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Ronaldo e as mulheres

Acabou a alguns minutos Itumbiara e Corinthians, a partida que marcou a volta aos campos pelo lado alvinegro, após um ano parado, do maior artilheiro da história das Copas do Mundo, Ronaldo “Fenômeno”.

Sobre o jogo, pra além da fastidiante algazarra em cima do camisa 9 do Corinthians, algumas coisas merecem ser notadas.

Pelo lado do mandante, Denílson provou que ainda poderia fazer parte do elenco do Palmeiras e que talvez fosse melhor alternativa ofensiva em jogos onde a experiência pesa (como os da Libertadores) do que Lenny e Marquinhos.

Provou também que continua sendo um exímio palhaço na arte de tentar ludibriar o árbitro.

Túlio e Caíco não disseram a que vieram.

Ávalos mostrou a boa marcação de sempre, e falta de técnica idem.

E o time do Itumbiara mostrou que experiência de um elenco como o seu serve pra endurecer jogos contra times grandes, mas também acaba por acusar a falta de fôlego quando este é necessário em caso de sair perdendo.

Pelo lado do Corinthians, os dois jogadores mais displicentes do elenco resolveram o jogo: Jorge Henrique cavando um pênalti e André Santos em lindo – e raro – chute de pé direito.

Otacílio Neto provou de vez que lhe falta cérebro, a todo tempo.

Morais entrou bem, enquanto Dentinho ainda segue apagado.

Douglas alternou momentos de camisa 10 com sumiços inexplicáveis, mas o fato de ajudar na marcação faz com que o 4-2-3-1 ofensivo de Mano Menezes funcione bem também defensivamente – não sem alguns sustos.

Cristian foi o mesmo cão de guarda de sempre e a dupla de zaga Chicão e Willian mostrou que está mesmo afim de se tornar a melhor do Brasil.

E por fim, Ronaldo, claro.

Que mostrou ansiedade em entrar e, uma vez em campo, tranquilidade em agir.

Que se movimentou, que esteve bem colocado e que não fez gol porque Douglas não quis passar a bola.

E que ainda está fora de ritmo e de forma, o que não o impede de mostrar técnica e intelgiência – acumulada com as lesões que diminuíram sua velocidade e com a experiência.

O Corinthians, por fim, demonstrou antes e após a entrada de Ronaldo que está se tornando aquilo que o futebol brasileiro tem consagrado nos últimos anos: um time pragmático, que cadencia o jogo, que tem paciência pra definí-lo.

E que não mudou o jeito de jogar por conta do Fenômeno.

Nada de tentar desesperadamente dar a bola pra ele a todo custo – como dito, inclusive, quando era pra dar, não deram.

Mas calma e paciência quase argentinas, características das equipes de Mano Menezes.

Não à toa, o time não empolgou este ano – ouso dizer que não empolgará tão cedo.

Mas é o único paulista ainda invicto, tem um sistema defensivo sólido (quando titular) e não perde em casa há meses.

Não foi assim que o São Paulo se tornou tricampeão brasileiro?

No Derby de domingo, mais uma vez, estarão frente a frente os estilos de jogo que nos últimos anos marcaram uma difícil escolha para o torcedor:

o que é melhor, vencer ou jogar?

Mas, pra terminar, voltando à partida de hoje, marcaram o jogo também as torcidas.

A do Itumbiara pelo alto número de torcedores, uma agradável surpresa. Difícil um time pequeno manter torcedores fiéis em um país onde a mídia simplesmente os ignora até o momento em que cruzam o caminho de um grande – quantos sabiam ao menos as cores do Itumbiara antes das 21h45 de hoje?

E a do Corinthians porque sempre que sua parte mais festiva e personalista entoou “Ronaldo”, obteve a resposta guerreira e coletivista da parte que sempre entoa apenas “Corinthians”.

Se depender de mim, que vença a segunda parte – futebol é um esporte coletivo, e todo clube é sempre maior que qualquer jogador, mesmo Pelé ou Maradona.

Até porque com o dinheiro de um Ronaldo daria pra ter mantido Juliana Cabral no time feminino e ainda garantido sua existência e incrementado sua estrutura por mais de ano, mostrando que no time do povo, homens e mulheres tem o mesmo peso.

Aí, um 8 de março de Corinthians x Palmeiras seria muito mais interessante e significativo.

Porque seria também um 8 de março de mais igualdade entre homens e mulheres.

Pelo menos dentro de campo.

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Majestoso: a torcida se levanta

Parece que o acontecido no Corinthians x São Paulo último não passará em branco.

Recebi o comunicado abaixo via email.

É dever de todos que lutam contra a impunidade divulgar.

E é mais dever ainda dos que foram ao jogo participar da ação.

***

Atenção rapaziada dos Gaviões, iremos ingressar uma ação coletiva contra o SPFC e Federação Paulista de Futebol. Menciono que não haverá custo algum a todos membros e não membros do nosso movimento, pedimos a gentileza que sejam separadas as xerox da identidade, do CPF, comprovante de residência e ingresso do jogo.

Estamos provindenciando um endereço eletrônico para o envio dos dados, assim como o preenchimento da ficha para entrar com a ação.

Peço o favor de divulgarem a todos os corinthianos que estavam presentes no jogo Corinthians x São Paulo essa nossa ação.

RUA SÃO JORGE  – A RUA DO CORINTHIANO 

Envie seu e-mail para rsj1910@hotmail.com e você receberá um formulário para anexar os documentos necessários para entrar com a ação.

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Casa do Torcedor

Hoje, três dias e muitos textos lidos e repassados após o clássico, colhi mais um fruto do diálogo acerca do mesmo: descobri o Casa do Torcedor, um blog cujo nome diz tudo.

Lá, encerrando a série de relatos sobre o jogo, pode-se ler o texto de Bruno Camarão, que traz mais algumas coisas para o debate, detalhes que às vezes parecem pequenos mas que fazem diferença.

O blog tem bastante informação e muitos relatos, vale a pena dar uma olhada.

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Torcer

“Uma missão para bravos”.

É este o subtítulo do excelentíssimo texto de Gabriel Brito, do Futebólatras Anônimos.

Que começa com a intenção de relatar do ponto de vista de quem esteve lá o que aconteceu domingo e termina como uma ótima análise do papel de cada um dos envolvidos – torcida, PM, dirigentes, mídia, sociedade – nessa história.

Confira, na íntegra, clicando aqui.

Irretocável.

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Questão de segurança?

A PM contabilizou o maior número de ocorrências pela cidade desde a morte do torcedor Márcio Gasparím naquela final da Copa São Paulo de Juniores de 1995, segundo Paulo Vinícius Coelho, jornalista da ESPN Brasil. 

Torcedores do Corinthians relatam na internet que a confusão só não terminou em tragédia maior por um verdadeiro milagre, como pode-se ler abaixo.

Ficam, pra quem quiser responder, as perguntas:

A divisão de torcidas feita combinada com a truculência habitual da polícia paulista é realmente um caminho para termos menos violência no futebol?

A culpa da confusão é mesmo dos “vândalos” das organizadas?

O Morumbi é um estádio seguro pra se fazer uma Copa do Mundo?

Relato retirado de comunidade do Orkut (grifo meu):

“Estava certo com a PM que ficariamos cerca de 40min dentro do estádio e só depois seriam abertos os portões para a saída da torcida corinthiana. Só que começou a chover muito e a torcida decidiu se abrigar da chuva nos corredores em baixo da bancada, e começou a aglomerar a torcida inteira que chegou até perto dos portões. Aí entra a Tropa de Choque, eles nem perguntaram o que acontecia, viram a massa e já começaram a lançar bombas, balas de borracha, dar borrachada. E o resultado foi que ficaram mais de 3mil pessoas espremidas num corredor, engolindo gás de pimenta. A PM começou a recuar todo mundo num blocão esmagador, era um verdadeiro rolo compressor humano se esmagando, e entre os torcedores se ouvia os gritos de mulheres e até crianças sendo esmagadas, foi uma cena realmente chocante. E assim foi prosseguindo até que a massa espremida foi caindo de costas pela única saida de visitantes, foi feito um mutirão para ir resgatando as pessoas dali do meio.

O resultado foi que tinha até mulher grávida desmaiada e entre os muitos feridos, muitos com fraturas espostas.

E como sempre as organizadas foram as culpadas e a PM está de parabéns.”

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Ainda os ingressos

A justificativa oficial, ou pelo menos parte dela, é a segurança – do patrimônio, principalmente, do torcedor nem tanto.

Mas aí, dos 6.800 ingressos para visitante, 4.500 vão para as organizadas, as mesmas que são chamadas de vândalas.

E ainda por cima os mais baratos: R$ 40,00.

Pro torcedor comum, só 2.300 ingressos, a R$90,00.

Não que eu seja contra as organizadas, pelo contrário. As defendo a maior parte do tempo. 

Mas a cada dia que passa fica mais claro que são os fatores econômicos – entenda-se VISA – que motivam as ações que envolvem o clássico.

Além da briga com a FPF e com o próprio Corinthians, que recebeu seus ingressos todos sem destacar e sem numerar – uma afronta, inclusive, ao Estatuto do Torcedor.

Parece que o São Paulo sofre cada vez mais de uma certa febre napoleônica.

Ao torcedor, fica a pergunta: vale tudo pra ver seu time?

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Noventa

Na década de 1990, comecei a me interessar o suficiente por futebol e passei a frequentar estádios.

Fui com meu pai a inúmeros jogos antes de começar a ir sozinho ou com amigos. Alguns desses jogos tinham uma aura especial: os clássicos.

Chegar ao estádio e ver do outro lado imensidão igual (ou quase igual) à sua, nas cores adversárias, provocantes, bandeiras pra todo lado, baterias, fogos de artifício, mesmo a tensão no chegar e no ir embora, tudo era parte indispensável da festa. A presença do outro enaltecia a nossa, nos fazia mais forte, tanto na vitória quanto na derrota, que era o momento de mostrar que gritávamos mais independentemente do resultado.

Os anos noventa terminaram, para mim, da melhor maneira possível: dois títulos brasileiros, 98 e 99, e jogos memoráveis entre o meu Corinthians e seus contrários, Palmeiras e São Paulo. 

Todos eles no Morumbi.

Dez anos depois, o local ainda é o mesmo, mas outros noventa norteiam o primeiro clássico do ano: os noventa reais cobrados pelos míseros 6.800 ingressos “generosamente cedidos”, nas palavras do presidente são-paulino, para a torcida corinthiana.

Não bastasse a triste e descabida decisão de fazer um clássico sem o estádio dividido ao meio, que além de desabonar a tradição brasileira e o espetáculo em si provoca ainda mais insegurança para aqueles que se aventuram a comparecer ao jogo, dos dois lados, ainda há a lastimável cobrança de um preço absurdo pelos ingressos de visitante.

A guerra que sempre se instaura, às vezes apenas em forma de clima, outras em vias de fato, ganha tensão desnecessária, com as torcidas prometendo emboscadas e a polícia cacetadas. A rivalidade é acentuada da pior forma possível. E os torcedores dos dois lados sofrem para ver o jogo.

Por conta disso, no próximo dia 15 Corinthians e São Paulo farão um clássico ainda mais marcado pela confusão. 

Primeiro porque muito mais do que 6.800 corinthianos comparecerão. 

Segundo porque boa parte deles planeja não entrar e protestar, ato encorajado (com razão) pela própria diretoria do clube ao saber do preço dos ingresos.

Terceiro porque o jogo não se resume ao estádio, e por toda a cidade Tricolores e Alvinegros tomarão para si a briga emcampada pela diretoria são-paulina contra a Federação Paulista de Futebol.

E nessa guerra entre São Paulo e Federação, é o Tricolor Paulista quem se apequena ao fazer uso das mesmas práticas de Grêmios Barueris da vida quando enfrentam um grande em sua casa: abusar dos torcedores.

O clube cuja mídia propagandeia o maior sucesso em marketing esportivo, o pioneiro nas relações de mercado, o maior vencedor de títulos nacionais e internacionais do país parte para o ataque do lado errado, talvez receoso da iminente crescida do rival alavancada pela contratação de Ronaldo. Ataca sua torcida, a mesma que promete ultrapassar em dez anos, porque sabe que é nela que se baseia a força rival, talvez sem ter a real dimensão do poder – de reação e de destruição – dela. 

E pra tentar disfarçar o ataque, irresponsável por colocar a cidade ainda mais fora de controle, transforma-o em promoção para sua torcida, que ganha o ingresso do clássico ao comprar antecipado os ingressos dos três jogos em casa na primeira fase da Libertadores.

Para além do questionamento sobre se é certo o preço abusivo (coisa que, na Inglaterra, tomada a todo instante por exemplo, não é permitida, uma vez que se obriga o time mandante a cobrar da torcida visitante o mesmo preço do ingresso mais barato para a torcida da casa), fica aqui a indignação de quem acompanhou todos os clássicos paulistas realizados na capital ao vivo e in loco nos últimos três anos, acompanhado da mulher, sem nunca ter presenciado uma cena sequer de violência, e que no domingo estará impedido de fazê-lo.

Não (só) pelo preço ou pela carga de ingressos.

Mas pelos princípios enquanto torcedor – sim, até nós temos um limite além do qual não admitimos ser desrespeitados.

De ouvido colado no rádio, estarei torcendo para que neste infeliz 15 de fevereiro os jornais televisivos não tenham que noticiar eventos tristes envolvendo o jogo.

Por mais difícil – e improvável – que isso pareça.

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