policiais militares de moto”.

Paremos neste ponto. Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que 20 policiais são mais do que insuficientes para fazer a escolta de 800 torcedores. Ainda mais quando, segundo o próprio promotor, sabia-se da intenção de emboscada entre as torcidas, graças à denúncia anônima que ele mesmo recebeu e por conta da qual impediu os vascaínos de deixarem seus ônibus nas sedes de TUP e Mancha Alviverde, torcidas do Palmeiras aliadas às vascaínas. A idéia dos cariocas era ir a pé ao estádio. Paulo Castilho disse à Polícia para não permitir e ordenou a escolta dos ônibus até o Pacaembu.

No caminho, voltando ao texto do Lance!, “eles acessaram a Marginal do Tietê e, quando chegaram à Ponte das Bandeiras, Zona Norte de São Paulo, cruzaram com quatro carros e um ônibus de corinthianos. De acordo com o major Cipriano Rodrigues (…), os vascaínos conseguiram se desvencilhar da escolta. Tiros e pedaços de paus foram usados no conlfito”.

Não bastasse o absurdo que é não perceber o possível cruzamento entre ônibus de torcidas rivais na Marginal Tietê, via mais do que conhecida de acesso ao estádio, faltou ao comandante contar um pouco mais sobre que ônibus e que carros de corinthianos eram esses, e explicar melhor como os integrantes das torcidas chegaram ao confronto.

Fora o já sabido número ridículo de policiais na escolta vascaína, há muitos outros problemas que levaram ao assassinato do torcedor. Comecemos pela própria escolta. Como a Polícia leva 15 ônibus de torcedores até o estádio sem fazer uma revista em seu interior? Se esta foi feita, como não foram descobertas as barras de ferro, pedaços de pau e armas de fogo utilizadas no confronto? Descaso? Despreparo? Ou a mesma falta de entendimento dos torcedores organizados enquanto um coletivo que tem representação social e jurídica perante à sociedade e o tratamento dos mesmos enquanto bandidos e animais a priori, fazendo com que a minoria violenta ganhe o apoio da maioria não-violenta exatamente por esta se sentir mais segura com a segurança pessoal dos próprios companheiros na base da arma de fogo do que com a segurança que deveria ser provida pela Polícia? Qualquer semelhança com a relação entre moradores de periferia e traficantes que “protegem” a comunidade não é mera coincidência; qualquer relação com o resultado do plebiscito sobre o porte de armas de fogo realizado anos atrás, também não.

Além disso, a Polícia credita aos torcedores corinthianos a intenção da emboscada, por ter encontrado com estes as já citadas barras de ferro e armas de fogo. Os mesmos 60 e poucos que vinham em um ônibus e quatro carros e que foram presos após o confronto pelo porte das armas e por tentativa de homicídio, juntos aos vascaínos envolvidos. Agora, dá mesmo para acreditar que 60 e poucas pessoas buscavam emboscar 800? Ou será que é mais fácil omitir informações sobre essas 60 pessoas? Como aqui a intenção é contextualizar ao invés de pintar um cenário apocalíptico e irracional como de costume, vamos a elas.

A pequena caravana corinthiana era composta por membros do Movimento Rua São Jorge. Um grupo de associados da Gaviões da Fiel que se indignou com algumas práticas às quais são contrários na quadra da torcida – como corrupção – e passou a se encontrar na Rua São Jorge para ir aos jogos. Grupo esse que conta com diversas lideranças importantes da Gaviões e que, entre outras coisas, promoveu um seminário sobre torcidas organizadas envolvendo jornalistas, políticos e torcedores buscando colocar as torcidas como o que deveriam ser, representantes do torcedor no mundo do futebol, a lutar contra o preço dos ingressos e a condição indigna a que são submetidos jogo a jogo, por exemplo. Em outras palavras, lutam para serem entendidos e respeitados como um movimento social, e não meros consumidores.

Iam ao jogo de ontem, como sempre, sem escolta, porque a Polícia Militar simplesmente não os reconhece enquanto torcida – apesar de serem sócios ativos da Gaviões da Fiel – já que não tem CNPJ. Enquanto um grupo pequeno em relação aos “bondes” já estabelecidos há tempos por todas as outras organizadas, e por concentrarem várias lideranças da Gaviões, são sempre alvo de ataques e emboscadas – muitas já denunciadas pela mídia afora. Algo que a Polícia e a Secretaria de Segurança Pública preferem ignorar burocraticamente – até que coisas como o que passou ontem aconteçam. E aconteçam, neste caso, porque a Polícia parou os corinthianos para revistá-los a uma distância de 100 metros dos vascaínos, segundo um torcedor que estava no ônibus corinthiano. Além da completa falta de comunicação e planejamento, se fez presente como sempre o descaso com o torcedor organizado, tratado como lixo, e com a vida – o que infelizmente não é de se estranhar quando estamos falando da mesma Polícia que protagonizou cenas como o massacre do Carandiru. A organizada, transformada em sujeito, atravessa a própria condição dos sujeitos pertencentes a ela, que não são mais pessoas, apenas números e nomes na lista de envolvidos e mortos.

Não se justifica encontrar entre torcedores que vão a um estádio de futebol barras de ferro e revólveres. Mas a explicação para isso não é simplesmente algum tipo de vontade sociopata de matar presente em todos eles. Cada vez mais, as políticas em relação aos estádios vão no sentido de isolá-los, excluí-los, elitizar as arquibancadas e passar a imagem do estádio enquanto um ambiente seguro e tranquilo a ser consumido – por quem pode pagar R$ 4,00 num simples churros e ir a jogos às 21h50 de uma quarta-feira. O problema, que as autoridades terão de enfrentar em algum momento, é que o jogo não se resume – nunca se resumiu – ao espaço do estádio. O futebol está presente por toda a cidade, ainda mais em dias de jogos, e tentar reduzí-lo ao estádio não é um risco, é uma opção política, uma orientação que tem o mesmo sentido daquela que permite a certos grupos espancar e matar moradores sem-teto no centro da cidade, e retirá-los de prédios ocupados usando de força desmedida, mesmo contra mulheres, crianças e idosos.

Hoje, há dezenas de pessoas hospitalizadas, algumas com ferimentos a bala. E como já se sabe amplamente, uma pessoa, ainda não identificada, foi espancada até a morte e deixada na Praça Campos de Bagatelle, palco recente da comemoração de títulos conquistados pelos clubes paulistanos. Apenas de cueca, sem documentos e com o rosto completamente desfigurado. Uma estratégia comum no mundo do tráfico de drogas – assim como o incêndio do ônibus vascaíno em represália acontecido durante o jogo, que não se compara em nada à morte do torcedor – a destruição de um patrimônio material nunca é mais importante do que a perda de uma vida. E os meios de comunicação, como sempre, noticiarão o caso em sua maioria como uma simples briga de gangue, darão voz aos que querem o banimento das torcidas organizadas, aos jogos de uma torcida só – os mesmos que não sabem, ou fingem não saber, que o São Paulo x Corinthians da primeira fase do Paulistão, aquele em que vigorou pela primeira vez a restrição de 5% às torcidas visitantes, registrou número recorde de ocorrências pela cidade desde aquele São Paulo x Palmeiras pela Copa São Paulo de Juniores em que um torcedor foi morto a pauladas dentro de campo – cena repetida milhões de vezes pelos canais de televisão até hoje.

Em 2014, o Brasil sediará uma Copa do Mundo. São Paulo, provavelmente, será o palco da abertura e, com certeza, de diversos jogos importantes. Até lá, como estarão as medidas de segurança pública em dias de jogos? E a condição dos torcedores, organizados ou não? Caminharemos para o mesmo destino do Rio de Janeiro, com seu Pan-Americano que retirou moradores de rua às pressas para a vistoria do COI e que deixou de herança elefantes brancos, construídos com dinheiro público, prestes a serem prrivatizados a preço de banana? Ou há força suficiente para nos organizarmos por uma Copa que seja realmente nossa, da qual façamos parte, sobre a qual sejamos consultados – como deveríamos ser sempre quando se trata de medidas de segurança pública?

Se a mídia, que tem o dever de informar, quase sempre não o faz com a clareza e a crítica necessária, que ao menos textos como este e ações que sigam na direção de acabar com as mortes e a exclusão social sejam difundidos de todas as formas possíveis. Se ele chegou até você, leia. Pare, reflita, critique, encaminhe. Que começemos a criar, de todas as formas ao nosso alcance, um fórum de discussão sobre estes assuntos. Dizem respeito às nossas vidas. E podem determinar, como ontem, a nossa morte um dia.

Que, a partir de hoje, nenhum episódio sequer de violência passe despercebido e sem ser denunciado no seu conteúdo total. É este o desejo de quem escreve este texto. Porque escrever é muito mais do que saber juntar palavras – ainda mais quando se ganha pra isso.

Kadj Oman
DHVCorinthians

04/06/2009

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Sobrenatorale di Alamedanezzi

O reloj marca 42 minutos da segunda etapa em Santiago.

A hinchada local é pura festa.

Apertada num canto pequeno de mais de 8 milhões de metros quadrados, a torcida brasileira se espreme em apreensão.

Seu time tem um jogador a menos. E precisa da vitória. 

Seu camisa 10 tem a bola na intermediárea.

Ele balança em frente ao marcador, pra esquerda, pra direita, cabeça baixa. De repente, chuta.

Um chute despretensioso, sem olhar, que parece fraco.

Mas a bola, inexplicavelmente, resolve afrontar a lei da gravidade e ganha altura.

Como que se erguida por um fio invisível, num teatro dos sonhos alviverde.

Muñoz, o goleiro chileno, a segue com os olhos.

Quando percebe que ruma em direção ao seu ângulo esquerdo, é tarde.

Ele salta, mas a bola, ainda se recusando a cair, como que flutuando num último esforço heróico, toca na palma de suas mãos e encontra as redes.

Um golaço.

De Sobrenatural de Almeida, diria Nelson Rodrigues.

De Sobrenatorale di Alamedanezzi, peço licença eu.

De Cleiton Xavier, dirão os jornais brasileiros e chilenos.

Arrepiando os pêlos do braço deste corinthiano fanático que vos fala.

Porque o Palmeiras vence – heresia! – a la Corinthians.

Que me desculpem os amigos da academia.

Que me desculpem os amigos fiéis.

Mas o gol palmeirense trespassou os limites da rivalidade e me pôs contente.

Assim como o gol de Ronaldo domingo, tenho certeza, alegrou muitos dos que não vestem alvinegro.

Quando o agora relógio marca 47, o sorriso de São Marcos ao buscar a bola para bater o que será provavelmente seu último tiro de meta na noite diz mais do que qualquer manchete ou texto – incluindo este – poderá dizer hoje.

É o sorriso da superação. Do último minuto. Do inexplicável.

Que nós, alvinegros, tão bem sabemos portar.

E que os amigos alviverdes, com certeza, se orgulharão de exibir hoje pelas ruas.

Um sorriso que só o futebol, essa tragédia grega dos tempos modernos, essa narrativa da vida como ela é, é capaz de proporcionar.

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De volta

Estive na Argentina e não escrevi por aqui.

Aos poucos vou retomando os textos, até porque há muito o que falar: Corinthians x Santos e a confusão com a PM, a experiência que tive na Bombonera, esse tal “RG do torcedor” e por aí vai.

Por enquanto, pra recomeçar, um texto do amigo Vinícius Favela, palmeirense que presenciou uma cena comprovadora de como usamos nossos jogadores e jogamos fora quando não servem mais.

Torcedores deveriam lutar para que seus clubes não deixassem a memória de seus ídolos, que construíram sua história, se transformassem em puro discurso sem ação, do tipo que deixa o ex-jogador desamparado quando ele mais precisa.

Leiam.

Uma cena emocionante… e lamentável.

 por Vinícius Favela

Ontem, terça-feira, fui mais uma vez nessa temporada ao Palestra Itália assistir ao jogo do Palmeiras junto com meu irmão mais novo.

Não como de costume, cheguei bem cedo (às 17h00min, sendo que o jogo iniciava às 19h30min), comprei meu ingresso e, como estava muito cedo, fui à loja oficial do Palmeiras que tem no próprio Palestra. Estava lá vendo as coisas e, de repente, vejo uma pessoa que não me parecia estranha. Quando ela vira de frente, não tinha como não reconhecer: Amaral, ex-coveiro e jogador do verdão.

Pra minha surpresa, ele estava comprando uma camisa do Palmeiras:

 – Amigo, você tem a número 8? Eu quero escrever meu nome também.

 Fiquei observando e, meio confuso, falei pro meu irmão ir lá tirar uma foto com ele. Era só um pretexto, afinal, fiquei confuso com a cena e questionei-o:

 – Oi Amaral, tudo bem? Você está comprando uma camisa do Palmeiras?

– Opa, eu estou sim…

 Permaneci em silêncio por alguns instantes e o vi pegando o seu cartão de crédito:

 – Amaral, você vai…. É…. Hum… Pagar a camisa?

 Ele me olhou meio desconfiado e tão confuso quanto eu e disse:

 – Sim… Por quê?

– Por que!?!? Bom… Nada, deixa pra lá.

 E fui embora, pensando que um cara como o Amaral precisa ir numa loja e comprar uma camisa do Palmeiras pra ele. Fiquei emocionado pela sua atitude, pensando que ele realmente deve ser Palmeirense, porém, indignado por ele precisar comprar uma camisa pra usar… É lamentável como os ex-jogadores (de qualquer clube) são tratados.

O Palmeiras deveria dar, no mínimo, uma camisa sempre que o Amaral pedisse.

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Ronaldo do povo

Ronaldo entrou aos 18 do segundo tempo do dérbi.

Poderiam ter sido do primeiro, fosse Mano Menezes menos covarde.

Driblou, chutou, cruzou e, enfim, marcou.

Porque quem sabe jogar bola não esquece, mesmo com quilos a mais – sejam eles gordura ou músculo.

Principalmente quando quer, algo que ele demonstrou desde que escolheu o Corinthians como projeto, quando poderia ter ido apenas curtir a vida e ganhar dinheiro em qualquer clube mediano da Europa.

Preferiu estar em casa.

O gol aos 47′ foi das maiores unanimidades já vistas pelas ruas da cidade em termos de comemoração fora de uma Copa do Mundo.

Um amigo santista disse que nunca tinha se emocionado antes com um gol que não tivesse sido do Santos ou do Brasil.

Outro são-paulino afirmou que se arrepiou todinho.

E até mesmo um palmeirense concordou que por mais que doa na alma tomar um gol do maior rival nos acréscismos do segundo tempo, foi bonito.

Pelas ruas da Vila dos Remédios, onde assisti ao jogo, as pessoas saíam às ruas após o apito final, gritando, cantando, enlouquecidas. Mesmo algumas não-corinthianas.

No centro, onde moro, minha mulher disse nunca ter visto tamanha gritaria, ainda mais com um gol do Corinthians.

Até minha avó, que, aos 88 anos, criticou desde o começo as “mordomias de Rei-naldo”, me ligou, emocionada, dizendo não ter visto algo tão lindo desde a Copa de 94.

O que se explica pela figura do camisa 9.

Mais que um jogador, mais que um ídolo, uma personagem que representa o povo.

Que começou cedo, despontou como craque, ganhou o mundo, teve o corpo prejudicado pelo trabalho (ou melhor, pela idéia de trabalho de alguns preparadores físicos que transformam jogadores em monstros musculares, mesmo quando a estrutura óssea não é capaz de segurar), voltou duas vezes a jogar contra tudo e todos e que, agora, volta ao país para, aos 32 anos, em um fim precoce de carreira, como a de Garrincha, Zico e tantos outros, mostrar que é um guerreiro, um batalhador, como outros tantos milhões país afora.

Como não esperar que o motoboy pai de família aos 20, desempregado, sem dinheiro, que luta dia após dia por sobrevivência não se identifique com sua história?

Ou a dona-de-casa laboriosa, que se sacrifica pra criar os filhos, dar a eles uma vida digna num país que se esforça em ser cada vez mais indigno para com quem trabalha, não vibre de alegria com o gol do filho que também é seu?

Não à toa, o Fenômeno, sempre frio e comedido nos gols e comemorações, extravasou no alambrado.

Porque o momento do gol  não poderia ser outro. 

Na bacia das almas, com a torcida adversária (ou pelo menos parte dela) gritando “silêncio na favela”.

A bola, ao estufar as redes, significou mais que o empate. Significou que quanto mais perto do fim se pensa estar, quando se fala de Ronaldo e de povo, sempre há espaço para um recomeço.

A favela não se cala nunca.

E ele ficou louco, mais um no bando.

Bando que derrubou o alambrado, saiu às janelas e às ruas, comemorou a vitória de quem enfrenta toda série de obstáculos rotineiramente no dia-a-dia.

Porque está em Ronaldo, e Ronaldo está nele.

Retrato falado, cuspido e escarrado do Brasil.

***

Ouça aqui e veja aqui o gol do povo.

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Ronaldo e as mulheres

Acabou a alguns minutos Itumbiara e Corinthians, a partida que marcou a volta aos campos pelo lado alvinegro, após um ano parado, do maior artilheiro da história das Copas do Mundo, Ronaldo “Fenômeno”.

Sobre o jogo, pra além da fastidiante algazarra em cima do camisa 9 do Corinthians, algumas coisas merecem ser notadas.

Pelo lado do mandante, Denílson provou que ainda poderia fazer parte do elenco do Palmeiras e que talvez fosse melhor alternativa ofensiva em jogos onde a experiência pesa (como os da Libertadores) do que Lenny e Marquinhos.

Provou também que continua sendo um exímio palhaço na arte de tentar ludibriar o árbitro.

Túlio e Caíco não disseram a que vieram.

Ávalos mostrou a boa marcação de sempre, e falta de técnica idem.

E o time do Itumbiara mostrou que experiência de um elenco como o seu serve pra endurecer jogos contra times grandes, mas também acaba por acusar a falta de fôlego quando este é necessário em caso de sair perdendo.

Pelo lado do Corinthians, os dois jogadores mais displicentes do elenco resolveram o jogo: Jorge Henrique cavando um pênalti e André Santos em lindo – e raro – chute de pé direito.

Otacílio Neto provou de vez que lhe falta cérebro, a todo tempo.

Morais entrou bem, enquanto Dentinho ainda segue apagado.

Douglas alternou momentos de camisa 10 com sumiços inexplicáveis, mas o fato de ajudar na marcação faz com que o 4-2-3-1 ofensivo de Mano Menezes funcione bem também defensivamente – não sem alguns sustos.

Cristian foi o mesmo cão de guarda de sempre e a dupla de zaga Chicão e Willian mostrou que está mesmo afim de se tornar a melhor do Brasil.

E por fim, Ronaldo, claro.

Que mostrou ansiedade em entrar e, uma vez em campo, tranquilidade em agir.

Que se movimentou, que esteve bem colocado e que não fez gol porque Douglas não quis passar a bola.

E que ainda está fora de ritmo e de forma, o que não o impede de mostrar técnica e intelgiência – acumulada com as lesões que diminuíram sua velocidade e com a experiência.

O Corinthians, por fim, demonstrou antes e após a entrada de Ronaldo que está se tornando aquilo que o futebol brasileiro tem consagrado nos últimos anos: um time pragmático, que cadencia o jogo, que tem paciência pra definí-lo.

E que não mudou o jeito de jogar por conta do Fenômeno.

Nada de tentar desesperadamente dar a bola pra ele a todo custo – como dito, inclusive, quando era pra dar, não deram.

Mas calma e paciência quase argentinas, características das equipes de Mano Menezes.

Não à toa, o time não empolgou este ano – ouso dizer que não empolgará tão cedo.

Mas é o único paulista ainda invicto, tem um sistema defensivo sólido (quando titular) e não perde em casa há meses.

Não foi assim que o São Paulo se tornou tricampeão brasileiro?

No Derby de domingo, mais uma vez, estarão frente a frente os estilos de jogo que nos últimos anos marcaram uma difícil escolha para o torcedor:

o que é melhor, vencer ou jogar?

Mas, pra terminar, voltando à partida de hoje, marcaram o jogo também as torcidas.

A do Itumbiara pelo alto número de torcedores, uma agradável surpresa. Difícil um time pequeno manter torcedores fiéis em um país onde a mídia simplesmente os ignora até o momento em que cruzam o caminho de um grande – quantos sabiam ao menos as cores do Itumbiara antes das 21h45 de hoje?

E a do Corinthians porque sempre que sua parte mais festiva e personalista entoou “Ronaldo”, obteve a resposta guerreira e coletivista da parte que sempre entoa apenas “Corinthians”.

Se depender de mim, que vença a segunda parte – futebol é um esporte coletivo, e todo clube é sempre maior que qualquer jogador, mesmo Pelé ou Maradona.

Até porque com o dinheiro de um Ronaldo daria pra ter mantido Juliana Cabral no time feminino e ainda garantido sua existência e incrementado sua estrutura por mais de ano, mostrando que no time do povo, homens e mulheres tem o mesmo peso.

Aí, um 8 de março de Corinthians x Palmeiras seria muito mais interessante e significativo.

Porque seria também um 8 de março de mais igualdade entre homens e mulheres.

Pelo menos dentro de campo.

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Derby

E na semana do Derby, posts não faltarão.

A começar por este.

Que tem duas partes: a primeira é de denúncia do péssimo serviço prestado pela BWA, comprovado por Leandro Iamin em seu blog.

É inadmissível que uma empresa coloque apenas UM guichê pra atender aos torcedores que desejam comprar ingressos.

O desrespeito foi tanto que muita gente desistiu.

Quando não é o preço dos ingressos que é exorbitante, é o serviço de venda que é um lixo.

E os clubes compactuam com isso.

A torcida precisa cobrar por mudanças nesse sentido.

Sem falar no fato do jogo ser em Presidente Prudente, que será abordado em outro post.

A segunda parte do blog é reservada a um caso curioso: o dia em que palmeirenses torceram para o Corinthians e corinthianos para o Palmeiras, em pleno clássico.

Do excelente blog do AA Anhangüera:

Corinthians X Palmeiras

Há um jogo entre Palmeiras e Corinthians que não consta nos dados oficiais e nem teve a repercussão merecida; um dos grandes jogos da história do clássico. Poderia até ter saído uma nota no finado diário A Gazeta Esportiva, quando o futebol amador ainda era vitrine para clubes grandes e craques despontavam nas peladas. Isso mesmo; foi um jogo de várzea. E como nessas águas eu remo com um remo só – modéstia às favas -, vou relatar aqui este que foi um jogaço. Muito embora esquisito, foi um jogaço.

Em meados dos anos 50, num domingo de manhã num campo na Mooca, jogaram Corinthians do Bom Retiro e Palmeiras da Penha. Não só nos nomes esses times homenageavam os dois maiores da cidade. As cores, o uniforme, o símbolo, enfim, tudo remetia aos grandes. Abundavam pela cidade times assim. Se Portuguesa havia mais de 20, imaginem Palmeiras e Corinthians!

No jogo em questão havia, entretanto, um porém. O Bom Retiro de baixo (da Rua Sólon até a Marginal), onde ficava a sede do Corintinha, na época, era predominado por italianos que, obviamente, eram palmeirenses – até hoje os velhos se denominam palestrinos. A Penha também era um bairro essencialmente italiano, mas a partir da década de 40 a grande maioria dos migrantes nordestinos se alocou ali – da região do Brás pra dentro da Zona Leste -, além dos negros que estavam sendo afastados da região central. Com o preconceito sofrido pelos carcamanos, os “baianos”, em sua maioria, preferiram o Corinthians.

O fato de um corinthiano torcer pelo Palmeiras da Penha, o time do seu bairro, possivelmente até de sua rua, não justificava vergar a camisa alviverde; exceção restrita aos jogadores. No caso dos palmeirenses do Bom Retiro, idem. Vestir alvinegro, jamais! A várzea vivia então seus tempos áureos, os bairros eram representados pelos seus times e as torcidas eram fanáticas. Quando o jogo era entre times de bairros distintos todo mundo ia torcer. Neste dia, por exemplo, muita gente que era Anhangüera, Nacional, Junqueira, Marconi, Bola Preta, XV de Novembro, Grajaú, etc., foi torcer pelo Corintinha; afinal de contas, além de seus amigos estarem em campo, não se costumava perder grandes jogos, como tal.

O que se viu foi uma desordem generalizada e sem precedentes. No dia do prélio, mais de 1.000 expectadores, dizem os relatos, lotaram o campo da Mooca. A turma do Bom Retiro foi em peso torcer para o Corintinha e o pessoal da Penha para o Palmeirinha. Tudo normal, não fosse pelo jogo que aconteceria a tarde no Pacaembu pelo Campeonato Paulista: Corinthians e Palmeiras. Muita gente sairia da Mooca direto pra o estádio municipal. Foi isso que causou a confusão; na torcida do Corintinha predominavam torcedores com camisa do Palmeiras e na torcida do Palmeirinha as camisas do Timão eram maioria.

O Corintinha fazia um gol, os palmeirenses comemoravam; e vice-versa. Os jogadores, totalmente atordoados, não sabiam com que torcida comemorar. Um jogador do Palmeirinha foi pro alambrado comemorar com a torcida “palmeirense” e levou uma cusparada na cara. A cena pitoresca justificou o ditado de que a banana estava comendo o macaco. Na mesa de jogo de sueca, os velhos sempre quietos, ranzinzas, riam achando tudo aquilo engraçado. A mulher do português que arrendava o bar do clube desistiu de vez de entender alguma coisa sobre o futebol. Um bêbado tentou invadir o campo e “destrocar” as camisas dos jogadores; pregava, austero, que “ainda não acabou o jogo. Por que já trocaram as camisas?”.

Após mais de 50 anos não existem mais registros do prélio, somente depoimentos das testemunhas. A única certeza é que o jogo terminou 3 a 2. O problema é que não se sabe mais pra quem, uns dizem que foi o Palmeirinha, outros dizem o contrário. É certo que a confusão das camisas nas torcidas confundiu as memórias no Tempo. Pra mim, meus caros, o resultado da partida foi o único da história a contrariar a impossibilidade; o que se deu foi uma retumbante vitória de Corinthians e Palmeiras.

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Dona Zica

O Rio de Janeiro conheceu o maior gênio da música brasileira.

Angenor de Oliveira, ou Cartola, escreveu e musicou as mais belas poesias já ouvidas neste país.

Nasceu pobre, cresceu pobre, viveu quase anônimo e morreu pobre.

Nesse meio tempo, casou com Dona Zica, com quem fundou o bar “Zicartola”, que foi à bancarrota porque toda a boemia sambista carioca bebia lá de graça e os donos não conseguiam cobrá-los – eram amigos.

Mas esse começo é só um gancho, um trocadilho, uma espécie de piada pronta pro que vem a seguir.

Acontece que meu coração ficou frio que ontem fui passear com a cachorra e, na volta, já quase na rua de casa, escutei gritos de torcida.

Eram 18h30, então pensei que estavam os palmeirenses rumando pela Av. São João sentido Palestra Itália.

Só que os gritos eram estranhos, pareciam em espanhol, e mesmo com a mania (mais brasileira do que tudo) de descaracterizar e descontextualizar as hinchadas argentinas que acontece a todo vapor por aqui, a sonoridade era mais pra castelhano do que pra portunhol.

Eis que, então, na esquina de casa, hospedados no albergue que ali fica, estão nada mais, nada menos do que os pouco mais de 30 torcedores do Colo-Colo que tinham vindo para o jogo.

Poucos, porém loucos, como gostam de dizer.

Me aproximei com a intenção de lhes dar o aviso de que ali era passagem de palmeirenses, mas logo depois de fazê-lo pensei “eles devem estar acostumados a ir em jogos fora de casa, quem sou eu pra falar alguma coisa”, e achei melhor trocar idéias com los hermanos.

Disse a eles que era corinthiano, que queria ver um jogo do Colo-Colo quando fosse ao Chile, quem sabe a volta contra o Palmeiras, já que estarei pela Argentina entre 14 e 26 de março, e então me questionaram:

– Pero vas a hinchar por Colo-Colo?

E eu:

– CLAAAAAAARO!

E a partir de então me tornei um hermano dos chilenos.

Antes de seguir meu rumo, desejei -lhes boa sorte e “que gañen hoy”, mesmo não acreditando muito que isso fosse acontecer, uma vez que o time do Palmeiras está(va?) jogando muita bola.

Horas mais tarde, porém, assistindo ao jogo no bar enquanto comemorava os 88 anos de minha corinthianíssima vó, percebi que, sem querer querendo, me parece que incorporei Dona Zica.

E Sebastian “Chamagol” González resolveu deixar nas memórias dos hinchas chilenos a imagem de “un brasileño flaquito, con una perrita muy rica, que encontramos por las calles de San Pablo y que nos dió mucha suerte”…

Amigos palmeirenses, juro que eu não queria.

Juro.

Por Wanderley Luxemburgo.

E relaxem porque domingo não tem Chamagol, viu, Diego Souza?

Em compensação…

Me aguardem...

Me aguardem...

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