Arquivo da tag: vira-casaca

Apito inicial

Bem vindos, amigos e amigas.

Este é o Vai, lateral!, um espaço criado para que se fale de tudo que tem a ver com a parte mais importante do futebol: o torcedor.

Ele surgiu da necessidade de seu autor, Kadj Oman, em reservar um espaço virtual apenas para isso, um de seus maiores prazeres.

O blog começa com uma polêmica, e das boas: o curioso caso de Anderson Reyes, o homem que quer cometer a maior blasfêmia possível para um torcedor de futebol: mudar de time.

Acontece que Anderson, de família palmeirense, começou a gostar de futebol com seus 6 ou 7 anos, como todo garoto – e felizmente, cada vez mais, também muitas garotas neste país.

Só que não se interessou muito pela bola, quer dizer, em ser seu acompanhante assíduo, e era daqueles palmeirenses que não conhece nenhum jogador, não vai ao estádio, só tem camisa porque ganhou do pai e vive feliz apenas por saber que tem lugar cativo numa das muitas nações futebolísticas brasileiras.

Até que, numa dessas avalanches da vida, Anderson, alheio ao que era o rufar furioso das vozes e tambores de uma arquibancada lotada, esteve num show que mudou sua vida.

Um show que aconteceu num estádio, mas sem nenhum jogador em campo: o espetáculo em questão era a música, não aquela jogada pelo seu Palmeiras de 93/94, mas a que fez de Bob Marley mundialmente conhecido e cultuado.

Um show de reggae.

Acontece que o cantor da banda que se apresentava, entre uma música e outra, resolveu brincar com os torcedores ali presentes. E começou a evocar o grito das nações, uma a uma.

De repente, passados Palmeiras, São Paulo, Santos e até o Flamengo, chegou a vez do eterno rival, aquele povo alvinegro, tão sem cor, tão antipático ao verde do gramado – embora simpático às cores tradicionais da bola.

E o que Anderson sentiu ao escutar o eco de “Timão, eô” foi tão forte que ele começou a cantar junto.

Pra total desespero de seus amigos, principalmente os alviverdes.

Dali, a coisa só piorou.

Chegando em casa, Anderson ouviu do pai que podia mudar de mulher, de casa, de emprego, até de sexo, mas não de time.

Era inaceitável.

Um crime só comparável, talvez, à abominável patologia que acomete aqueles que não gostam de futebol.

Preso então num caminho sem saída, sufocado, encurralado, Anderson passou a comentar ainda menos de futebol com os amigos do que já fazia. Limitava-se ao sorriso amarelo ao ouvir do pai que o Palmeiras tinha vencido e ao escutar escondido dos tambores da Fiel Torcida quando sozinho.

Ali tinha um bando de loucos.

E ele queria ser mais um.

Foi aí que entrou em cena Maurício Noznica, o Homem das Mil Camisas.

Que apareceu como num sonho na vida de nosso anti-herói e disse a ele para seguir seu coração.

Como ele próprio, que por muito tempo havia sido são-paulino, mas que largou tudo e fugiu para o Motel João Ramalho ao descobrir o quão apaixonante era torcer para o Santo André, o time de sua cidade.

Alguém que teve uma coragem que poucos demonstram no país do futebol.

Foi Maurício quem me passou o contato de Anderson.

E antes de escutá-lo e pedir para relatar sua história, fiz questão de dizer a ele que o entendia perfeitamente.

Porque meu pai, um autêntico Tricolor das Laranjeiras, resolveu me levar a um jogo de cada um dos grandes paulistas, eu com meus 7 anos e descobrindo o rolar da redonda, para descobrir qual deles ganhava meu coração.

No primeiro, o São Paulo perdeu duas vezes, em pleno Parque Antártica (não sei porque cargas d’água o jogo foi lá): para o Atlético Mineiro por 2 x 1, e pra mim por infinito a zero, posto que odiei aquele time com três listras.

No segundo, quem perdeu foi o Palmeiras.

Mesmo sem ter entrado em campo.

Porque até hoje eu não me lembro qual era o jogo, o lugar ou o placar.

É irrelevante.

Tudo que levo comigo daquele dia são as memórias da bateria, que a partir de então quis aprender a tocar, e o calor alvinegro que inundou meu coração.

Tão forte e intenso que meu pai, já abalado pela Invasão de 76 e pelo Carnaval de 77, dali ao fim da vida viveu uma gradativa perda de cores até morrer corinthiano, comigo, num 25 de janeiro em que a juventude alvinegra conquistava seu sétimo título.

Frente a tudo isso, Anderson, este representante autêntico e heróico do anti-herói do futebol, o vira-casaca, não teve outra saída que não me dizer (num tom de voz que misturava a felicidade de quem encontra um ombro amigo com a resignação de quem se vê tendo que ir contra as origens):

– Oman, eu não me engano. Meu coração é corinthiano.

Bem vindo à família.

4 Comentários

Arquivado em rivalidade