Arquivo da tag: segregação social

A voz da rua

Manifesto dos Gaviões da Rua São Jorge escrito depois da morte do Clayton em 04/06.

Mostra bem o direcionamento político que estão tomando.

Serão cada vez mais marginalizados.

E aqui, no Vai, lateral!, terão cada vez mais espaço. E colaboração.

Que fale cada vez mais alto a voz da rua!

***

A VOZ DA RUA

Os fatos deviam sempre falar por si. Um bom jornalismo apresenta os fatos e deixa que os leitores, que têm inteligência suficiente para isso, cheguem às suas conclusões. Mas quando a grande mídia apresenta os fatos, já vai logo dando sua versão, não deixando espaço para um julgamento isento de opinião particular, de classe ou de preconceito. A grande mídia são os grandes jornais, as grandes emissoras de radio e TV, e seus apresentadores, que se crêem os donos da verdade e os paladinos da moral.  Não todos, é claro. Mas uma grande maioria. São formadores de opinião que esquecem que de perto ninguém é normal. E que todos os seres humanos têm as suas perversões. Vai saber a vida de cada um. Sempre, um dia, alguma bomba estoura. E muitas máscaras caem. Mas enfim. Não é destes medíocres que vamos falar. Não agora.

O que queremos neste momento é elucidar os últimos fatos relacionados aos Gaviões da Rua São Jorge, e que foram levados á publico envoltos em versões que não correspondem à realidade. Versões que, para além do preconceito, escondem intenções muito mais amplas e maldosas, nesse jogo de bandido e mocinho que jogam os donos do poder deste país, e que faz de nós, torcidas organizadas, risíveis joguetes, numa engrenagem, que mesmo os mais atentos dentre nós, não percebemos com clareza. Também deste jogo de mocinho e bandido, e da criminalização da pobreza, que tem levado ao extermínio os jovens de nossas periferias, não trataremos aqui. Não agora. Lembramos, apenas, que nossos jovens vêm, em sua estonteante maioria, dessas periferias desprovidas, desafortunadas, cheias de medo de não amanhecer, esquecidas das políticas publicas, principalmente para essa juventude. Também das necessidades dessas políticas públicas para a juventude, que sejam capazes de fazê-los acreditar em um futuro mais justo e digno para eles neste país, também não trataremos aqui. Não agora.

Nossa voz se levanta aqui para nos defender das mentiras que foram ditas por uns e veiculadas por outros a respeito dos fatos que ocorreram na quarta-feira, dia 04 de Junho de 2009. Versões alardeadas pelo Sr. Paulo Castilho e pela Sra. Ana Maria Braga. Aquele por maquiavélica inteligência. Esta por pura burrice e desinformação. Aliás, se o Louro José trocasse de lugar com ela, ninguém notaria. Não. Notariam sim. Ele tem mais inteligência do que ela. Ela é que é a papagaia. E aqui paramos pra pensar: Como podemos qualificar o ato cruel de invadir diariamente a residência de milhões de brasileiras pobres, que mal conseguem comprar o arroz, o feijão e a mistura, para torturá-las com receitas, comidas e guloseimas que elas nunca terão acesso? Como qualificar o ato de incitar desejos de consumo a uma população de miseráveis que nunca, nunca vão poder satisfazer-los? Quem é mais quem? Como ser mais você, se tudo na vida de quem é pobre é menos? O que Ana Maria diz diariamente em seu programa é: Olha, todos podem ter acesso a isso: Menos você. Como qualificamos isso? Tortura? Sacanagem? Ignorância? No entanto, D. Ana Maria Braga, se acha no direito de nos chamar de um bando de marginal e vagabundo.

Já a inteligência da perversidade do Sr. Paulo Castilho atende, não sabemos se consciente ou inconscientemente, às necessidades de elitização do futebol, que pede o afastamento dos favelados, dos periféricos, dos negros, dos mestiços, dos pobres, da imensa maioria do povo brasileiro. Porque, não nos enganemos, esse discurso de “famílias afastadas dos estádios”, não se mantém se verificamos a realidade. Ou aquele senhor que eu conheço e que mora na minha quebrada, que foi ao estádio com sua esposa e filha, não é família? A questão é saber de que família estes senhores da moral, estão falando. Não é da pobre e favelada. Mas desses processos de elitização do futebol não trataremos aqui. Não agora.

Faz-se necessário um debate interno dentro do Movimento da Rua São Jorge. Abrir a cabeça dos nossos jovens para o jogo perverso que nos envolve, e se não estivermos atentos, seremos arrastados pelo rolo compressor da mentira e da perversidade daqueles para quem a nossa criminalização só trará benefícios pessoais. Jovens promotores, querendo construir carreiras, se auto considerando, os benfeitores da sociedade. Jovens promotores que desconhecem a vida, o mundo real e a sociedade brasileira. Jovens promotores formados entre quatro paredes, presos a livros e a leis frias, que aplicam como dessem comprimidos para a dor de cabeça. Defensores da lei e da ordem que só beneficiam sua classe social. Pois não é com a sociedade pobre e marginalizada que eles estão preocupados. Mas desses jovens promotores também não trataremos aqui. Agora não.

O momento é de esclarecer a sociedade civil o que verdadeiramente aconteceu na Marginal Tietê. Porque não foi emboscada nenhuma. E olhamos perplexos um mundo de exageros e mentiras desabar sobre nossas cabeças. Condenados sem julgamento. Criticados por todos, sem conseguir expressar nossos sentimentos. Nossa dor pela perda de um irmão. Nossa revolta.

O nosso objetivo aqui será o de  encaminhar a razão e procurar a verdade nos fatos. Recusar todos os preconceitos, não aceitando como verdadeira nenhuma versão que não seja comprovada. Vamos aqui enunciar versão a versão e mostrar o quanto são refutáveis.

Emboscada? Se por emboscada entendemos, e assim nos diz o Aurélio, que é o ato de esperar às escondidas pelo inimigo para atacá-lo de surpresa, Como  pode ter sido emboscada se aquele sempre foi o caminho dos gaviões da Rua São  Jorge? Todos sabem disso. Policia e torcidas adversárias. Não é um caminho que se vai quando se quer se esconder e atacar de surpresa. Ou o jovem promotor não entende nada de ciência militar, ou optou por mentir descaradamente.

Como emboscada se era 1 ônibus contra 13 num terreno pouco favorável a um ato destes? Um ônibus visível até pelos mais míopes. E esse único ônibus trazendo mulheres, crianças e um deficiente, ocupando espaço que poderia ser destinados a outros briguentos. Seria inteligente tirar homens e colocar mulheres e crianças para ir para uma briga?

Tínhamos escolta? Tínhamos. A nossa. Não porque fôssemos os poderosos e não precisássemos da colaboração da polícia, mas porque ela nos foi negada. Sem escolta batemos no peito pra dizer: é com nóis mesmo. Nossa defesa eram nossos punhos. Não tínhamos nenhuma arma. Muito menos a arma de alto calibre que foi veiculada na mídia. Mentira, mentira, mentira.

O fato é que quando chegamos na altura da rodoviária do tietê, três motos da Rocam, aparecem do nada, e nos joga para a direita. Se ela queria aparecer, porque não o fez desde a saída da Rua São Jorge? Após o viaduto das Bandeiras pararam nosso ônibus e carros. E olha a coincidência: “40 segundos” depois passavam os 13 ônibus vascaínos na pista central. E olha a coincidência: eles também foram parados. A rivalidade antiga aflorou, falou mais alto e eles marcharam para cima de nós. E aí já estávamos no meio de uma briga lutando pra se defender. Recuamos no sentido da ponte Tiradentes. Para trás ficaram nossos carros e o ônibus. Até esse momento ninguém tinha sido foi preso. Dos vascaínos ninguém chegou a ser preso. Seus ônibus seguiram tranquilamente para o estádio como se nada tivesse acontecido. E, então, voltarmos para os nossos carros e ônibus, acreditando que seria o mais seguro devido à presença da polícia no local. Eles mesmos disseram que nós tínhamos sido vítimas. Mas coma chegada da delegada Margareth e do jovem promotor, tudo mudou de figura.

Se tínhamos sido vítimas de vandalismo, roubo e morte, se tivemos nosso ônibus depredado, nossos carros destruídos e uma moto incendiada, passamos a ser os vagabundos, os criminosos, os bandidos.

Se somos bandidos porque insistimos em participar e dar nossa contribuição em todas as reuniões do Batalhão?  Mesmo quando a delegada Margareth manda nossos representantes se retirarem da reunião, justificando que somos os Gaviões da Rua São Jorge, que não somos reconhecidos como tal, que não possuímos CNPJ.

Também fomos retirados de uma reunião no Fórum com o Promotor, o Secretário do Ministro e todas as outras torcidas organizadas. Não nos identificaram como Rua. Quem vive na rua vive ao relento. Sem voz, nem vez. É assim a nossa sociedade.

Se somos bandidos porque insistimos em pedir escolta? De início fomos atendidos. Mas logo começou o boicote.  Inclusive de outras torcidas. Inclusive de parte da nossa torcida. Na rua é assim: cada um por si e Deus por todos.

Estão todos esses fatos e essa versão de emboscada desconectados um dos outros? São fatos isolados? Não se vê nessa forma de agir contra os Gaviões da Rua São Jorge uma certa lógica?

Sabemos que nos envolvemos em brigas. Sabemos que isso não leva a nada. Como sabemos, por experiência, que à medida que a idade vai chegando, esses pensamentos vão mudando. E nós mesmos, olhando em retrocesso o nosso passado de brigas, dizemos aos mais jovens, que isso é besteira, que não dá futuro a ninguém. Mas futuro, nenhum periférico tem nesse país. Então que diferença faz? O jovem se pergunta. E aí já não sabemos mais responder. Não somos sociólogos nem psicólogos sociais. Simplesmente nascemos dentro de uma realidade brasileira, de um contexto, de uma formação social que nos é adversa. Somos formamos nela. E respondemos tentando sobreviver a isso. Mantendo nossa sobrevivência psíquica em tempos de crise civilizatória. Sabemos, sim, que apesar das confusões que causamos, não somos bandidos, como querem fazer a sociedade crer. Não somos terroristas, que é o medo da moda desde o 11 de Setembro. Não somos delinqüentes nazistas que matam negros, nordestinos e índios. Somos periféricos que brigam com periféricos. E que nesse brigar, infelizmente, para nosso pesar e tristeza, morre, ás vezes, um jovem. Aí somos pobres matando pobres. É justamente aqui que riem de nós. E pensam: Isso! Matem-se. Mostrem à todos, quem vocês são de verdade. Vagabundos. Marginais. Bandidos. Se vocês são ou não são, isso não nos interessa. O que não queremos é que um bando de loucos estejam organizados. E que um dia, deixem de brigar e invadam câmaras e senados brigando por educação, igualdades e direitos. Pois é para isso que queremos caminhar. Que a cobrança por títulos para o Todo Poderoso Corinthians venha acompanha de outras cobranças, lutas e conquistas sociais e humanas. Que os Gaviões da Rua São Jorge possa contribuir verdadeiramente para a higienização do futebol, ocupando as salas e pondo os cartolas contra a parede. Em nome da nação Corinthiana, em nome da nação brasileira. Os Gaviões que se juntaram na Rua São Jorge, querem e vão brigar para construir um novo modelo de torcida. A cada dia com seu nível de consciência mais elevado, a cada dia mais organizada.

Mas aqui tem um bando de loucos, sim. Loucos por ti Corinthians. Loucos por ti minha quebrada. Loucos da rua. Porque a rua ensina e mostra ao homem a sua verdadeira dimensão. Porque a rua é do tamanho do mundo. A rua é o mundo. E o homem é do tamanho de uma pedra miúda. E, aqui, deixamos para todos nosso recado final: CNPJ? CNPJ é a rua mané. Nela, é nóis que tá.

Movimento Gaviões da Rua São Jorge.

3 Comentários

Arquivado em estádio, mídia, sociedade

Passa Palavra 2

O especial sobre futebol e política do Passa Palavra chega ao segundo artigo, escrito por mim.

O tema é a Gaviões da Fiel e seus aspectos políticos.

Reproduzo abaixo.

Especial Futebol (II): A Gaviões da Fiel e o caráter político do torcedor

Segundo artigo do especial do Passa Palavra sobre futebol, é sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui. Por Kadj Oman [*]

gaviao_interna3O ano era 1969. Vivíamos sob a ditadura, mais precisamente na época da chamada “linha dura”, com Costa e Silva no poder. Um ano havia se passado desde 1968, quando revoltas, principalmente estudantis, recrudesceram tanto a oposição quanto o governo. Veio o AI-5, e a censura, a repressão e a tortura se espalhavam por todo o país.

Em meio a tudo isso, em São Paulo, o clube de futebol mais popular do Estado enfrentava a sua própria crise: há 15 anos sem títulos, o Sport Club Corinthians Paulista vivia também outra ditadura, particular. Wadih Helu, há mais de década no poder, fazia o que queria com o departamento de futebol profissional. Até que um grupo de torcedores que se encontrava nos jogos do time desde 1965, liderados por Flávio La Selva, resolve fundar uma torcida organizada, a primeira do Brasil, apoiada estruturalmente nos moldes dos clubes de bairro e ideologicamente na efervescência de idéias de luta por liberdade que inundava o país. Tinha início, em 1º de julho, a Gaviões da Fiel.

release oficial da Gaviões, encontrado no sítio na internet da torcida – www.gavioes.com.br – e escrito por Roberto Daga, sócio número 3, diz exatamente que ”(…) um grupo de corinthianos autênticos que vieram a se conhecer nas gerais dos estádios onde o Corinthians se apresentava (…) movidos pelo ideal de colaborar com a vida do clube, não só incentivando o time, mas também participando efetivamente da vida política administrativa do Sport Club Corinthians Paulista (sic)” deu início à Gaviões. Um início que já se colocava como político, onde o “(…) ideal de participação nada mais é do que o exercício do direito de influenciar, e dar aos mandatários do clube, a legitimidade ao mandato exercido, e ao mesmo tempo obrigá-los à cumprir os verdadeiros anseios na Nação Corinthiana (sic)”. Começava a história do grupo que, anos mais tarde, traçaria como seu mote “lealdade, humildade e procedimento”. É sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui.

Hoje, junho de 2009, às vésperas do quadragésimo aniversário da torcida, o que inunda as manchetes de jornais pelo país é a notícia de que uma “dissidência violenta” da Gaviões teria provocado uma emboscada a torcedores do Vasco da Gama, em dia de jogo entre este e o Corinthians pela semifinal da Copa do Brasil, que terminou na morte de um torcedor corinthiano. Já questionada e refutada por grande parte da mídia, graças ao esforço de jornalistas independentes que fizeram o serviço de apurar os fatos e colocar o lado dos torcedores na história, a versão da mídia para o acontecido abre a possibilidade de um debate sobre o lugar atual do caráter político que a Gaviões da Fiel buscava exaltar em sua criação. Para isso, antes de mais nada, cabe identificar a dita “dissidência violenta” noticiada pela grande mídia.

Desde 1975, a Gaviões da Fiel participa do Carnaval paulistano, primeiro enquanto bloco, e depois – a partir de 1989 – enquanto escola de samba. Essa participação, além de ter sido fundamental no crescimento do número de associados da torcida, hoje com o maior quadro de sócios do país, modificou as estruturas de poder e de interesse de seus membros, principalmente alguns de seus dirigentes. O Carnaval mexe com dinheiro, muito dinheiro, tanto entrando quanto saindo. O que se configurou, então, foi uma gradativa divisão, a princípio não tão nítida, depois bastante clara e opositora, entre os interesses da escola de samba e os interesses da torcida de futebol. Grupos que defendiam os dois lados passaram a se opor sobre os rumos da Gaviões, tanto politicamente quanto economicamente. E essa divisão começou a ser posta à prova há mais de dez anos. Na década de 90, um episódio de confronto dentro de campo entre torcedores de torcidas organizadas de São Paulo e Palmeiras, após um jogo de juniores das duas equipes, desencadeou uma série de ações restritivas às torcidas organizadas no estado de São Paulo. Boa parte delas foi juridicamente fechada, o que não as impediu de existir mesmo que sem suas camisas e com bandeiras sem seus nomes, mas com seus ideais. A Polícia passou a acompanhar e controlar a atividade das mesmas, principalmente dentro do estádio. E as organizadas foram forçadas a mudar a toada de suas canções e ações.

gavioes_racismoNo caso da Gaviões, no lugar dos cânticos de extermínio ao rival, entram os gritos de apoio ao Corinthians e questionamento do poder do Estado, mesmo que indiretamente: ao invés de “Morumbi ela domina, Pacaembu ela destrói / No Rio ela detona qualquer um que ela encontra / Não tenho medo de morrer / Eu dou porrada pra valer / Eu amo essa torcida e o nome dela eu vou dizer / Como é que é? / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Vou dar porrada, eu vou / E ninguém vai me segurar”, temos “Contra todo ditador que no Timão quiser mandar / A Gaviões nasceu pra poder reivindicar / Os direitos da Fiel que paga ingresso sem parar / Não temos medo de acabar/ Corinthians joga, eu vô tá lá / Nossa corrente é forte e jamais se quebrará / Pelo Corinthians / Com muito amor / Até o fim / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Corinthians joga, eu vou / E ninguém vai me segurar”.

A repressão, portanto, acaba forçando as organizadas a se repensarem para sobreviver, e isso vai para além dos cantos de estádio: na forma jurídica, refundadas enquanto escolas de samba, as torcidas encontraram um meio de não poderem ser fechadas pelo Ministério Público. O Carnaval ganha espaço e importância. A oposição interna da Gaviões, então, volta a aparecer. E cinco anos atrás, passa por um teste de fogo.

O Corinthians vivia sob nova ditadura, desta vez de Alberto Dualib, quando, no final de 2004, fechou parceria escusa com um empresário iraniano. Kia Joorabchian, ligado à máfia russa, veio ao clube com a promessa de montar um “supertime”. A Gaviões, então, vivenciou um quase-racha entre aqueles que apoiavam a parceria e aqueles que eram contrários a ela. Dois anos depois, Kia, Dualib e o Corinthians preenchiam as páginas policiais dos jornais, com o iraniano sendo procurado pela Polícia Federal e tendo a prisão preventiva decretada. O clube, sem dinheiro e sem jogadores – os grandes craques, com a turbulência, foram levados para a Europa -, acabou o ano de 2007 tendo sido rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional pela primeira vez em sua história. Nas arquibancadas, entretanto, uma vitória: reunidos momentaneamente pelo momento de crise, os torcedores criaram a vitoriosa campanha “Fora, Dualib!”, que tirou o mandatário e sua diretoria do controle do clube, provocou uma mudança estatutária para impedir a reeleição infinita e recolocou a administração sob os olhares atentos dos torcedores.

No Carnaval, entretanto, confusões jurídicas e econômicas entre a Gaviões, a Liga das Escolas de Samba de São Paulo e a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão dos desfiles, causaram finalmente a ruptura entre os opositores do Carnaval enquanto atividade principal da entidade e os defensores do mesmo. Derrotados em eleição interna da torcida, os opositores – os mesmos que no começo da década realizaram uma aproximação da Gaviões com movimentos sociais, notadamente o MST e os movimentos de sem-teto – fundaram o Movimento Rua São Jorge, composto por diversas lideranças da torcida e outros membros insatisfeitos com a condução da entidade, cujos dirigentes sofriam acusações de corrupção e de colocar interesses individuais à frente dos coletivos, incluindo aí suspeitas de envolvimento de alguns deles com algumas das muitas máfias que rondam o meio do futebol. Passando a se encontrar em frente ao Corinthians, na rua São Jorge, para ir aos jogos, os membros do Movimento se tornaram alvo fácil para as outras organizadas a partir do momento em que não constituem juridicamente uma nova torcida e, por conta disso, não contam com proteção (?) policial em dias de jogos. Por conta dessa exposição, acabaram por alugar uma sede própria, que não serve como uma desculpa para fundar uma nova torcida – afinal, todos eles têm orgulho e fazem questão de afirmar que são Gaviões da Fiel –, mas como ponto de encontro de torcedores que antes se concentravam em bares na frente do Corinthians.

Num cenário em que a sociedade deteriorou de tal maneira os espaços públicos e coletivos a ponto de que as disputas entre torcidas saíram cada vez mais do nível simbólico para alcançar o nível do confronto físico pela ocupação de um espaço que é, no cotidiano, alheio às duas, o envolvimento da Rua São Jorge em confusões violentas – as quais nem sempre provoca, mas nunca evita, conforme o código de conduta informal que rege o comportamento das torcidas organizadas – serve como prato cheio para desvirtuar aquilo que o movimento tenta construir: um fórum nacional de torcidas organizadas que busque combater a crescente onda repressora e opressora nos estádios brasileiros, que vai desde proibições e arbitrariedades quanto a bandeiras com frases políticas à exclusão e segregação dos torcedores organizados em determinados setores do estádio. Foi nesse sentido que a Rua São Jorge organizou o I Seminário da Rua São Jorge, em março deste ano, para não só explicar a ideologia do movimento mas discutir, nas palavras do release do evento, “as experiências e organização dos movimentos sociais brasileiros e a organização do movimento Rua São Jorge junto ao processo de extinção das torcidas organizadas e a elitização do futebol”.

gavioesSe, em 1979, dez anos depois de fundada e ainda sob a ditadura militar, a Gaviões da Fiel – que a essa altura já tinha conseguido depor Wadih Helu do comando do Corinthians em um episódio chamado de Revolução Corinthiana – estendia uma faixa com os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, em 2009 o Movimento Rua São Jorge busca resgatar este caráter político e contestador da torcida organizada de futebol. Em meio a isso, sofre com a violência – e revida com ela da mesma maneira esquizofrênica com que é atacado – de outros grupos torcedores, muitas vezes dominados por máfias ou influências políticas, e da mídia, da Polícia e do Ministério Público, que não os reconhecem e os marginalizam da mesma forma com que marginalizam outros movimentos sociais por aí e com que espancavam e prendiam membros da Gaviões – e de outras organizadas – que nos anos de chumbo ousavam cantar e dizer contra a ditadura. Afinal, são anos de tratamento animalesco por parte do poder público, e durante esses anos a cultura da violência cresceu de tal forma que não é possível ser terminada de uma hora pra outra, ou por meio de medidas ainda mais autoritárias como as que vemos acontecer dia após dia – chega-se ao cúmulo de propor jogos com torcida única. O problema da violência não é exclusividade do futebol e muito menos caso de polícia: sua ordem é maior, social, intrinsecamente ligada ao processo de expansão espacial do capital que se deu no Brasil aceleradamente da década de 50 em diante.

invasao_2O futebol, por seu caráter aglutinador de massas, consegue proporcionar espaços propícios a todo tipo de experiência política coletiva. A maioria delas é cooptada e orientada no sentido do capital, que vai em busca de uma “limpeza” das arquibancadas com vistas à Copa do Mundo de 2014, que aqui será realizada. Mas é engano dos mais terríveis pensar que as torcidas organizadas são apenas agrupamentos bélicos que buscam exterminar um ao outro: em recente audiência pública na Câmara dos Vereadores em que reclamavam a volta das bandeiras com mastro de bambu aos estádios paulistas, banidas há mais de década, os dirigentes das principais organizadas do estado, cansados da enrolação parlamentar, fecharam o encontro dizendo que, se não tiver conversa, deveriam se unir para chegar em 2014 fortes o suficiente para “roubar todos os turistas e botar fogo nessa merda (sic)”. A violência do capital, portanto, encontra reflexo à medida que se recrudesce, e o autoritarismo força os torcedores a repensar suas práticas, criando a possibilidade de surgimento de outras estruturas e outras idéias e ações como as que o Movimento Rua São Jorge tenta organizar.

Até 2014, o movimento dos torcedores organizados terá um grande desafio: superar a esquizofrenia do aniquilamento mútuo em nome de sua própria sobrevivência. Entretanto, para isso, precisa conseguir criar algo forte o suficiente para não só sobreviver, mas abrir espaço para se auto-afirmar enquanto movimento social nas cada vez mais excludentes arquibancadas deste país. Parte deste desafio passa por uma revisão de suas estruturas e de suas alianças. No caso da Gaviões, entre o MST e o espectro das máfias organizadas, há um abismo que pode decretar a falência ou a reorganização do ideal de “procedimento” que, desde sempre, norteou as ações da torcida.

Hoje, o Movimento Rua São Jorge representa a possibilidade transformadora desse ideal. Resta torcer e, na medida do possível, colaborar e participar para que a violência – em todas as suas formas, do preço do ingresso ao confronto físico com outras organizadas – não acabe por reduzir esse potencial ao nível das disputas sangrentas por poder.

[*] https://vailateral.wordpress.com

Deixe um comentário

Arquivado em estádio, mídia, sociedade

Passa Palavra

Surgiu recentemente um novo site de contra-informação na Internet: o Passa Palavra.

Eles iniciaram hoje uma série de artigos sobre futebol. O primeiro, que reproduzo abaixo, encontra-se neste link.

Importante e satisfatório ver que cada vez mais espaços se abrem na mídia e na academia para pensar o futebol. Ter parâmetros para (re)orientar as nossas ações enquanto torcedores é fundamental, e discutir socialmente as questões que nos afligem, também. 

Então, longa vida aos especiais sobre futebol e ao Passa Palavra!

Especial Futebol (I): Torcidas organizadas e orientação política

Esse artigo inaugura um especial do Passa Palavra sobre futebol. Aqui se analisa as relações entre política e futebol a partir da ação política das torcidas organizadas em seu contraditório processo.

FRANCE SOCCER CHAMPIONS LEAGUEA relação entre futebol e política é evidente e de uma maneira geral esse esporte foi usado amplamente para os mais diversos interesses. Isto se dá, muito provavelmente, pelo inegável potencial de mobilização popular que o futebol tem manifestado por suas torcidas, por um lado; e pelo crescente poder econômico que os clubes vêm acumulando, por outro. Cabe então analisar qual é a ação política realizada por estas torcidas e quais as contradições desse processo.

A torcida de futebol é percebida como espaço de dissolução das classes, nas arquibancadas somos todos iguais, unidos pelas mesmas cores. Evidentemente existem diferenciações dentro dos estádios, afinal alguns setores são mais caros que os outros e, por vezes, uma ou outra polêmica divide os torcedores. Tal diferenciação chega a ser enxergada pelos próprios torcedores, causando um certo desconforto, mas nada que ponha em cheque o sentimento de união em torno de algo maior: o time. O fator de união entre os que estão ali presentes se dá com o time e não com a situação produtiva aparentemente, rompendo todas as barreiras da fragmentação imposta na sociedade atual.

Digo aparentemente porque cada vez mais o ócio e a cultura se transformam em mercadorias, incluindo o futebol e todas as outras formas de lazer no âmbito da produção capitalista. Além de todas as contradições já impostas ao futebol, cada dia essa nova característica ganha força e se hegemoniza. Os clubes se transformam em empresas e os torcedores que têm influência nos rumos do time são, na maioria dos casos, um pequeno grupo de empresários, isso quando o time não se torna totalmente apêndice de uma outra empresa qualquer. Portanto, o que era um equívoco falar há cerca de duas décadas atrás, “o torcedor é um mero consumidor”, se torna cada vez mais real. Isso influencia completamente na composição das torcidas e nos seus comportamentos, já que o consumidor vale pelo seu poder de compra, passando os clubes por um processo de elitização das torcidas, a ponto de eliminar dos estádios as gerais – espaços das arquibancadas vendidos a preços reduzidos. Transformam os estádios em shopping centers, cobram preços absurdos pelos ingressos e afastam assim as camadas mais populares das arquibancadas, para pôr no lugar pessoas que podem consumir futebol e, desta forma, ter uma postura “menos apaixonada”, deixando de exigir a participação na gestão do clube através dos gritos e da força para participarem de forma pacífica, mediada pelo poder do dinheiro, ou melhor, participando somente de forma ilusória.

Por outro lado, as torcidas perdem a ligação com o espaço geográfico de forma cada vez mais intensa. Essa ligação com o espaço geográfico, que determina a origem de diversos clubes de futebol, começa a se perder a partir de meados do século passado, com a criação da cultura de massa, que impôs a criação de torcidas nacionais a custo da eliminação de torcidas menores e de times de regiões periféricas sob a ótica do desenvolvimento capitalista. No Brasil isso é ainda mais verdadeiro, perceptível nos grandes times do Rio de Janeiro e de São Paulo, que possuem torcidas em todo território, às vezes até maior do que a dos times locais. Já na virada do século passado para o atual, com a efetivação da globalização, ou melhor dizendo, com a transformação dos clubes de futebol e empresas transnacionais, o futebol avançou ainda mais no processo de ruptura das fronteiras, sejam elas locais, nacionais ou continentais. Assim, já se é possível torcer por um time de um outro país que não o seu, não pela identidade que formou com ele, mas pela imposição dos meios de comunicação. Entretanto, é só olhar a localização dos estádios em Londres ou Buenos Aires e analisar a composição das torcidas dos clubes de menor expressão econômica-midiática, e ver que os bairros ainda exercem influência direta na formação das mesmas.

Mas esses processos de ressignificação (ou eliminação) das identidades das torcidas ainda está longe de se efetivar. Mesmo os gritos que exaltam determinada condição social do torcedor, como é o caso da torcida do Corinthians (“é festa na favela”), são afirmados enquanto discurso identitário, tentando expressar que todos os corinthianos são favelados, o que não condiz com a realidade, mas reforça os laços entre aqueles que vestem as mesmas cores. Vale destacar aqui a contraposição feita entre Corinthians e São Paulo, pois os são paulinos se identificam enquanto elite e os corinthianos enquanto povo (oposição explicada em parte pelas origens dos times). Mas essa dualidade vale para outras rivalidades regionais existentes no Brasil e, provavelmente, no mundo. Assim, os torcedores anulam as diferenças internas da sua própria torcida e transferem este conflito para o âmbito externo: o outro time é o inimigo, especificamente o seu torcedor. As diferenças entre as torcidas, portanto, por mais que expressem de alguma forma uma parte da realidade, não explicam o todo, e se transformam mais em ideologias para justificar a rivalidade do que como explicação real para o conflito.

Estas identidades construídas de forma artificial se expressam com maior intensidade nas ações violentas das torcidas organizadas, sendo fator de orgulho quando elas se enfrentam. É um mérito ter acuado a torcida de outro time, roubado suas bandeiras, seus instrumentos, ter mandando meia dúzia para hospitais e, quem sabe, ter assassinado um suposto adversário.

Essa violência, geralmente, é realizada por membros das classes mais populares, mas nem sempre, já que as torcidas organizadas são divididas em facções (comandos, batalhões, brigadas, etc.), quase sempre segmentadas por bairros, onde alguns pouquíssimos grupos chegam a ser compostos por sujeitos das classes dominantes. O alvo, por sua vez, são os membros e patrimônio das outras torcidas, quase sempre proletários também, ganhando conotação de classe, pelo menos nos discursos, quando são times de torcidas de origens sociais diferentes.

Mas essa violência se expressa também contra os próprios clubes, quando esses não abrem espaço para que as torcidas interfiram na gestão do mesmo; ou contra a polícia, instituição que cada dia mais intensifica as ações contra as torcidas organizadas. E a medida que elas se tornam mais proletárias e, portanto, populares, mais agressiva é a resposta. Por último, a violência contra o patrimônio é a menor, e se expressa em pichações em muros ou depredações de ônibus.

Evidentemente esta violência entre trabalhadores não é uma exclusividade das torcidas organizadas de futebol, sendo presente nos diversos coletivos urbanos (principalmente nos meios juvenis), a diferença é que no caso do futebol esses confrontos ganham dimensões extraordinárias devido a quantidade de pessoas envolvidas e por acontecer ali, bem em frente dos espetáculos midiáticos e, portanto, não mais somente nas periferias das cidades. Esses confrontos entre torcidas organizadas foram amplamente combatidos através dos meios de comunicação, chegando a haver, no Brasil, um movimento para banir as torcidas organizadas dos estádios. Como o apaziguamento das torcidas – ou pelo menos o desvio dos confrontos para regiões periféricas dos estádios – diminuiu bastante o interesse dos espectadores pelo futebol, as torcidas hoje passaram a ser mostradas de forma contraditória, pois a exploração da violência enquanto espetáculo continua, principalmente agora na onda de terror que se impõe à população, mas boa parte das transmissões são dedicadas a expor os gritos que vêm das arquibancadas, isso tudo porque a saúde do negócio é ainda mais importante.

Cabe apenas destacar que esta violência não se volta apenas contra torcedores de outros times, mas dentro da torcida de um mesmo time são proibidas cores identificadas com o time adversário. Mesmo a população em volta dos estádios – tanto em dias de jogos, quanto nos de compra de ingresso – está sujeita a estas ações. E há casos de brigas entre torcidas organizadas do mesmo time, e esses casos, apesar de raros, são os mais emblemáticos da penetração da luta de classes nas arquibancadas, já que esses confrontos se dão pela formação de torcidas por frações diferentes da classe trabalhadora, ou até mesmo de classes antagônicas; ou como é cada vez mais comum, por parte dos torcedores terem comportamentos não aceitos pela maioria, como é o caso das manifestações de racismo que sempre dividem torcedores que carregam a mesma bandeira. Portanto, é incorreto afirmar que há torcidas completamente racistas, mesmo que a maioria dos seus torcedores compartilhem com esse tipo de sentimento; por outro lado, há torcidas onde são completamente intoleráveis expressões do racismo, e isso acontece não por causa da ação político-conscientizadora das torcidas organizadas, mas pela composição étnico-racial dos torcedores em geral, pois da mesma forma que muitas classes podem conviver aparentemente unidas nas arquibancadas, muitas cores compartilham do mesmo sentimento, para além daqueles expressas nos uniformes.

As torcidas organizadas são também organizações coletivas, rompem com a individualização de nossa sociedade e surgem como iniciativa de participação na vida do time. Para a maioria dos seus componentes, formada por proletários das camadas mais populares, quase todos jovens, é essa a primeira e única experiência organizativa. Na medida em que o torcedor é colocado como consumidor do espetáculo do futebol – que deve apoiar o time em todas as situações, comprar os produtos do time, pagar o ingresso sem questionar – as torcidas organizadas podem ser encaradas como uma ruptura com este padrão. Quando surgem, inclusive, a grande maioria segue a estrutura associativa, com participação ampla dos seus sócios. Elas querem influir nos rumos do time, nos preços do ingresso, nas posturas dos dirigentes, técnicos e jogadores, são então uma estrutura de participação coletiva e reivindicação política na sociedade, tentam tomar o controle de algo que lhes parece fundamental em suas vidas: o futebol.

É verdade: quando essas torcidas crescem, e passam a interferir na dinâmica do clube, entram em um processo de profissionalização, que significa assumir toda a racionalidade instrumental típica de uma empresa capitalista e, portanto, ao gerar hierarquias internas bastante rígidas, deixam de ser espaços de aprendizado organizativo para os seus componentes, ou pelo menos para a maioria deles. Mas mesmo assim, nunca é uma transição tranqüila e há casos de torcidas que foram nesse caminho e regressaram (após conflitos internos retornaram a uma situação de maior participação dos seus componentes). Esse processo de profissionalização acontece por dois motivos. O primeiro é que a torcida passa a gerar renda com a venda de materiais e com a realização de atividades recreativas – fora o fato de algumas receberem recursos dos dirigentes dos seus times – necessitando assim de uma estrutura administrativa; por outro lado, ao ganharem visibilidade, precisam eleger representantes ou donos, para que as outras instituições da sociedade tenham a quem se dirigir (ou corromper, quando for necessário).

Evidentemente isto não quer dizer que as torcidas organizadas são espaços de formação de uma consciência de classe proletária, mas mostra que há uma contradição interna bastante latente. A torcida do Zenit da Rússia, por exemplo, considera que nenhum jogador negro deve jogar no time, e assim impede através da hostilização violenta a participação de qualquer um que tenha a pele escura e traços africanos. Na Europa, o caso mais característico é o da “Irriducibili Lazio” que tem entre seus gritos saudações a Mussolini e a canção “Facetta Nera”. Mas também dentro das arquibancadas do Lazio há torcedores que negam e combatem essa postura. Por outro lado, mas ainda na Itália, existe uma politização de esquerda, por vezes organizadas diretamente para combater o racismo e o fascismo, chegando a formar organizações comunistas, como é o caso da torcida do Livorno, que leva bandeiras com imagens de Che Guevara e Antonio Gramsci, além de cantar “Bandiera Rossa” e preencher as arquibancadas com cânticos revolucionários e bandeiras vermelhas. O preço, claro, foi descer para a segunda divisão do campeonato italiano… Por vezes estas duas torcidas entraram em confronto físico direto.

Sem querer entrar na composição das torcidas, mas explicitando um caso emblemático de uso do futebol para fins nitidamente políticos, podemos citar o caso do Real Madrid, que durante a Guerra Civil Espanhola foi usado como instrumento de propaganda ideológica do regime fascista, pois o clube mais vencedor do país até então, o Barcelona, era o time dos catalães que lutavam contra a unificação autoritária do país e, ao mesmo tempo, levantavam a bandeira do comunismo. E essa rivalidade é presente até os dias atuais. Isso sem falar nos casos emblemáticos em Copas do Mundo, onde as seleções cansaram de ser usadas como instrumentos de regimes fascistas e/ou autoritários.

Vale destacar as tentativas de organização política de esquerda por parte das torcidas organizadas no Brasil, com destaque particular para a torcida do Corinthians, a “Gaviões da Fiel”, que desde sua fundação tem como marca uma forte atuação política, inicialmente na luta contra a “ditadura” de Wadih Elu, e 15 anos depois na luta pelas diretas já. Nos últimos anos, graças a um grupo que já ocupou sua diretoria, busca um trabalho com movimentos sociais, participando de articulações e ações com a Via Campesina, compondo o bloco “unidos da lona preta”, apoiando as mobilizações contra o aumento da passagem em 2006 e mantendo uma rádio livre on-line.

Cabe alertar que este grupo da Gaviões da Fiel está hoje longe da diretoria da torcida e se organiza internamente no auto-denominado Movimento Rua São Jorge, que realizou um seminário com o objetivo de refletir qual o papel social da torcida, que contava entre os debatedores convidados representantes do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Acenam desta maneira com uma ação política radical de esquerda com movimentos transformadores, por vezes buscando uma maior integração com as torcidas rivais; porém, convive com a enorme contradição que é a retomada dos gritos de incentivo à violência (ausentes na Gaviões desde os anos 90) por entenderem que estes representam a contestação principalmente à atual diretoria.

Um exemplo menor, mas já bem conhecido, é o da torcida do Ferroviário do Ceará. Considerado o terceiro time da capital do seu estado, com torcida significativamente menor que a dos outros dois primeiros, o Ferroviário é um time de origem operária que possui uma torcida organizada, a Ultra Resistência Coral, assumidamente anti-capitalista, que leva como lema essas duas frases: “Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes” e “Nada diminui nossa paixão incendiária. Ferroviário, orgulho da classe operária”. A torcida, assim, nega-se a se confrontar com outras e direciona suas forças contra aqueles que realmente merecem.

Resta o desafio àqueles que vêem aí um campo fértil para a transformação social, que é o de lidar com a contradição sempre presente nas organizações populares dos trabalhadores (seja elas para fins explicitamente políticos ou não), que ao mesmo tempo que reafirma o capitalismo, questiona-o. Se, portanto, a transformação dos times de futebol em empresas, e dos torcedores em consumidores, tende a diminuir os conflitos entre as torcidas de futebol, a transformação de alguns desses mesmos clubes em transnacionais pode levar de uma vez por todas à destruição da identidade dos torcedores com os seus clubes. E as torcidas organizadas vão ter que identificar seus verdadeiros inimigos, ou deixar de existir enquanto tal. Passa Palavra

Fontes Consultadas:

Blog do Pulguinha: http://blogpulguinha.blogspot.com/

Resistência Coral: http://br.geocities.com/resistenciacoral/

Blog do Kadj Oman: http://manihot.wordpress.com/

Site da Gaviões da Fiel: http://www.gavioes.com.br/

Trabalho de Graduação Individual de Danilo H. V. Cajazeira, disponível em:http://www.4shared.com/file/101060888/22b819c5/Geografia_s__do_futebol_-_Danilo_H_V_Cajazeira.html.

1 comentário

Arquivado em estádio, mídia, sociedade

Espaços vão se abrindo

Felizmente, ainda há espaços na mídia dispostos a fazer o que um jornalista deveria fazer, ou seja, apurar os fatos.

O texto abaixo saiu do Observatório da Imprensa:

TORCIDAS ORGANIZADAS
Uma história mal contada

Por Luciano Martins Costa em 5/6/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 5/6/2009

A imprensa tem um discurso único para descrever a violência associada a torcidas organizadas: a de que bandos de criminosos usando uniformes de times de futebol combinam encontros para realizar suas batalhas, ou armam emboscadas para agredir os adversários.

Essa é a versão corrente nos jornais desde quinta-feira (4/6), quando se noticiou pela primeira vez o choque entre cerca de 450 torcedores do Vasco da Gama e perto de 50 torcedores do Corinthians, pouco antes da partida de quarta-feira (3) pela Copa do Brasil, no estádio paulistano do Pacaembu. Os jornais aceitam a tese de que 50 torcedores corinthianos provocaram uma briga com um grupo de vascaínos em número quase dez vezes maior.

Que o comportamento das hordas ultrapassa o limite do compreensível é tema de muitas dissertações, das quais talvez a mais densa esteja no clássico Massa e Poder, de Elias Canetti. Mas qualquer jornalista tem obrigação de desconfiar da tese de que um grupo minoritário se disponha a enfrentar em batalha uma força muitas vezes superior.

Versão oficial

Foi o que fez a repórter Leonor Macedo, da revista TPM. De dentro do estádio, ela ficou sabendo que teria havido um confronto entre torcedores corintianos e vascaínos, com graves consequências. Pelo telefone e, posteriormente, em conversas com testemunhas, ela reconstitui uma história que não está nos jornais.

Relata a jornalista (ver o texto aqui) no site da TPM que o confronto foi provocado por falta de coordenação entre dois grupos de policiais designados para acompanhar os movimentos das torcidas organizadas antes do jogo.

Um grupo de policiais teria parado o ônibus dos corintianos para uma revista nas proximidades do Clube Espéria, na Marginal do Tietê. Sem coordenação, outro grupo de policiais que escoltava os quinze ônibus de vascaínos também parou o comboio que vinha do Rio de Janeiro, a curta distância do local onde os corintianos esperavam terminar a fiscalização.

O confronto teria começado aí, provocado por um erro tático da polícia.

A versão oficial, defendida pelo promotor encarregado do caso, conta uma história quase inverossímil. Mas a imprensa compra a história sem ouvir testemunhas.

1 comentário

Arquivado em estádio, mídia, sociedade

Ainda sobre a morte de Clayton

Texto brilhante da Lelê, uma aula de jornalismo decente:

http://revistatpm.uol.com.br/blogs/eneaotil/2009/06/04/o-papel-de-cada-um.html

Texto do Cláudio sobre o promotor Paulo Castilho:

http://chutaquiehmacumba.blogspot.com/2009/06/promotor-golpista.html

Deixe um comentário

Arquivado em estádio, mídia, rivalidade, sociedade

Quando a política e a burocracia valem mais que a vida

Ontem, 03 de junho de 2009, Corinthians e Vasco decidiram no Pacaembu uma das vagas à final da Copa do Brasil. Ontem, 03 de junho de 2009, na Marginal Tietê, mais um torcedor foi vítima da violência que permeia não só o futebol, mas toda a sociedade. Uma violência que as capas de jornal e as telas de TV não demoram em taxar de “irracional”, “gratuita” e “criminosa”, no que até chegam a ter razão em alguns momentos, mas que nunca buscam explicar e compreender na esfera que diz respeito ao que mais importa: a segurança da vida dos torcedores de futebol.

A informação oficial do promotor de justiça Paulo Castilho e do major da Polícia Cipriano Rodrigues, responsáveis pela segurança no jogo de ontem (e no caso do promotor, pelas políticas de segurança relacionados a jogos de futebol em São Paulo), segundo o jornal Lance! de hoje, é de que “15 ônibus com cerca de 800 cruzmaltinos chegaram pela Rodovia Presidente Dutra. Na altura de Guarulhos, eles foram acompanhados por 20 policiais militares de moto”.

Paremos neste ponto. Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que 20 policiais são mais do que insuficientes para fazer a escolta de 800 torcedores. Ainda mais quando, segundo o próprio promotor, sabia-se da intenção de emboscada entre as torcidas, graças à denúncia anônima que ele mesmo recebeu e por conta da qual impediu os vascaínos de deixarem seus ônibus nas sedes de TUP e Mancha Alviverde, torcidas do Palmeiras aliadas às vascaínas. A idéia dos cariocas era ir a pé ao estádio. Paulo Castilho disse à Polícia para não permitir e ordenou a escolta dos ônibus até o Pacaembu.

No caminho, voltando ao texto do Lance!, “eles acessaram a Marginal do Tietê e, quando chegaram à Ponte das Bandeiras, Zona Norte de São Paulo, cruzaram com quatro carros e um ônibus de corinthianos. De acordo com o major Cipriano Rodrigues (…), os vascaínos conseguiram se desvencilhar da escolta. Tiros e pedaços de paus foram usados no conlfito”.

Não bastasse o absurdo que é não perceber o possível cruzamento entre ônibus de torcidas rivais na Marginal Tietê, via mais do que conhecida de acesso ao estádio, faltou ao comandante contar um pouco mais sobre que ônibus e que carros de corinthianos eram esses, e explicar melhor como os integrantes das torcidas chegaram ao confronto.

Fora o já sabido número ridículo de policiais na escolta vascaína, há muitos outros problemas que levaram ao assassinato do torcedor. Comecemos pela própria escolta. Como a Polícia leva 15 ônibus de torcedores até o estádio sem fazer uma revista em seu interior? Se esta foi feita, como não foram descobertas as barras de ferro, pedaços de pau e armas de fogo utilizadas no confronto? Descaso? Despreparo? Ou a mesma falta de entendimento dos torcedores organizados enquanto um coletivo que tem representação social e jurídica perante à sociedade e o tratamento dos mesmos enquanto bandidos e animais a priori, fazendo com que a minoria violenta ganhe o apoio da maioria não-violenta exatamente por esta se sentir mais segura com a segurança pessoal dos próprios companheiros na base da arma de fogo do que com a segurança que deveria ser provida pela Polícia? Qualquer semelhança com a relação entre moradores de periferia e traficantes que “protegem” a comunidade não é mera coincidência; qualquer relação com o resultado do plebiscito sobre o porte de armas de fogo realizado anos atrás, também não.

Além disso, a Polícia credita aos torcedores corinthianos a intenção da emboscada, por ter encontrado com estes as já citadas barras de ferro e armas de fogo. Os mesmos 60 e poucos que vinham em um ônibus e quatro carros e que foram presos após o confronto pelo porte das armas e por tentativa de homicídio, juntos aos vascaínos envolvidos. Agora, dá mesmo para acreditar que 60 e poucas pessoas buscavam emboscar 800? Ou será que é mais fácil omitir informações sobre essas 60 pessoas? Como aqui a intenção é contextualizar ao invés de pintar um cenário apocalíptico e irracional como de costume, vamos a elas.

A pequena caravana corinthiana era composta por membros do Movimento Rua São Jorge. Um grupo de associados da Gaviões da Fiel que se indignou com algumas práticas às quais são contrários na quadra da torcida – como corrupção – e passou a se encontrar na Rua São Jorge para ir aos jogos. Grupo esse que conta com diversas lideranças importantes da Gaviões e que, entre outras coisas, promoveu um seminário sobre torcidas organizadas envolvendo jornalistas, políticos e torcedores buscando colocar as torcidas como o que deveriam ser, representantes do torcedor no mundo do futebol, a lutar contra o preço dos ingressos e a condição indigna a que são submetidos jogo a jogo, por exemplo. Em outras palavras, lutam para serem entendidos e respeitados como um movimento social, e não meros consumidores.

Iam ao jogo de ontem, como sempre, sem escolta, porque a Polícia Militar simplesmente não os reconhece enquanto torcida – apesar de serem sócios ativos da Gaviões da Fiel – já que não tem CNPJ. Enquanto um grupo pequeno em relação aos “bondes” já estabelecidos há tempos por todas as outras organizadas, e por concentrarem várias lideranças da Gaviões, são sempre alvo de ataques e emboscadas – muitas já denunciadas pela mídia afora. Algo que a Polícia e a Secretaria de Segurança Pública preferem ignorar burocraticamente – até que coisas como o que passou ontem aconteçam. E aconteçam, neste caso, porque a Polícia parou os corinthianos para revistá-los a uma distância de 100 metros dos vascaínos, segundo um torcedor que estava no ônibus corinthiano. Além da completa falta de comunicação e planejamento, se fez presente como sempre o descaso com o torcedor organizado, tratado como lixo, e com a vida – o que infelizmente não é de se estranhar quando estamos falando da mesma Polícia que protagonizou cenas como o massacre do Carandiru. A organizada, transformada em sujeito, atravessa a própria condição dos sujeitos pertencentes a ela, que não são mais pessoas, apenas números e nomes na lista de envolvidos e mortos.

Não se justifica encontrar entre torcedores que vão a um estádio de futebol barras de ferro e revólveres. Mas a explicação para isso não é simplesmente algum tipo de vontade sociopata de matar presente em todos eles. Cada vez mais, as políticas em relação aos estádios vão no sentido de isolá-los, excluí-los, elitizar as arquibancadas e passar a imagem do estádio enquanto um ambiente seguro e tranquilo a ser consumido – por quem pode pagar R$ 4,00 num simples churros e ir a jogos às 21h50 de uma quarta-feira. O problema, que as autoridades terão de enfrentar em algum momento, é que o jogo não se resume – nunca se resumiu – ao espaço do estádio. O futebol está presente por toda a cidade, ainda mais em dias de jogos, e tentar reduzí-lo ao estádio não é um risco, é uma opção política, uma orientação que tem o mesmo sentido daquela que permite a certos grupos espancar e matar moradores sem-teto no centro da cidade, e retirá-los de prédios ocupados usando de força desmedida, mesmo contra mulheres, crianças e idosos.

Hoje, há dezenas de pessoas hospitalizadas, algumas com ferimentos a bala. E como já se sabe amplamente, uma pessoa, ainda não identificada, foi espancada até a morte e deixada na Praça Campos de Bagatelle, palco recente da comemoração de títulos conquistados pelos clubes paulistanos. Apenas de cueca, sem documentos e com o rosto completamente desfigurado. Uma estratégia comum no mundo do tráfico de drogas – assim como o incêndio do ônibus vascaíno em represália acontecido durante o jogo, que não se compara em nada à morte do torcedor – a destruição de um patrimônio material nunca é mais importante do que a perda de uma vida. E os meios de comunicação, como sempre, noticiarão o caso em sua maioria como uma simples briga de gangue, darão voz aos que querem o banimento das torcidas organizadas, aos jogos de uma torcida só – os mesmos que não sabem, ou fingem não saber, que o São Paulo x Corinthians da primeira fase do Paulistão, aquele em que vigorou pela primeira vez a restrição de 5% às torcidas visitantes, registrou número recorde de ocorrências pela cidade desde aquele São Paulo x Palmeiras pela Copa São Paulo de Juniores em que um torcedor foi morto a pauladas dentro de campo – cena repetida milhões de vezes pelos canais de televisão até hoje.

Em 2014, o Brasil sediará uma Copa do Mundo. São Paulo, provavelmente, será o palco da abertura e, com certeza, de diversos jogos importantes. Até lá, como estarão as medidas de segurança pública em dias de jogos? E a condição dos torcedores, organizados ou não? Caminharemos para o mesmo destino do Rio de Janeiro, com seu Pan-Americano que retirou moradores de rua às pressas para a vistoria do COI e que deixou de herança elefantes brancos, construídos com dinheiro público, prestes a serem prrivatizados a preço de banana? Ou há força suficiente para nos organizarmos por uma Copa que seja realmente nossa, da qual façamos parte, sobre a qual sejamos consultados – como deveríamos ser sempre quando se trata de medidas de segurança pública?

Se a mídia, que tem o dever de informar, quase sempre não o faz com a clareza e a crítica necessária, que ao menos textos como este e ações que sigam na direção de acabar com as mortes e a exclusão social sejam difundidos de todas as formas possíveis. Se ele chegou até você, leia. Pare, reflita, critique, encaminhe. Que começemos a criar, de todas as formas ao nosso alcance, um fórum de discussão sobre estes assuntos. Dizem respeito às nossas vidas. E podem determinar, como ontem, a nossa morte um dia.

Que, a partir de hoje, nenhum episódio sequer de violência passe despercebido e sem ser denunciado no seu conteúdo total. É este o desejo de quem escreve este texto. Porque escrever é muito mais do que saber juntar palavras – ainda mais quando se ganha pra isso.

Kadj Oman
DHVCorinthians

04/06/2009

2 Comentários

Arquivado em estádio, mídia, rivalidade, sociedade

A paz dos justos

por Thomas Castilho

Após cada um dos finais de semana do mundo da bola recheados de tragédias somos obrigados a ouvir a velha ladainha de sempre. Talvez um ou outro personagem novo, deslumbrado com a possibilidade de sucesso rápido. Sem o mínimo de conhecimento de causa, pensa em fórmulas mágicas capazes de solucionar um problema crônico de nossa sociedade, manifesto todos os dias de inúmeras formas, inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias. Balbuciam números como se ali existisse alguma solução capaz de se fazer entender as complexas relações que envolvem os diferentes personagens do meio esportivo, particularmente do futebol.

Um grande número de jornalistas despeja sua ignorância e seu preconceito por todos os cantos, se alimentando das tragédias como o urubu da carniça. Partem dos dogmas levianos em que fundamentam seus raciocínios limitados para conseguir chegar apenas a conclusões vazias que guerreiam para ver quem tem o adjetivo mais criativo. Uma guerra de adjetivos e qualificações, desprovida de idéias e fundamentos. 

Isso cansa. Lamentavelmente, apenas demonstra que os problemas crônicos relacionados à violência e à falta de organização do futebol brasileiro vão bem, obrigado, assim como também indica a falta de vida inteligente buscando soluções perenes, construídas com engajamento e trabalho, sem rótulos baratos. Se não é “inteligente” quem vai aos estádios num dia de clássico, me parecem menos inteligentes aqueles que vivem para adjetivar os “não-inteligentes”, sejam eles torcedores, dirigentes ou jogadores.

Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.

 Alguns princípios básicos:


– Todo trabalho que venha a ser feito deve ser pensado no longo prazo. Isso quer dizer que mesmo depois de eliminados os episódios que resultam em mortes, ele deve continuar. Não pode ser deixado no meio do caminho como tem sido feito. Contínuo e ininterrupto, reunindo representantes do Estado, dos clubes, e da sociedade civil (torcedores, organizados e não-organizados, marqueteiros, psicólogos, estudiosos da área, jornalistas). Deve ser em nível Nacional e local, com o levantamento de problemas específicos e relevando as diversidades culturais e estruturais nas diferentes regiões do país. Todas as demandas devem ser ouvidas e atendidas dentro das possibilidades.

– o objetivo é fazer a paz para os torcedores que historicamente freqüentam os estádios de futebol, todos eles, respeitando seus valores e sua cultura. Respeitando o seu modo de torcer desenvolvido ao longo de um século. Uma paz inclusive para aqueles torcedores das finadas Gerais, épicas, do Maracanã, do Mineirão, do Beira-Rio ou do Morumbi, que é agora dos torcedores “VISA”. Paz, implica respeitar o direito dos que têm e dos que não têm, rejeitando qualquer tipo de paz financeira, que há muito é sugerida por nossa elite. O que importa se a imprensa submissa, que só consegue enxergar a Europa quando busca uma referência, acha bonitinho os bilhetinhos e as cadeirinhas numeradas se o povão que vive o drama gosta de ficar em pé, abraçado, fazendo o “póropópó geral”? Não se trata de gado, e podemos bem decidir o que é melhor para a gente, quer achem feio, quer não.

– assumimos que moramos num país regido por uma Constituição, da qual emana toda e qualquer lei, pouco importando os caprichos daqueles que são contra a existência das torcidas. Não tem relevância. A idéia já começa diferente. Se nós queremos a paz, partimos do seguinte pressuposto: vivemos num estado de direito e todos são inocentes até que se prove ao contrário. As lideranças não devem viver no gueto. Se alguém deve para a lei cabe à Justiça julgar e punir possíveis culpados. Nós não temos nenhum Daniel Dantas como associado e o presidente do Supremo não nos daria Habeas Corpus ou muito menos se oporia ao uso de algemas contra nossos associados. As torcidas não têm nenhuma razão para se omitir em um processo de paz. Se as torcidas são parte do problema, certamente são a única via para uma paz verdadeira, que não seja pautada apenas pela repressão. As lideranças de torcida devem ser reconhecidas como parte fundamental de qualquer processo que mencione a palavra paz. Não sendo julgados sem que tenham alguma pendência com a justiça, como é feito. A paz de verdade não é feita nos blogs, não é feita nos gabinetes e muito menos nas redações. A paz verdadeira é feita nas ruas. Faz paz quem tem disposição para a guerra. E o pressuposto básico é a justiça.

– o outro lado importante desse processo chama-se Polícia Militar. É preciso criar um destacamento especial para lidar somente com estádios de futebol. Pessoas especialmente treinadas para lidar com multidão em praças esportivas, aprendendo a tratar o torcedor com o devido respeito e deixando de enxergá-lo como um inimigo, evitando os atos de punição coletiva, como ocorrido no Morumbi no último clássico. Devidamente equipados e treinados, procurando estreitar ao máximo a cooperação entre as lideranças de torcida e os oficiais. Esse trabalho, que teve início há muitos anos na saudosa gestão do coronel Resende e que teve continuidade com o coronel Marinho, tem momentos de avanços e momentos de retrocessos. Deve ser aprofundado, aumentando a proximidade dos atores envolvidos e acertando a cooperação entre policiais e lideranças sempre que qualquer tipo de conflito venha a ocorrer. Como meta sempre o diálogo antes de ampliar o uso da violência. Respeito recíproco deve ser construído. Temos que mudar um olhar que infere a inimizade para um que permita nos enxergarmos como cooperadores que possuem objetivos comuns.

– outro ponto é o desenvolvimento de uma legislação específica para crimes em praças esportivas e tribunais móveis capazes de julgar e aplicar a pena no momento do evento. As leis devem endurecer nos casos de utilização de armas, de qualquer espécie, em qualquer local, e buscar a construção de penas alternativas para infrações menores, inclusive impossibilitando a presença de transgressores nos estádios nos dias de jogo do seu time. Essas leis devem ser formuladas com a participação de todos os setores da sociedade civil, e não podem ser carentes de eficácia, levando em consideração todos os problemas já existentes em nossa ordem jurídica. O Jecrim (Juizado Especial Criminal) foi uma experiência válida, e tentou algumas vezes atuar na frente dos estádios. Mas aonde anda? Toda ação – Jecrim, Comissão da Paz, Comissão do PROCON – é importante, mas se e somente se for atuante o suficiente para não cair no esquecimento e desuso. Mais do isso devem ser integradas, para que se alimentem e troquem experiências, traçando objetivos de curto e de longo prazo, se renovando e se desenvolvendo.
 
– as torcidas devem assumir um compromisso de extermínio de toda e qualquer prática de violência premeditada, criar mecanismos eficientes de punição interna, além de banir qualquer tipo de música que faça apologia à violência.

Depois dos princípios básicos serem respeitados, vamos ao caminho:

– mapeamento de todos principais conflitos e problemas do Brasil envolvendo o futebol,e principalmente os que dizem respeito às torcidas. Identificar todos os jogos que envolvem maior rivalidade e risco de episódios trágicos. O aumento da rivalidade entre as torcidas tem raízes históricas, que passam por problemas ocorridos ao longo do tempo. Um incidente ocorrido num jogo lá da década de 80 em uma caravana específica, num momento em que o policiamento ainda não estava presente, e que se iniciou com uma discussão banal entre dois torcedores alcoolizados, pode explicar a origem de um conflito irracional que se arrasta durante anos. Ao mesmo tempo, existem torcidas que demonstram ter afinidades e desenvolvem uma relação de cordialidade. Tudo isso deve ser relevado. Priorizando e prevenindo os principais conflitos podemos pôr um fim nessas diferenças, que são o que alimenta o ciclo. Eles possuem um lado pessoal e um lado impessoal. Ao mesmo tempo em que muitos dos que brigam conhecem os que brigam nas outras torcidas, mostrando um traço de pessoalidade, os conflitos têm o poder de se perpetuar no tempo, envolvendo as gerações futuras, o que o torna também impessoal. Mesmo os que nunca tiveram problemas, nunca pensaram em brigas, e que por ventura se disponham a acompanhar seu time pelo seu estado e pelo Brasil, terão que lidar com uma realidade complexa, da qual a violência já é parte.
 
– reuniões antes de todos os clássicos e jogos de risco, envolvendo as lideranças das torcidas e o comando do policiamento. Mapeamento de todos os coletivos espalhados pela cidade, identificação dos principais pontos de encontro, acerto de horários e trajetos, identificação dos pontos críticos e envio de destacamentos para locais pré-determinados entre o policiamento e as torcidas. Essas reuniões seriam espalhadas para os bairros, dando responsabilidade aos torcedores e facilitando as investigações de possíveis incidentes. A imprensa tomaria parte nesse ponto, ajudando na divulgação de trajetos e horários e dando voz às lideranças para que orientem seus associados. Ampliando a via de contato com os associados. As torcidas já se submeteram a cadastramentos humilhantes sem que nenhuma de nossas demandas fosse ouvida. Aqui nesse país se cadastra por prevenção, presumindo não a inocência, mas a culpa. Hoje, lemos a notícia que mais uma carteirinha mágica será feita para “acabar com a violência”. Seria muito fácil se carteirinhas acabassem com a violência, não? Aliás, para que temos R.G.? Só mais uma burocracia irracional para satisfazer a ânsia por respostas da sociedade. Isso já não tinha sido feito, só com os “vândalos”? Mas os sábios da bola e da política não sabem nem que a maioria dos problemas ocorre não nas redondezas dos estádios, mas nos terminais longínquos dos bairros ou no centro da cidade, e nos trajetos para o estádio. Nesses pontos ninguém mostra carteirinha. Além do mais, leis inconstitucionais costumam ter vida curta. Carecem de vigência. O Capez sabe bem disso.

– uma campanha nacional utilizando todos os meios disponíveis para divulgar mensagens inteligentes para a construção da paz, inclusive com as lideranças participando do processo, empenhando suas imagens e suas palavras num compromisso. Também jogadores, ex-jogadores, personalidades ligadas ao esporte, e todos que possam contribuir.

Pela televisão, pelo rádio, panfletos e jornais. Coisa bem feita, com gente boa. De forma que possamos assim construir um ambiente no qual as pessoas saiam de casa com seus espíritos desarmados, sem disposição para a guerra. Um pouco diferente do que foi feito no último jogo entre Corinthians e São Paulo.

Essa é a paz dos justos. Não é a paz dos que assistem aos jogos das cabines de transmissão, ou do conforto da sua sala, mas a paz dos que vivem a realidade não muito atraente dos estádios de futebol. Dos que convivem com a violência policial, dos que pagam preços abusivos pelos ingressos, dos que esperam pacientemente o horário-do-final-da-novela para o início do jogo, que andam quilômetros até o centrão para pegar o último busão para casa, que enfrentam os banheiros porcos e vêem seus clubes administrados por dirigentes corruptos. A paz dos que vêem seus ídolos trocar de time como trocam de camisa e que observam seus clubes se tornarem palco para atuação de meia dúzia de dirigentes e empresários interessados nos lucros do comércio dos menores boleiros. E que ainda assim pagam 30, 40, 50 ou 70 reais para assistir um jogo de futebol, na chuva ou no sol, na quarta e no domingo. Dos que sofrem a discriminação da imprensa e ainda assim pegam a estrada e rumam para os quatro cantos desse país acompanhando seu time. Dos que têm se acostumado com os escândalos envolvendo árbitros, sem deixar de se submeter às mais constrangedoras situações para extravasar seu grito de gol.

 Num mundo regido pela matéria, pelo dinheiro, o não-inteligente não é aquele que não mede esforços para expressar o amor, mas aquele suficientemente racional e burocrático para se dizer inteligente porque tem medo de ir viver o amor. Amor e inteligência só combinam quando a inteligência está no ato de amar, já que depois que amamos, não parece ser inteligente o que nos dispomos a fazer. Todos nós. 


O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.

(Thomas Castilho é ex-conselheiro e ex-diretor dos Gaviões da Fiel)

3 Comentários

Arquivado em estádio, mídia, sociedade