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Vítimas da exploração

EXCELENTE artigo do amigo geógrafo, jornalista e técnico do nosso time na faculdade Paulo Fávero, publicado no Universidade do Futebol.

Vítimas da exploração
Jovens são tratados como mercadoria na ilusão de um dia serem profissionais do futebol
Paulo Miranda Fávero

Seja na infância ou na idade adulta, a exploração do jogador de futebol se dá por diversas maneiras. A noção de liberdade é uma ilusão necessária no capitalismo e o jogador não tem autonomia da escolha. Dentro do sistema Fifa, se ele quiser atuar profissionalmente, terá de fazer sob contrato de algum clube regularizado. Por isso existe um mercado paralelo para viabilizar esse sonho.
 
O jovem M. (o nome será omitido a pedido do próprio entrevistado) revela como funciona um esquema para profissionalizar atletas. No caso específico de M., foi pago R$ 3.000,00 para um ex-jogador fazer o processo de profissionalização. “Eu dei cópia dos meus documentos, foto e assinei os contratos da CBF. Não precisei fazer exame médico, foi tudo arranjado. Quem deu a grana foi um amigo, que acha que eu tenho condições e investiu em mim. Mas fazendo testes nos clubes, alguns moleques me falaram que dava para fazer tudo por apenas R$ 1.500,00”, conta.
 
M. tinha 25 anos na época, 1,76m de altura e pesava 52 quilos. Além de não ter o porte atlético para um jogador profissional, tem uma idade já avançada para iniciar uma carreira nos campos de futebol. “Neste mundo em que tudo se dá um jeitinho, sempre fica um fundinho de esperança. A gente vê tanto jogador ruim na TV que acha que consegue. Mas pensando racionalmente, eu acho que não tenho condições. Como um amigo se dispôs a pagar para mim, aceitei. E é assim que funciona”, comenta.
 
Mas quando M. quis disputar competições amadoras, que envolvem milhares de pessoas em todos os lugares, os famosos jogos de várzea, descobriu que não podia mais: ele era profissional. “Agora, para poder atuar nestes campeonatos, preciso pagar R$ 100,00, para fazer o que eles chamam de reversão, ou seja, voltar a ser amador”, explica. O registro de M. foi feito em um clube do interior paulista e seu nome saiu no BID, o Boletim Informativo Diário da CBF. E M. até indica o caminho para aqueles que sonham em se consagrar nos gramados. “Muita gente que eu troquei idéia faz um DVD com seus melhores momentos. Isso ajuda muito e o cara pode até conseguir uma transferência para o exterior”, diz.
 
 
Quanto os capitalistas precisam pagar para obter os direitos relativos à força de trabalho, e o que, exatamente, esses direitos abrangem? As lutas sobre o índice salarial e sobre as condições de trabalho (a extensão do dia útil, a intensidade do trabalho, o controle sobre o processo laboral, a perpetuação das habilidades etc.) são, em conseqüência, endêmicas com respeito à circulação do capital (HARVEY, 2005, p. 132).
 
 
É inevitável que em plena sociedade do espetáculo muitas crianças tenham a ilusão de um dia tornarem-se atletas de futebol. Como foi exposto, existe um mercado voltado para suprir as demandas pelos craques, mas que dá as costas àqueles que não deram certo na profissão. Harvey aponta que a força de trabalho é uma mercadoria, e assim também é qualificada como uma forma de propriedade privada. Mas num mundo em que ninguém pode atentar contra a propriedade privada alheia, o jogador, seja ele criança ou adulto, não tem direitos exclusivos de venda de sua própria força de trabalho, como qualquer outro trabalhador, e ele mesmo já se tornou uma mercadoria para ser consumida.
 
Hoje, muitos desses jogadores são como as vedetes citadas por Guy Debord: eles têm um papel a desempenhar e vivem na aparência. São o contrário do indivíduo e preferem ficar com a personagem de si mesmo. Quando olham para o espelho, preferem ser a imagem refletida, como nos aponta Lefebvre[1]. É uma vida aparente sem profundidade, mas eles se satisfazem por receberem o “direito de imagem” que o clube paga. “As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso” (DEBORD, 2002, p. 41).
        
Na própria linguagem do futebol, os jogadores são considerados mercadoria: “(…) os demais agentes referem-se a eles, seguidamente, como mercadorias: ‘fulano custou x’, ‘com fulano o clube faturou x’, ‘fulano foi comprado por x, mas não vale y’ e assim por diante” (DAMO, 2005, p. 340). Até quando a sociedade irá olhar para isso como se nada estivesse acontecendo?
 
 
Bibliografia
 
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. 2005. 435 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2005.
 
DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
 
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
 
 
*Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQe pesquisador do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol).


[1] Informação extraída de uma tradução não-oficial do capítulo O Espaço Contraditório, do livro A Produção do Espaço, de Henri Lefebvre.

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Passa Palavra 3 e 4

Fechando o Especial Futebol e Política, o Passa Palavra publicou os dois últimos textos sobre esta intrínseca relação.

O terceiro, “Futebol de Várzea – caminhos de insubordinação”, é assinado por Rafaaa e versa sobre a organização varzeana e seus princípios de solidariedade.

Leia aqui.

O quarto, “O Futebol-Empresa”, é de autoria de Tiago Ripa e é uma análise soberba e substancial sobre os rumos do futebol brasileiro cada vez mais subjugado ao mercado financeiro internacional.

Leia aqui.

Se o Especial termina, no entanto, é só por enquanto. Com a Copa de 2014 no horizonte, não faltarão oportunidades de se discutir futebol e política no Brasil e no mundo.

Que a iniciativa do Passa Palavra, portanto, não definhe esquecida por estes rincões virtuais. Se depender do Vai, Lateral!, estaremos sempre vivos.

E, quiçá, cada vez mais fortes.

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Seu Cido

Em razão do falecimento, na noite desta quarta-feira, aos 61 anos e em razão de um derrame, de Seu Cido, colega de trabalho bastante querido, reproduzo aqui novamente o texto sobre ele postado em 12 de novembro do ano passado em meu blog pessoal.

Cido, todos se vão um dia; só aqueles com caráter e carisma ficam pra sempre.

Saudades de seu colega de trabalho e de histórias da várzea.

***

Seu Cido

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (”mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

– Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.

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