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Passa Palavra 2

O especial sobre futebol e política do Passa Palavra chega ao segundo artigo, escrito por mim.

O tema é a Gaviões da Fiel e seus aspectos políticos.

Reproduzo abaixo.

Especial Futebol (II): A Gaviões da Fiel e o caráter político do torcedor

Segundo artigo do especial do Passa Palavra sobre futebol, é sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui. Por Kadj Oman [*]

gaviao_interna3O ano era 1969. Vivíamos sob a ditadura, mais precisamente na época da chamada “linha dura”, com Costa e Silva no poder. Um ano havia se passado desde 1968, quando revoltas, principalmente estudantis, recrudesceram tanto a oposição quanto o governo. Veio o AI-5, e a censura, a repressão e a tortura se espalhavam por todo o país.

Em meio a tudo isso, em São Paulo, o clube de futebol mais popular do Estado enfrentava a sua própria crise: há 15 anos sem títulos, o Sport Club Corinthians Paulista vivia também outra ditadura, particular. Wadih Helu, há mais de década no poder, fazia o que queria com o departamento de futebol profissional. Até que um grupo de torcedores que se encontrava nos jogos do time desde 1965, liderados por Flávio La Selva, resolve fundar uma torcida organizada, a primeira do Brasil, apoiada estruturalmente nos moldes dos clubes de bairro e ideologicamente na efervescência de idéias de luta por liberdade que inundava o país. Tinha início, em 1º de julho, a Gaviões da Fiel.

release oficial da Gaviões, encontrado no sítio na internet da torcida – www.gavioes.com.br – e escrito por Roberto Daga, sócio número 3, diz exatamente que ”(…) um grupo de corinthianos autênticos que vieram a se conhecer nas gerais dos estádios onde o Corinthians se apresentava (…) movidos pelo ideal de colaborar com a vida do clube, não só incentivando o time, mas também participando efetivamente da vida política administrativa do Sport Club Corinthians Paulista (sic)” deu início à Gaviões. Um início que já se colocava como político, onde o “(…) ideal de participação nada mais é do que o exercício do direito de influenciar, e dar aos mandatários do clube, a legitimidade ao mandato exercido, e ao mesmo tempo obrigá-los à cumprir os verdadeiros anseios na Nação Corinthiana (sic)”. Começava a história do grupo que, anos mais tarde, traçaria como seu mote “lealdade, humildade e procedimento”. É sobre o procedimento, entendido pela Gaviões como a postura a ser tomada frente ao Corinthians e seus problemas, que falaremos aqui.

Hoje, junho de 2009, às vésperas do quadragésimo aniversário da torcida, o que inunda as manchetes de jornais pelo país é a notícia de que uma “dissidência violenta” da Gaviões teria provocado uma emboscada a torcedores do Vasco da Gama, em dia de jogo entre este e o Corinthians pela semifinal da Copa do Brasil, que terminou na morte de um torcedor corinthiano. Já questionada e refutada por grande parte da mídia, graças ao esforço de jornalistas independentes que fizeram o serviço de apurar os fatos e colocar o lado dos torcedores na história, a versão da mídia para o acontecido abre a possibilidade de um debate sobre o lugar atual do caráter político que a Gaviões da Fiel buscava exaltar em sua criação. Para isso, antes de mais nada, cabe identificar a dita “dissidência violenta” noticiada pela grande mídia.

Desde 1975, a Gaviões da Fiel participa do Carnaval paulistano, primeiro enquanto bloco, e depois – a partir de 1989 – enquanto escola de samba. Essa participação, além de ter sido fundamental no crescimento do número de associados da torcida, hoje com o maior quadro de sócios do país, modificou as estruturas de poder e de interesse de seus membros, principalmente alguns de seus dirigentes. O Carnaval mexe com dinheiro, muito dinheiro, tanto entrando quanto saindo. O que se configurou, então, foi uma gradativa divisão, a princípio não tão nítida, depois bastante clara e opositora, entre os interesses da escola de samba e os interesses da torcida de futebol. Grupos que defendiam os dois lados passaram a se opor sobre os rumos da Gaviões, tanto politicamente quanto economicamente. E essa divisão começou a ser posta à prova há mais de dez anos. Na década de 90, um episódio de confronto dentro de campo entre torcedores de torcidas organizadas de São Paulo e Palmeiras, após um jogo de juniores das duas equipes, desencadeou uma série de ações restritivas às torcidas organizadas no estado de São Paulo. Boa parte delas foi juridicamente fechada, o que não as impediu de existir mesmo que sem suas camisas e com bandeiras sem seus nomes, mas com seus ideais. A Polícia passou a acompanhar e controlar a atividade das mesmas, principalmente dentro do estádio. E as organizadas foram forçadas a mudar a toada de suas canções e ações.

gavioes_racismoNo caso da Gaviões, no lugar dos cânticos de extermínio ao rival, entram os gritos de apoio ao Corinthians e questionamento do poder do Estado, mesmo que indiretamente: ao invés de “Morumbi ela domina, Pacaembu ela destrói / No Rio ela detona qualquer um que ela encontra / Não tenho medo de morrer / Eu dou porrada pra valer / Eu amo essa torcida e o nome dela eu vou dizer / Como é que é? / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Vou dar porrada, eu vou / E ninguém vai me segurar”, temos “Contra todo ditador que no Timão quiser mandar / A Gaviões nasceu pra poder reivindicar / Os direitos da Fiel que paga ingresso sem parar / Não temos medo de acabar/ Corinthians joga, eu vô tá lá / Nossa corrente é forte e jamais se quebrará / Pelo Corinthians / Com muito amor / Até o fim / Gaviões – Fiel! / Eu sou / Da Gaviões, eu sou / Corinthians joga, eu vou / E ninguém vai me segurar”.

A repressão, portanto, acaba forçando as organizadas a se repensarem para sobreviver, e isso vai para além dos cantos de estádio: na forma jurídica, refundadas enquanto escolas de samba, as torcidas encontraram um meio de não poderem ser fechadas pelo Ministério Público. O Carnaval ganha espaço e importância. A oposição interna da Gaviões, então, volta a aparecer. E cinco anos atrás, passa por um teste de fogo.

O Corinthians vivia sob nova ditadura, desta vez de Alberto Dualib, quando, no final de 2004, fechou parceria escusa com um empresário iraniano. Kia Joorabchian, ligado à máfia russa, veio ao clube com a promessa de montar um “supertime”. A Gaviões, então, vivenciou um quase-racha entre aqueles que apoiavam a parceria e aqueles que eram contrários a ela. Dois anos depois, Kia, Dualib e o Corinthians preenchiam as páginas policiais dos jornais, com o iraniano sendo procurado pela Polícia Federal e tendo a prisão preventiva decretada. O clube, sem dinheiro e sem jogadores – os grandes craques, com a turbulência, foram levados para a Europa -, acabou o ano de 2007 tendo sido rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional pela primeira vez em sua história. Nas arquibancadas, entretanto, uma vitória: reunidos momentaneamente pelo momento de crise, os torcedores criaram a vitoriosa campanha “Fora, Dualib!”, que tirou o mandatário e sua diretoria do controle do clube, provocou uma mudança estatutária para impedir a reeleição infinita e recolocou a administração sob os olhares atentos dos torcedores.

No Carnaval, entretanto, confusões jurídicas e econômicas entre a Gaviões, a Liga das Escolas de Samba de São Paulo e a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão dos desfiles, causaram finalmente a ruptura entre os opositores do Carnaval enquanto atividade principal da entidade e os defensores do mesmo. Derrotados em eleição interna da torcida, os opositores – os mesmos que no começo da década realizaram uma aproximação da Gaviões com movimentos sociais, notadamente o MST e os movimentos de sem-teto – fundaram o Movimento Rua São Jorge, composto por diversas lideranças da torcida e outros membros insatisfeitos com a condução da entidade, cujos dirigentes sofriam acusações de corrupção e de colocar interesses individuais à frente dos coletivos, incluindo aí suspeitas de envolvimento de alguns deles com algumas das muitas máfias que rondam o meio do futebol. Passando a se encontrar em frente ao Corinthians, na rua São Jorge, para ir aos jogos, os membros do Movimento se tornaram alvo fácil para as outras organizadas a partir do momento em que não constituem juridicamente uma nova torcida e, por conta disso, não contam com proteção (?) policial em dias de jogos. Por conta dessa exposição, acabaram por alugar uma sede própria, que não serve como uma desculpa para fundar uma nova torcida – afinal, todos eles têm orgulho e fazem questão de afirmar que são Gaviões da Fiel –, mas como ponto de encontro de torcedores que antes se concentravam em bares na frente do Corinthians.

Num cenário em que a sociedade deteriorou de tal maneira os espaços públicos e coletivos a ponto de que as disputas entre torcidas saíram cada vez mais do nível simbólico para alcançar o nível do confronto físico pela ocupação de um espaço que é, no cotidiano, alheio às duas, o envolvimento da Rua São Jorge em confusões violentas – as quais nem sempre provoca, mas nunca evita, conforme o código de conduta informal que rege o comportamento das torcidas organizadas – serve como prato cheio para desvirtuar aquilo que o movimento tenta construir: um fórum nacional de torcidas organizadas que busque combater a crescente onda repressora e opressora nos estádios brasileiros, que vai desde proibições e arbitrariedades quanto a bandeiras com frases políticas à exclusão e segregação dos torcedores organizados em determinados setores do estádio. Foi nesse sentido que a Rua São Jorge organizou o I Seminário da Rua São Jorge, em março deste ano, para não só explicar a ideologia do movimento mas discutir, nas palavras do release do evento, “as experiências e organização dos movimentos sociais brasileiros e a organização do movimento Rua São Jorge junto ao processo de extinção das torcidas organizadas e a elitização do futebol”.

gavioesSe, em 1979, dez anos depois de fundada e ainda sob a ditadura militar, a Gaviões da Fiel – que a essa altura já tinha conseguido depor Wadih Helu do comando do Corinthians em um episódio chamado de Revolução Corinthiana – estendia uma faixa com os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, em 2009 o Movimento Rua São Jorge busca resgatar este caráter político e contestador da torcida organizada de futebol. Em meio a isso, sofre com a violência – e revida com ela da mesma maneira esquizofrênica com que é atacado – de outros grupos torcedores, muitas vezes dominados por máfias ou influências políticas, e da mídia, da Polícia e do Ministério Público, que não os reconhecem e os marginalizam da mesma forma com que marginalizam outros movimentos sociais por aí e com que espancavam e prendiam membros da Gaviões – e de outras organizadas – que nos anos de chumbo ousavam cantar e dizer contra a ditadura. Afinal, são anos de tratamento animalesco por parte do poder público, e durante esses anos a cultura da violência cresceu de tal forma que não é possível ser terminada de uma hora pra outra, ou por meio de medidas ainda mais autoritárias como as que vemos acontecer dia após dia – chega-se ao cúmulo de propor jogos com torcida única. O problema da violência não é exclusividade do futebol e muito menos caso de polícia: sua ordem é maior, social, intrinsecamente ligada ao processo de expansão espacial do capital que se deu no Brasil aceleradamente da década de 50 em diante.

invasao_2O futebol, por seu caráter aglutinador de massas, consegue proporcionar espaços propícios a todo tipo de experiência política coletiva. A maioria delas é cooptada e orientada no sentido do capital, que vai em busca de uma “limpeza” das arquibancadas com vistas à Copa do Mundo de 2014, que aqui será realizada. Mas é engano dos mais terríveis pensar que as torcidas organizadas são apenas agrupamentos bélicos que buscam exterminar um ao outro: em recente audiência pública na Câmara dos Vereadores em que reclamavam a volta das bandeiras com mastro de bambu aos estádios paulistas, banidas há mais de década, os dirigentes das principais organizadas do estado, cansados da enrolação parlamentar, fecharam o encontro dizendo que, se não tiver conversa, deveriam se unir para chegar em 2014 fortes o suficiente para “roubar todos os turistas e botar fogo nessa merda (sic)”. A violência do capital, portanto, encontra reflexo à medida que se recrudesce, e o autoritarismo força os torcedores a repensar suas práticas, criando a possibilidade de surgimento de outras estruturas e outras idéias e ações como as que o Movimento Rua São Jorge tenta organizar.

Até 2014, o movimento dos torcedores organizados terá um grande desafio: superar a esquizofrenia do aniquilamento mútuo em nome de sua própria sobrevivência. Entretanto, para isso, precisa conseguir criar algo forte o suficiente para não só sobreviver, mas abrir espaço para se auto-afirmar enquanto movimento social nas cada vez mais excludentes arquibancadas deste país. Parte deste desafio passa por uma revisão de suas estruturas e de suas alianças. No caso da Gaviões, entre o MST e o espectro das máfias organizadas, há um abismo que pode decretar a falência ou a reorganização do ideal de “procedimento” que, desde sempre, norteou as ações da torcida.

Hoje, o Movimento Rua São Jorge representa a possibilidade transformadora desse ideal. Resta torcer e, na medida do possível, colaborar e participar para que a violência – em todas as suas formas, do preço do ingresso ao confronto físico com outras organizadas – não acabe por reduzir esse potencial ao nível das disputas sangrentas por poder.

[*] https://vailateral.wordpress.com

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A paz dos justos

por Thomas Castilho

Após cada um dos finais de semana do mundo da bola recheados de tragédias somos obrigados a ouvir a velha ladainha de sempre. Talvez um ou outro personagem novo, deslumbrado com a possibilidade de sucesso rápido. Sem o mínimo de conhecimento de causa, pensa em fórmulas mágicas capazes de solucionar um problema crônico de nossa sociedade, manifesto todos os dias de inúmeras formas, inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias. Balbuciam números como se ali existisse alguma solução capaz de se fazer entender as complexas relações que envolvem os diferentes personagens do meio esportivo, particularmente do futebol.

Um grande número de jornalistas despeja sua ignorância e seu preconceito por todos os cantos, se alimentando das tragédias como o urubu da carniça. Partem dos dogmas levianos em que fundamentam seus raciocínios limitados para conseguir chegar apenas a conclusões vazias que guerreiam para ver quem tem o adjetivo mais criativo. Uma guerra de adjetivos e qualificações, desprovida de idéias e fundamentos. 

Isso cansa. Lamentavelmente, apenas demonstra que os problemas crônicos relacionados à violência e à falta de organização do futebol brasileiro vão bem, obrigado, assim como também indica a falta de vida inteligente buscando soluções perenes, construídas com engajamento e trabalho, sem rótulos baratos. Se não é “inteligente” quem vai aos estádios num dia de clássico, me parecem menos inteligentes aqueles que vivem para adjetivar os “não-inteligentes”, sejam eles torcedores, dirigentes ou jogadores.

Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.

 Alguns princípios básicos:


– Todo trabalho que venha a ser feito deve ser pensado no longo prazo. Isso quer dizer que mesmo depois de eliminados os episódios que resultam em mortes, ele deve continuar. Não pode ser deixado no meio do caminho como tem sido feito. Contínuo e ininterrupto, reunindo representantes do Estado, dos clubes, e da sociedade civil (torcedores, organizados e não-organizados, marqueteiros, psicólogos, estudiosos da área, jornalistas). Deve ser em nível Nacional e local, com o levantamento de problemas específicos e relevando as diversidades culturais e estruturais nas diferentes regiões do país. Todas as demandas devem ser ouvidas e atendidas dentro das possibilidades.

– o objetivo é fazer a paz para os torcedores que historicamente freqüentam os estádios de futebol, todos eles, respeitando seus valores e sua cultura. Respeitando o seu modo de torcer desenvolvido ao longo de um século. Uma paz inclusive para aqueles torcedores das finadas Gerais, épicas, do Maracanã, do Mineirão, do Beira-Rio ou do Morumbi, que é agora dos torcedores “VISA”. Paz, implica respeitar o direito dos que têm e dos que não têm, rejeitando qualquer tipo de paz financeira, que há muito é sugerida por nossa elite. O que importa se a imprensa submissa, que só consegue enxergar a Europa quando busca uma referência, acha bonitinho os bilhetinhos e as cadeirinhas numeradas se o povão que vive o drama gosta de ficar em pé, abraçado, fazendo o “póropópó geral”? Não se trata de gado, e podemos bem decidir o que é melhor para a gente, quer achem feio, quer não.

– assumimos que moramos num país regido por uma Constituição, da qual emana toda e qualquer lei, pouco importando os caprichos daqueles que são contra a existência das torcidas. Não tem relevância. A idéia já começa diferente. Se nós queremos a paz, partimos do seguinte pressuposto: vivemos num estado de direito e todos são inocentes até que se prove ao contrário. As lideranças não devem viver no gueto. Se alguém deve para a lei cabe à Justiça julgar e punir possíveis culpados. Nós não temos nenhum Daniel Dantas como associado e o presidente do Supremo não nos daria Habeas Corpus ou muito menos se oporia ao uso de algemas contra nossos associados. As torcidas não têm nenhuma razão para se omitir em um processo de paz. Se as torcidas são parte do problema, certamente são a única via para uma paz verdadeira, que não seja pautada apenas pela repressão. As lideranças de torcida devem ser reconhecidas como parte fundamental de qualquer processo que mencione a palavra paz. Não sendo julgados sem que tenham alguma pendência com a justiça, como é feito. A paz de verdade não é feita nos blogs, não é feita nos gabinetes e muito menos nas redações. A paz verdadeira é feita nas ruas. Faz paz quem tem disposição para a guerra. E o pressuposto básico é a justiça.

– o outro lado importante desse processo chama-se Polícia Militar. É preciso criar um destacamento especial para lidar somente com estádios de futebol. Pessoas especialmente treinadas para lidar com multidão em praças esportivas, aprendendo a tratar o torcedor com o devido respeito e deixando de enxergá-lo como um inimigo, evitando os atos de punição coletiva, como ocorrido no Morumbi no último clássico. Devidamente equipados e treinados, procurando estreitar ao máximo a cooperação entre as lideranças de torcida e os oficiais. Esse trabalho, que teve início há muitos anos na saudosa gestão do coronel Resende e que teve continuidade com o coronel Marinho, tem momentos de avanços e momentos de retrocessos. Deve ser aprofundado, aumentando a proximidade dos atores envolvidos e acertando a cooperação entre policiais e lideranças sempre que qualquer tipo de conflito venha a ocorrer. Como meta sempre o diálogo antes de ampliar o uso da violência. Respeito recíproco deve ser construído. Temos que mudar um olhar que infere a inimizade para um que permita nos enxergarmos como cooperadores que possuem objetivos comuns.

– outro ponto é o desenvolvimento de uma legislação específica para crimes em praças esportivas e tribunais móveis capazes de julgar e aplicar a pena no momento do evento. As leis devem endurecer nos casos de utilização de armas, de qualquer espécie, em qualquer local, e buscar a construção de penas alternativas para infrações menores, inclusive impossibilitando a presença de transgressores nos estádios nos dias de jogo do seu time. Essas leis devem ser formuladas com a participação de todos os setores da sociedade civil, e não podem ser carentes de eficácia, levando em consideração todos os problemas já existentes em nossa ordem jurídica. O Jecrim (Juizado Especial Criminal) foi uma experiência válida, e tentou algumas vezes atuar na frente dos estádios. Mas aonde anda? Toda ação – Jecrim, Comissão da Paz, Comissão do PROCON – é importante, mas se e somente se for atuante o suficiente para não cair no esquecimento e desuso. Mais do isso devem ser integradas, para que se alimentem e troquem experiências, traçando objetivos de curto e de longo prazo, se renovando e se desenvolvendo.
 
– as torcidas devem assumir um compromisso de extermínio de toda e qualquer prática de violência premeditada, criar mecanismos eficientes de punição interna, além de banir qualquer tipo de música que faça apologia à violência.

Depois dos princípios básicos serem respeitados, vamos ao caminho:

– mapeamento de todos principais conflitos e problemas do Brasil envolvendo o futebol,e principalmente os que dizem respeito às torcidas. Identificar todos os jogos que envolvem maior rivalidade e risco de episódios trágicos. O aumento da rivalidade entre as torcidas tem raízes históricas, que passam por problemas ocorridos ao longo do tempo. Um incidente ocorrido num jogo lá da década de 80 em uma caravana específica, num momento em que o policiamento ainda não estava presente, e que se iniciou com uma discussão banal entre dois torcedores alcoolizados, pode explicar a origem de um conflito irracional que se arrasta durante anos. Ao mesmo tempo, existem torcidas que demonstram ter afinidades e desenvolvem uma relação de cordialidade. Tudo isso deve ser relevado. Priorizando e prevenindo os principais conflitos podemos pôr um fim nessas diferenças, que são o que alimenta o ciclo. Eles possuem um lado pessoal e um lado impessoal. Ao mesmo tempo em que muitos dos que brigam conhecem os que brigam nas outras torcidas, mostrando um traço de pessoalidade, os conflitos têm o poder de se perpetuar no tempo, envolvendo as gerações futuras, o que o torna também impessoal. Mesmo os que nunca tiveram problemas, nunca pensaram em brigas, e que por ventura se disponham a acompanhar seu time pelo seu estado e pelo Brasil, terão que lidar com uma realidade complexa, da qual a violência já é parte.
 
– reuniões antes de todos os clássicos e jogos de risco, envolvendo as lideranças das torcidas e o comando do policiamento. Mapeamento de todos os coletivos espalhados pela cidade, identificação dos principais pontos de encontro, acerto de horários e trajetos, identificação dos pontos críticos e envio de destacamentos para locais pré-determinados entre o policiamento e as torcidas. Essas reuniões seriam espalhadas para os bairros, dando responsabilidade aos torcedores e facilitando as investigações de possíveis incidentes. A imprensa tomaria parte nesse ponto, ajudando na divulgação de trajetos e horários e dando voz às lideranças para que orientem seus associados. Ampliando a via de contato com os associados. As torcidas já se submeteram a cadastramentos humilhantes sem que nenhuma de nossas demandas fosse ouvida. Aqui nesse país se cadastra por prevenção, presumindo não a inocência, mas a culpa. Hoje, lemos a notícia que mais uma carteirinha mágica será feita para “acabar com a violência”. Seria muito fácil se carteirinhas acabassem com a violência, não? Aliás, para que temos R.G.? Só mais uma burocracia irracional para satisfazer a ânsia por respostas da sociedade. Isso já não tinha sido feito, só com os “vândalos”? Mas os sábios da bola e da política não sabem nem que a maioria dos problemas ocorre não nas redondezas dos estádios, mas nos terminais longínquos dos bairros ou no centro da cidade, e nos trajetos para o estádio. Nesses pontos ninguém mostra carteirinha. Além do mais, leis inconstitucionais costumam ter vida curta. Carecem de vigência. O Capez sabe bem disso.

– uma campanha nacional utilizando todos os meios disponíveis para divulgar mensagens inteligentes para a construção da paz, inclusive com as lideranças participando do processo, empenhando suas imagens e suas palavras num compromisso. Também jogadores, ex-jogadores, personalidades ligadas ao esporte, e todos que possam contribuir.

Pela televisão, pelo rádio, panfletos e jornais. Coisa bem feita, com gente boa. De forma que possamos assim construir um ambiente no qual as pessoas saiam de casa com seus espíritos desarmados, sem disposição para a guerra. Um pouco diferente do que foi feito no último jogo entre Corinthians e São Paulo.

Essa é a paz dos justos. Não é a paz dos que assistem aos jogos das cabines de transmissão, ou do conforto da sua sala, mas a paz dos que vivem a realidade não muito atraente dos estádios de futebol. Dos que convivem com a violência policial, dos que pagam preços abusivos pelos ingressos, dos que esperam pacientemente o horário-do-final-da-novela para o início do jogo, que andam quilômetros até o centrão para pegar o último busão para casa, que enfrentam os banheiros porcos e vêem seus clubes administrados por dirigentes corruptos. A paz dos que vêem seus ídolos trocar de time como trocam de camisa e que observam seus clubes se tornarem palco para atuação de meia dúzia de dirigentes e empresários interessados nos lucros do comércio dos menores boleiros. E que ainda assim pagam 30, 40, 50 ou 70 reais para assistir um jogo de futebol, na chuva ou no sol, na quarta e no domingo. Dos que sofrem a discriminação da imprensa e ainda assim pegam a estrada e rumam para os quatro cantos desse país acompanhando seu time. Dos que têm se acostumado com os escândalos envolvendo árbitros, sem deixar de se submeter às mais constrangedoras situações para extravasar seu grito de gol.

 Num mundo regido pela matéria, pelo dinheiro, o não-inteligente não é aquele que não mede esforços para expressar o amor, mas aquele suficientemente racional e burocrático para se dizer inteligente porque tem medo de ir viver o amor. Amor e inteligência só combinam quando a inteligência está no ato de amar, já que depois que amamos, não parece ser inteligente o que nos dispomos a fazer. Todos nós. 


O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.

(Thomas Castilho é ex-conselheiro e ex-diretor dos Gaviões da Fiel)

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Extinção das organizadas?

Recebi por email.

Acontecerá um debate sobre o tema envolvendo PM, MP e as próprias organizadas em Goiás.

Gostaria de poder participar, mas não dá.

Se alguém for, e puder fazer um relato, agradeço.

***

 *UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS – UEG*

  *Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia de Goiás – ESEFFEGO*

  *Unidade Universitária de Goiânia*

  *Av. Anhanguera n° 1420 Vila Nova Goiânia/GO – CEP. 74.705-010*

  *Criada pela Lei n° 4.640 de 08/10/63*

            O Grupo de Estudos e Pesquisas em Esporte Cultura e Cidade
  (GEPECC/ESEFFEGO), convida os interessados , à participar do debate
  /A Violência no Futebol e a Extinção das Torcidas Organizadas,/ que
  realizar-se-á no dia 05/03/2009 pela manhã às 8:45hs e pela tarde as
  15:15hs, no auditório da ESEFFEGO. Oevento contará com as
  participações do Ministério Público de Goiás, Polícia Militar de
  Goiás e de representantes da Torcidas Esquadrão Vilanovense e Força
  Jovem Goiás.

            Informamos ainda, que o debate terá como objetivo discutir
  o pedido extinção das Torcidas Organizadas feito ao Ministério
  Público sob os seguintes aspéctos: 1) efeitos jurídicos do pedido;
  2) eficácia da ação; 3) políticas de segurança nos espetáculos
  futebolísticos.

            *  Para informações ligar no fone (62) 3522-3514  *

            Sendo o que tínhamos para o momento, contamos com
  participação de todos,
    
  Atenciosamente,

  Prof. Marcus Jary Nascimento

  Coordenador do GPECC

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Majestoso: a torcida se levanta

Parece que o acontecido no Corinthians x São Paulo último não passará em branco.

Recebi o comunicado abaixo via email.

É dever de todos que lutam contra a impunidade divulgar.

E é mais dever ainda dos que foram ao jogo participar da ação.

***

Atenção rapaziada dos Gaviões, iremos ingressar uma ação coletiva contra o SPFC e Federação Paulista de Futebol. Menciono que não haverá custo algum a todos membros e não membros do nosso movimento, pedimos a gentileza que sejam separadas as xerox da identidade, do CPF, comprovante de residência e ingresso do jogo.

Estamos provindenciando um endereço eletrônico para o envio dos dados, assim como o preenchimento da ficha para entrar com a ação.

Peço o favor de divulgarem a todos os corinthianos que estavam presentes no jogo Corinthians x São Paulo essa nossa ação.

RUA SÃO JORGE  – A RUA DO CORINTHIANO 

Envie seu e-mail para rsj1910@hotmail.com e você receberá um formulário para anexar os documentos necessários para entrar com a ação.

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Heloísa Reis

Heloísa Reis, socióloga, opina sobre o que fazer para conter a violência bo futebol no blog Casa do Torcedor.

Apesar de o Vai, lateral! considerar suas propostas “oficiais” demais – o Congresso e os deputados são tratados como entes frágeis e delicados que precisam ser “sensibilizados”, quando na verdade são órgãos e servidores públicos que devem ser cobrados, isso sim, a cumprir suas funções sociais – vale a pena ler.

Para isso, clique aqui.

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O muro

(créditos para o Cruz de Savóia)

omuro

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Uma campanha que vale a pena

Recebi do Arnaldo, do blog Casa do Torcedor, e já aderi.

Espero que o maior número de pessoas com voz e alcance na mídia possa fazer essa proposta repercutir o suficiente pra se tornar realidade.

***

Casa do Torcedor e Terreiro do Galo lançam a Campanha “Paz nos Estádios – Blogueiros unidos em busca de Justiça”

 Um atleticano baleado em um ponto de ônibus em Belo Horizonte. Mais de 40 corintianos feridos em um confronto com a Polícia Militar no Morumbi. Brigas e tiroteio entre flamenguistas, botafoguenses e policiais nas proximidades do Maracanã. E outras confusões em estádios de futebol por todo o país.

Esse foi o saldo de um domingo que não pode ser esquecido na história do futebol brasileiro. Apesar de terem chocado todos nós, esses acontecimentos são, infelizmente, comuns.

Quando o jovem Márcio Gasparim, de 16 anos, foi morto a pauladas em uma verdadeira batalha campal no Pacaembu em 1995, já esperávamos que fossem tomadas atitudes que diminuíssem a violência nos estádios. Não foram.

As confusões em estádios ou fora deles não cessaram. E a cada uma, fazemos uma pergunta que explica por que elas acontecem: Por que ninguém é punido? Nem torcedores vândalos, nem policiais truculentos e, muito menos, cartolas que incitam a violência inflamando as torcidas, são punidos.

A experiência do passado nos torna céticos quanto às atitudes que as autoridades devem tomar. Mas isso não deve impedir nossa mobilização em busca da paz nos estádios.

A Casa do Torcedor e o blog Terreiro do Galo, então, acabam de lançar a Campanha “Paz nos Estádios – Blogueiros Unidos em Busca de Justiça”. Queremos com ela unir blogs, jornalistas e demais pessoas que têm o mesmo ideal.

Nosso objetivo é pressionar as autoridades a aprovarem uma legislação específica que previna e puna a violência nos estádios e seus arredores. Uma lei que puna com rigor os responsáveis por atos de violência no futebol, sejam eles torcedores, policiais ou até dirigentes que incitem a barbárie.

Temos certeza que um dispositivo legal construído a partir da ampla discussão entre todas as pessoas que estejam ligadas de alguma maneira ao futebol é a melhor maneira de diminuir a violência no esporte e, assim, devolver ao torcedor a certeza de voltar são e salvo para casa após o simples ato de ver seu time jogar.

Faça parte dessa campanha! Clique na imagem e capture o banner. Pedimos a todos que aderirem a essa mobilização que enviem um e-mail para paznosestadios@gmail.com, dando-nos o nome e link para o seu blog. Quanto mais blogueiros se unirem nesta nobre causa, mais força teremos para exigir uma resposta dos responsáveis pela segurança do torcedor brasileiro. Ainda, a utilização deste texto para apresentar o projeto aos seus leitores poderá ser uma ótima estratégia para melhor informá-los da campanha.

Faça parte dessa grande corrente, independentemente das cores que seu clube veste. Contamos com a participação de todos os blogueiros apaixonados pelo futebol e, principalmente, apaixonados pela vida.

Atenciosamente,

Arnaldo Gonçalves – Casa do Torcedor

Christian Munaier – Terreiro do Galo 

Arte: FredKONG

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