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Sobrenatorale di Alamedanezzi

O reloj marca 42 minutos da segunda etapa em Santiago.

A hinchada local é pura festa.

Apertada num canto pequeno de mais de 8 milhões de metros quadrados, a torcida brasileira se espreme em apreensão.

Seu time tem um jogador a menos. E precisa da vitória. 

Seu camisa 10 tem a bola na intermediárea.

Ele balança em frente ao marcador, pra esquerda, pra direita, cabeça baixa. De repente, chuta.

Um chute despretensioso, sem olhar, que parece fraco.

Mas a bola, inexplicavelmente, resolve afrontar a lei da gravidade e ganha altura.

Como que se erguida por um fio invisível, num teatro dos sonhos alviverde.

Muñoz, o goleiro chileno, a segue com os olhos.

Quando percebe que ruma em direção ao seu ângulo esquerdo, é tarde.

Ele salta, mas a bola, ainda se recusando a cair, como que flutuando num último esforço heróico, toca na palma de suas mãos e encontra as redes.

Um golaço.

De Sobrenatural de Almeida, diria Nelson Rodrigues.

De Sobrenatorale di Alamedanezzi, peço licença eu.

De Cleiton Xavier, dirão os jornais brasileiros e chilenos.

Arrepiando os pêlos do braço deste corinthiano fanático que vos fala.

Porque o Palmeiras vence – heresia! – a la Corinthians.

Que me desculpem os amigos da academia.

Que me desculpem os amigos fiéis.

Mas o gol palmeirense trespassou os limites da rivalidade e me pôs contente.

Assim como o gol de Ronaldo domingo, tenho certeza, alegrou muitos dos que não vestem alvinegro.

Quando o agora relógio marca 47, o sorriso de São Marcos ao buscar a bola para bater o que será provavelmente seu último tiro de meta na noite diz mais do que qualquer manchete ou texto – incluindo este – poderá dizer hoje.

É o sorriso da superação. Do último minuto. Do inexplicável.

Que nós, alvinegros, tão bem sabemos portar.

E que os amigos alviverdes, com certeza, se orgulharão de exibir hoje pelas ruas.

Um sorriso que só o futebol, essa tragédia grega dos tempos modernos, essa narrativa da vida como ela é, é capaz de proporcionar.

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Ronaldo do povo

Ronaldo entrou aos 18 do segundo tempo do dérbi.

Poderiam ter sido do primeiro, fosse Mano Menezes menos covarde.

Driblou, chutou, cruzou e, enfim, marcou.

Porque quem sabe jogar bola não esquece, mesmo com quilos a mais – sejam eles gordura ou músculo.

Principalmente quando quer, algo que ele demonstrou desde que escolheu o Corinthians como projeto, quando poderia ter ido apenas curtir a vida e ganhar dinheiro em qualquer clube mediano da Europa.

Preferiu estar em casa.

O gol aos 47′ foi das maiores unanimidades já vistas pelas ruas da cidade em termos de comemoração fora de uma Copa do Mundo.

Um amigo santista disse que nunca tinha se emocionado antes com um gol que não tivesse sido do Santos ou do Brasil.

Outro são-paulino afirmou que se arrepiou todinho.

E até mesmo um palmeirense concordou que por mais que doa na alma tomar um gol do maior rival nos acréscismos do segundo tempo, foi bonito.

Pelas ruas da Vila dos Remédios, onde assisti ao jogo, as pessoas saíam às ruas após o apito final, gritando, cantando, enlouquecidas. Mesmo algumas não-corinthianas.

No centro, onde moro, minha mulher disse nunca ter visto tamanha gritaria, ainda mais com um gol do Corinthians.

Até minha avó, que, aos 88 anos, criticou desde o começo as “mordomias de Rei-naldo”, me ligou, emocionada, dizendo não ter visto algo tão lindo desde a Copa de 94.

O que se explica pela figura do camisa 9.

Mais que um jogador, mais que um ídolo, uma personagem que representa o povo.

Que começou cedo, despontou como craque, ganhou o mundo, teve o corpo prejudicado pelo trabalho (ou melhor, pela idéia de trabalho de alguns preparadores físicos que transformam jogadores em monstros musculares, mesmo quando a estrutura óssea não é capaz de segurar), voltou duas vezes a jogar contra tudo e todos e que, agora, volta ao país para, aos 32 anos, em um fim precoce de carreira, como a de Garrincha, Zico e tantos outros, mostrar que é um guerreiro, um batalhador, como outros tantos milhões país afora.

Como não esperar que o motoboy pai de família aos 20, desempregado, sem dinheiro, que luta dia após dia por sobrevivência não se identifique com sua história?

Ou a dona-de-casa laboriosa, que se sacrifica pra criar os filhos, dar a eles uma vida digna num país que se esforça em ser cada vez mais indigno para com quem trabalha, não vibre de alegria com o gol do filho que também é seu?

Não à toa, o Fenômeno, sempre frio e comedido nos gols e comemorações, extravasou no alambrado.

Porque o momento do gol  não poderia ser outro. 

Na bacia das almas, com a torcida adversária (ou pelo menos parte dela) gritando “silêncio na favela”.

A bola, ao estufar as redes, significou mais que o empate. Significou que quanto mais perto do fim se pensa estar, quando se fala de Ronaldo e de povo, sempre há espaço para um recomeço.

A favela não se cala nunca.

E ele ficou louco, mais um no bando.

Bando que derrubou o alambrado, saiu às janelas e às ruas, comemorou a vitória de quem enfrenta toda série de obstáculos rotineiramente no dia-a-dia.

Porque está em Ronaldo, e Ronaldo está nele.

Retrato falado, cuspido e escarrado do Brasil.

***

Ouça aqui e veja aqui o gol do povo.

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