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Tuffy

Retirado de http://www.douglasnascimento.com/blog/tuffy-um-goleiro-que-nao-podemos-esquecer/

(por Douglas Nascimento)

Tuffy, um goleiro que não podemos esquecer

Dizem que no futebol a posição mais ingrata é a de goleiro. Defender as metas de um time pode ser tão delicado quanto lidar com taxas de juros do banco central, qualquer descuido pode ser catastrófico.

E ser goleiro significa ser um jogador de dois extremos. Uma sequência de defesas espetaculares pode fazer deste um herói, por outro lado se falhar cai em desgraça.

Esta tão instável posição de já revelou no passado inúmeros talentos, tanto ou mais que nos dias de hoje. Vimos pisar nos gramados homens como Gilmar dos Santos Neves, Oberdan Cattani, Manga, Félix e Caxambu, só para citar alguns nomes mais conhecidos. Hoje a geração de goleiros consagrados atende pelos nomes de Rogério Ceni, Marcos e Júlio César, entre outros.

Mas muito antes de todos estes goleiros do passado e do presente sequer pensarem em serem consagrados, um grande jogador de nome e personalidade forte, caráter irrepreensível, e de uma segurança invejável sob as metas já defendia o gol corintiano por aí. Seu nome, Tuffy.

O Histórico:

Tuffy Neujm (ou Neugen como escrevem alguns por ai) , nasceu na cidade de Santos ainda no século XIX em 1898. Apesar de santista não foi no alvinegro praiano que ele começou a jogar bola, e sim na extinta A.A das Palmeiras, aos dezessete anos de idade. Ele ainda passaria por Pelotas, Santos, Sírio-Libanês, Palestra Itália, novamente Santos até chegar em seu grande auge, no Corinthians entre 1928 e 1931.

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Era apelidado pela imprensa e pelos seus adversários de Satanás, pelo seu uniforme negro, suas costeletas e por estar algumas vezes com a barba para fazer. Entre suas inovações foi um dos primeiros da posição a adotar luvas.

O Homem:

Hoje, com a facilidade de informação que temos a nossa disposição, é muito fácil sabermos de tudo que os atletas fazem. Ficamos sabendo de seus hobbies, de seus outros negócios, de suas baladas indevidas e tudo mais. Mas na época em que Tuffy disputava suas partidas isso era muito mais difícil. Fui atrás de alguns fatos curiosos sobre a vida de Tuffy que provavelmente nunca foram colocadas em pauta.

Em outubro de 1931 Tuffy publicou um anúncio de 1/4 de página no jornal “A Gazeta”, um feito bem dispendioso para um jogador de futebol na época. No seu anúncio, um apelo para que dirigentes e esportistas paulistas se unissem para auxiliar o jogador Tatu, que até pouco tempo antes deste anúncio, havia defendido a Portuguesa de Desportos e gravemente doente teve que abandonar definitivamente o futebol, chegando a passar muita necessidade.

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No anúncio, Tuffy com palavras emocionantes conclamava seus colegas a contribuirem com 10$000 (10 contos de Réis) para ajudar Tatu (apelido do atacante Altino Marcondes). A ajuda, após o apelo, foi grande mas Tatu viria a falecer meses depois, no início de 1932.

O Empresário:
Além de talentoso sob as metas, hábil nas palavras e dono de um coração bondoso, Tuffy também era um homem de negócios. Após encerrar sua carreira no Corinthians, foi proprietário do cinema Penha Teatro (alguns sites dizem ele ter sido bilheteiro de um cinema no centro, mas ele foi na realidade dono), vendendo depois , por razão que desconheço, ao Sr Antonio Rego Vieira.

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O Fim:

Em 1935, vitimado por uma pneumonia dupla, Tuffy viria a falecer. Como era desejo seu, foi sepultado com a camisa do Corinthians em seu mausoléu no Cemitério São Paulo em Pinheiros e é lá que está até hoje.

Mas poderia estar melhor, seu túmulo há muito tempo está esquecido e em situação de abandono. Descobri sua “morada definitiva” certo dia do ano passado quando fui a um enterro. O sepultamento foi na mesma rua em que vi uma pilha enorme de sujeira, folhas e alguns restos de vasos plásticos, notei o emblema no uniforme e fui mais perto ver, quando descobri que tratava-se do túmulo de Tuffy.

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Meu pai, já falecido, era corintiano e contava muitas histórias sobre Tuffy e outros ídolos da época como Grané e Del Debbio, então sempre soube de suas façanhas em campo, e ao me deparar com seu túmulo ali, sujo e esquecido fiquei muito emocionado e aborrecido.

Além disso, alguns ornamentos de sua sepultura há muito foram arrancadas. Voltei ali dois dias depois, num sábado, e limpei o local. Porém desde então nada mais foi feito.

Seu túmulo, como puderam ver na imagem acima, é bastante simples e aparentemente ele está ali sozinho. Uma foto sua com o uniforme de goleiro do Corinthians em um lado e duas placas, uma com suas datas de nascimento e morte e outra uma homenagem recebida por ele em 1936 doada por veteranos do futebol uruguaio adornam o mausoléu.

Fotografia: Douglas Nascimento

Me entristece em ver que quase ninguém se lembra mais deste grande ídolo do futebol brasileiro. Nós não reverenciamos nossos mortos, temos medo e preconceito de ir a um cemitério, quando na verdade ali é um recinto de paz.

O que este homem contribuiu para o futebol alvinegro tornar-se aos 99 anos de existência o gigante que é, pede que seja mais lembrado pelos corintianos. Fazendo uma analogia simples, se o Corinthians fosse uma casa em construção, de nada hoje adiantaria Ronaldo e Chicão fazerem o telhado, se homens como Tuffy Neujm não tivessem antes construido os alicerces.

Visitem Tuffy no Cemitério São Paulo, depositem flores em seu túmulo façam um minuto de silêncio e roguem por sua alma. Onde estiver ele estará torcendo eternamente pelo Corinthians.

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